[Resenha] Tchandala encontra seu caminho com o excelente Resilience

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Tchandala – Resilience
(nacional)

por Clovis Roman

A cena musical no Brasil é bastante profícua. Um dos bons nomes quando o assunto é Metal é o Tchandala, do Sergipe. O terceiro álbum completo dos caras é Resilience, um trabalho coeso e esmerado. Abaixo, passo minhas impressões sobre o disco, e depois uma entrevista com os membros do quinteto.

O disco
Conheci a banda Tchandala na época do Fear of Time, disco que recebi para resenha. A música “One Billion Lights” grudou na minha cabeça, um Hard acessível com melodias vocais bem sacadas. Volta e meia ainda a cantarolo displicentemente por aí. Naquele trabalho, havia algo mais próximo do Prog e do Melódico, com advento de teclados e tudo o mais. Portanto, quando ouvi Resilience, me espantei um tanto, afinal aqui eles apostam em sons mais Heavy, mais secos e em geral, velozes. Não a toa o teclado foi embora (ao menos da formação oficial, já que no álbum há três canções com esse instrumento) e gravaram esse material mais recente com um segundo guitarrista.

O trabalho de Sandro Souza (baixo), Pablo Rubino (bateria e vocais de apoio), Dejair Benjamim (vocais) e a dupla de guitarristas Thâmise Rocha e Rafael Moraes começa com “The Flame”, que mostra de cara que a banda amadureceu e injetou uma dose extra de energia no seu som. É algo que se aproxima do Stratovarius na parte das melodias vocais, só que no caso, sem teclado. Longos solos Heavy dão ainda mais qualidade à faixa.

“Labyrinth” reforça o peso, com excelentes riffs e vocal virtuoso, com clara e bem vinda influência de André Matos na interpretação. Em “Valley of Greed” os vocais mais agudos aparecem em demasia – nos tons médios o resultado é bem mais bacana – e os vocais de apoio estão muito altos, mas o instrumental é matador, tanto a sessão de cordas quanto a bateria de Pablo.

Quebrando totalmente o ritmo metálico, “Lamento ao Velho Chico”, cuja performance é creditada à Déo Miranda, invoca a cultura local nordestina, um cântico lamurioso em português, cujo fenomenal resultado é um dos destaque de todo o disco. As guitarras retornam com fúria em “Tears of River” – outra que emana a herança cultural com um excerto de “Chorinho Landinho”, da banda Pífano de Caruaru – que antecede “Echoes Through the Fourth Dimension”, um som folk executado ao lado do duo Write Me a Letter, de Renan Fontes e Clarice Pawlow. Apesar de bem diferentes das outras mais pesadas, ambas funcionam como interlúdios e dão dinamismo ao disco.

Flatland, retoma o peso com uma letra introspectiva de auto análise, invocando uma epifania existencial. Destaque para os coros bem encaixados antes do solo. “Shadows” segue mantendo a mesma ideia, e mesmo estando já na segunda metade do álbum, ainda é de impressionar a qualidade de gravação e de execução, além de toda a estruturação das composições. “Father’s Spirit” é outra quebra no andamento, pois é uma balada, bem feitinha diga-se de passagem, guiada por violão e teclados.

A capa do disco Resilience

Mais um bloco de duas canções também bastante pesadas fecha o tracklist regular. Primeiro, “Caesar”, que tem como convidado especial Tim Ripper Owens, ex-Judas Priest, aquele que nunca gravou mais de 2 álbuns com a mesma banda, qualquer que seja. Ele canta muito bem, certamente, e seu timbre agudo e rouco é bastante característico. Porém pouco agrega musicalmente, pois não soa conectado ao material, e além do mais, na faixa 10 o ouvinte já está mais que satisfeito com a performance de Dejair, cujas interpretações viscerais são memoráveis. A décima primeira e derradeira é a faixa título. Ainda há espaço para uma bela releitura acústica de “Echoes Through the Fourth Dimension”, apenas com a dupla do Write Me a Letter.

A evolução e refinamento técnico e de composição do Tchandala em Resilience é notável. A banda achou seu caminho. Eu poderia escrever mais algumas páginas dissecando cada detalhe desse trabalho, mas prefiro deixar essa viagem à cargo do leitor. Essa matéria tardou a sair justamente pelo fato de eu nunca achar ter terminado, pois a cada audição eu descobria alguma coisa nova. Se há assim tantos elementos, nuances, camadas e melodias, certamente é um álbum que merece ser consumido. Não deixe de conferir.

Entrevista
Para complementar as minhas impressões do álbum, expostas acima, e também para contextualizar o leitor sobre o Tchandala e sua história, conduzi uma entrevista com o grupo, via email. Aperte o play e confira:

Resilience saiu em 2017, logo completando dois anos de lançamento. Já há composições para um vindouro trabalho? Ou a banda está mais focada em outras coisas no momento, como divulgação e shows?
Dejair Benjamim
: No final de 2018 lançamos o EP “Turning the Hourglass”, com regravações, o que ainda é um material bem recente para os fãs, e mostra o momento atual da banda, especialmente comparando as versões atuais das músicas do primeiro cd. Já começamos as composições do próximo CD, ainda sem título, e esperamos lançá-lo em 2020.

Thâmise Rocha: Neste momento estamos discutindo o formato sonoro do próximo álbum e entrando em fase de composição. Já temos algumas músicas prontas e várias ideias de futuras músicas. Acredito que iremos fazer mais músicas do que a quantidade ideal que iremos colocar no álbum (pensamos que 08 músicas seria a quantidade perfeita). Depois que compusermos as músicas, iremos fazer uma triagem.

O título ‘Tears of River’ soa como um contraste com seu clipe, já que o mesmo, feito em xilogravura, tem o sertão nordestino como cenário. Essa dicotomia foi racionalizada?
Pablo Rubino
: “Tears of River” fala sobre a transposição do rio São Francisco, fazendo um paralelo com o desenvolvimento da ciência e das cidades, ressaltando os benefícios e problemas que o progresso pode trazer, incluindo sérias consequências, e quando pensamos no clipe quisemos valorizar a cultura nordestina e as comunidades ribeirinhas.

Thâmise: Na verdade não enxergo como dicotomia. O clipe traz elementos representativos da cultura nordestina alinhados com a crítica que tecemos acerca da realidade do “Velho Chico”.

Você consegue traçar um paralelo comparativo entre Fantastic Darkness, Fear of Time e Resilience? (o que mudou daquela época pra cá, as evoluções, aprendizados, conquistas).
Dejair: “Fantastic Darkness” tem um lugar especial para a banda, porque foi o primeiro CD, gravado e lançado de forma rudimentar, impulsionado por uma vontade enorme de ter um registro das músicas e ter o primeiro CD. “Fear of Time” foi gravado com mais qualidade e mudanças importantes na formação, com a entrada de Tony Souza, Pablo Rubino e Thâmise Rocha. As composições foram mais cuidadas, e a qualidade da gravação é muito superior, porque gravamos num estúdio profissional. Tony saiu da banda e decidimos colocar um segundo guitarrista, Will Moreira, em lugar de um tecladista, e isso mudou bastante o som da banda e as composições. Will e Thâmise dividiram as composições, e desta vez Pablo escreveu as letras comigo (algo que antes eu fazia só, ou com participação de antigos integrantes, como Pidele Menezes).

Thâmise: Absolutamente. Irei resumir em poucas palavras: O Fantastic Darkness representa o feto, o Fear of Time o nascimento e o Resilience, o ápice!

Pablo: Essas mudanças fizeram muita diferença. Decidimos não fazer shows e nos dedicar exclusivamente a compor o CD, e o resultado é o que consideramos o ponto alto de nossa trajetória até o momento. Will precisou sair, então Thâmise gravou a maior parte das guitarras, com participação de Rafael Moraes em algumas faixas. Depois Rafael foi morar em São Paulo, e convidamos Siuari Damaceno, que divide as guitarras com Thâmise. Eu fiquei à frente da direção de arte, o que fez que a capa e o encarte tenham relação direta com as músicas. Marlon Delano fez a arte do “Resilience” e do “Turning the Hourglass”, e provavelmente continuaremos trabalhando com ela nos próximos CDs, e também com o Estúdio Revolusom, de Marcos Franco, que faz um trabalho incrível. No “Fear of Time” e no “Resilience” tivemos participação especial de Dan Loureiro, e no “Resilience” realizamos alguns sonhos da banda, ao ter a participação da dupla “Write Me A Letter”, de Patrícia Sandes, Tim “Ripper” Owens e Iuri Sanson. Houve grande amadurecimento nas composições, letras e na arte do “Resilience”.

Como surgiu a participação de Ripper Owens no CD?
Dejair: Ele é um dos meus vocalistas preferidos, e grande influência. Conseguimos através da nossa assessoria de imprensa. Logo que ele recebeu o material, confirmou a sua participação. Foi incrível tê-lo no CD.

Vocês lançaram o EP Turning The Hourglass, com regravações de material antigo e uma versão diferente de “Father’s Spirit”. Já pensaram em outros formatos para EPs no futuro, como um com algo ao vivo, alguma música que tenha sobrado, ou algumas covers (afinal, vocês já gravaram Helloween e Anthrax)?
Pablo: E participamos também do tributo a Edu Falaschi [N. do R.: com uma versão cheia de identidade da espetacular Scream of People, do Symbols]. Sim, isso faz parte dos planos. Algo ao vivo ou acústico, estamos decidindo. Ainda tem músicas do “Fantastic Darkness” que sentimos que merecem uma regravação. Temos vários projetos, no momento estamos mais focados nas novas composições, depois veremos o próximo passo.

Thâmise: “Fantastic Darkness” e “Mirror of Decay” representam dois dos grandes clássicos da banda. Decidimos que essas músicas mereciam uma nova regravação, desta vez com a “roupagem” que estamos fazendo no momento. “Open Your Life” gravamos devido a oportunidade de participarmos do tributo ao Helloween e “Father’s Spirit” por ter um significado muito importante para o Dejas. A ideia de lançar EP’s é interessante e pretendemos retomá-la daqui a um tempo, já que a prioridade é produzir um novo álbum agora.

Falando em covers, como surgiu o convite para participar do tributo Helloween Brazilian Tribute II?
Dejair: O site Helloween Brasil abriu inscrições para participação do tributo, daí nos inscrevemos e fomos selecionado.

A escolha de “Open Your Life” é bastante curiosa, pois apesar de ótima música, não é das mais famosas. Vocês levaram isso em consideração na escolha? Acham melhor regravar um som menos cotado do que ir nos clichês da banda homenageada?
Dejair: Recebemos uma lista das músicas possíveis, e das que já haviam sido escolhidas. Sugeri essa e todos gostaram. “Open Your Life” é uma música de letra bem forte e eu me identifico muito com ela, além da ideia de escolher algo não tão conhecido da banda pesou bastante. Tentamos dar uma cara mais Tchandala pra ela e acho que funcionou bastante.

Em homenagem ao amigo Fábio Andrade, Dejair e Sandro participaram de um tributo ao KING DIAMOND. Como o rei influenciou no som do Tchandala como um todo? Aliás, que grupos você considera crucial em sua formação musical e na da banda também?
Dejair: King Diamond é uma grande influência para gente, é só dar uma ouvida em músicas do primeiro CD como “Reborn” e você irá perceber isso. Eu particularmente sou influenciado por diversas bandas como Twisted Sister, Savatage, Symphony X, Judas Priest, Testament, Nevermore, Dark Avenger, Korzus. Algo bem mesclado, gosto desse lance de variação de voz.

Pablo: Com certeza minha maior influência é o Rush, incluindo a forma de pensar as letras e o que um disco como um todo deve ser. Também são grandes influências Enchant, Porcupine Tree, Dave Matthews Band, Aghora, Cynic, Brincando de Deus e muitas outras.

Thâmise: Posso destacar algumas bandas, como: Judas Priest, Deep Purple, Black Sabbath, Dio, Ozzy, Led Zeppelin, Accept, a galera do NWOBHM e do Hard Rock… seriam dezenas de bandas.

Uma pergunta que faço para todos meus entrevistados: Qual banda você acharia que gravaria uma cover legal de alguma das músicas do Tchandala?
Dejair: Acredito que Nevermore, faria algo fantástico com a nossa música.

Thâmise: Sem dúvidas a minha banda predileta, o Judas Priest.

Pablo: Acho que o Threshold combinaria bem. Se o Within Temptation fizesse um cover de “Echoes Through the Fourth Dimension” não nos incomodaria nem um pouco.

Conheça mais a banda em: www.facebook.com/Tchandala

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