Cante como uma garota! Conheça Tati Klingel, a mina referência na música pesada em Curitiba

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Vocalista, compositora, instrutora de técnica vocal particular, aplicando o método que chama de A Arte de Berrar, rebatendo todo mundo que acha que pra cantar gutural não precisa de técnica. Quem vive o underground curitibano com certeza já ouviu falar sobre a Tati Klingel. Além das aulas, ela faz parte da veterana Mercy Killing – banda muito importante no cenário da cidade, com mais de 30 anos de estrada – e do projeto recém formado chamado Hokmoth, que pela qualidade das músicas, já se tornou uma nova promessa.

Batemos um papo com a Tati pra conhecer mais sobre a sua trajetória e influências e com isso, inspirar outras mulheres a entrarem no universo da música pesada.

Por Kenia Cordeiro

Como e quando você começou a cantar?
Senta que lá vem a história (rs…). Interessei-me por guturais após conhecer as bandas Death e Cannibal Corpse, quando eu tinha aproximadamente 15 anos (isso foi em 2003 acho). Quem me apresentou essas bandas foi o Clovis Roman, e inclusive, indicou como que eu deveria berrar. Um belo dia, após ficar dias escutando e tentando entender o que Chuck Shuldiner cantada em Bite the Pain, resolvi arriscar alguns berros. Lembro como se fosse hoje, eu de pijama de ursinho, no meu quarto, enquanto meus pais estavam no mercado fazendo compras, soltei os primeiros berros. Alguns falhavam, e saia um barulho de frango esganiçado, até que consegui deixar consistente.

Diagora (Arch Enemy cover) em 2007. Foto: Clovis Roman

Aos 18 anos, eu frequentava o ensaio de uma banda de amigos, a Zerion (Children of Bodom cover) e sempre cantava a música Sixpounder com o Digão. Tremia o microfone de nervoso, e minhas pernas ficavam bambas, mas me divertia muito. Em 2006 conheci Tiago Kotrik, ele tinha apenas 16 anos e havia começado a tocar contrabaixo. Passei uma gravação minha cantando We Will Rise do Arch Enemy, e então resolvemos, por brincadeira montar um Arch Enemy cover, a banda Diagora. Os integrantes que fizeram parte desse início eram da banda Zerion, com o Erion Simão e Bruno nas guitarras, Tiago no baixo e Pudim na batera. Conseguimos nos inserir no festival Overmetal, edição Femme Fatale, que ocorria no Opera I. Era uma época de ascensão do Arch Enemy com a Angela Gossow, e foi um show que lotou o Opera I, com 400 pessoas. Havia me preparado bem para subir ao palco. Mas confesso que tremi na base quando subi ao palco com todo mundo me olhando (rs..). Tudo correu bem, apesar do retorno ruim, e eu não fazer ideia de qual parte da música eu deveria entrar. O mais emocionante foi ver a reação do público, que ficou eufórico. E lembro da sensação deliciosa de ver um mosh sendo criado. Essa sensação tenho até hoje em todos os shows que faço, e continuo a tremer na base toda vez que subo ao palco, já é algo da minha essência, ou aliás, do monstrinho que surge quando abro a boca.

E quando o vocal gutural surgiu para você com uma expressão artística?
Antes de começar a cantar, eu tocava guitarra, e aprendi a compor com esse instrumento. Após o fim da Diagora como Arch Enemy cover em meados de 2008/2009 tentei continuar com o projeto, mas fazendo músicas autorais com outra formação, dentro da linha Death Core, com vocal exclusivamente gutural, mas com muito peso e break down. Infelizmente a banda não vingou, mas me deixou eufórica por fazer música autoral e expressar sentimentos pesados por meio do gutural. Acredito que o gutural tem uma energia incrível para expressar sentimentos obscuros e de revolta, sendo perfeito quando combinado a riffs pesados e rápidos. Nesse sentido, fui convidada a participar da Mercy Killing em 2013, a qual me identifiquei muito, e senti que poderia compor a banda, levando ao público essa sensação de colocar a revolta e o protesto para fora. A banda tem uma temática política, e as composições presam a velocidade e peso, levando o público à loucura nos shows. Essa é a arte que componho, fazer o ouvinte liberar toda a energia ruim que está ali presa e o sufocando. Se eu me sinto leve após cantar, acredito que quem ouve também se sente leve ao fim de cada música ou show. Nas gravações, tanto da Mercy Killing, quanto da Hokmoth, fiz questão de praticamente criar um ritual no momento de gravar cada música. Ir ao meu máximo, liberando todo o sentimento que compunha a música, para o ouvinte também sentir essa liberação de energia. Dentro da sala de gravação, gosto de ficar sozinha, para poder fazer as caras mais horríveis e os gestos que combinam para conseguir expor os sentimentos com a voz.

Sua primeira banda oficial foi o Arch Enemy cover, como foi subir ao palco pela primeira vez cantando aquelas músicas? O que essa experiência te trouxe de aprendizado?

Diagora (Arch Enemy cover) em 2007. Foto: Clovis Roman

Foi assustador (rs…). Fora o fato de que na primeira música eu não estava escutando nada, e não sabia a hora que começaria a cantar, senti que o público ficou parado me olhando e então os pensamentos que vieram na minha cabeça foram “Estou errando tudo, não sei o que tá acontecendo”. Mas depois do show me informaram que, na verdade, as pessoas ficaram chocadas quando abri a boca para cantar. Lembro que uma pessoa me falou “Achei que você ia cantar lírico, e fiquem de boca aberta quando você soltou o primeiro berro”. Depois de algumas músicas, o público responder de forma espetacular, fazendo moshs violentos e cantando junto todas as músicas. Consegui criar alguns movimentos de palco, que viraram minha marca registrada como, apontar com o dedo para fazer mosh, e bater na minha própria cabeça, que levo comigo até hoje. A sensação ao fim do show foi de enorme satisfação e leveza, pois o berro tem essa finalidade de jogar os demônios pra fora. Como aprendizado, tive a experiência desde o primeiro show de descer do palco e trocar ideia com as pessoas que assistiram, conhecer um pouco da história de cada um que está ali e que se identifica com o estilo é uma das coisas mais importante para mim. A música vai além de apenas um conjunto de notas, representa sentimentos e histórias de vidas, que muitas vezes são dolorosas. E saber que aquele momento do show pode ter feito diferença para quem ouve é a minha maior satisfação como vocalista.

Como você desenvolveu a ideia de começar a dar aulas de vocal gutural?
A ideia veio junto com a professora de canto, Sandra Bahr, que me acompanha desde 2010. Faziam aproximadamente 6 anos que fazia aula de canto lírico com ela, e então ela sugeriu de eu tentar começar a ensinar canto gutural, inicialmente a um aluno dela que queria aprender a berrar. Após isso, lembrei de um momento em que precisava de aulas para aprender técnica vocal para gutural, e tive enormes dificuldades de encontrar. Lembro que antes de conhecer a Sandra, havia procurado algumas escolas de música e conversado com alguns professores, a qual chegaram a me falar “para berrar não precisa de técnica querida (rs…)”. Foi bem frustrante e pensava que era impossível não haver técnica para aguentar cantar 1 hora seguida sem ficar sem voz. Foi no canto lírico que encontrei a forma como ensinar os berros. É muito similar em vários aspectos, por ser o estilo de canto limpo mais extremo. A respiração é idêntica e a sensação de vibração na cabeça também, o que tornava meu gutural muito potente e sem sentir desconforto na garganta. Então, estudando essas similaridades entre gutural e lírico, resolvi me aplicar em estudar cada detalhe das técnicas e praticamente fazer a transferência de uma para outra, ou seja, treinando o lírico, seria possível transferir a memória muscular para o gutural. E com o tempo e experiência dando aulas, notei que realmente ajudava muito às pessoas a cantar gutural com mais segurança. O meu primeiro aluno efetivo que seguiu rigorosamente esse método foi o Von, vocalista da Evil Project. Ele me procurou para aprender a berrar, pois sentia dificuldade em manter o berro e machucava. Por volta dos 2 anos de treinamento ele gravou o primeiro álbum da banda, com um vocal muito consistente. A partir dessa experiência me senti segura em guiar outras pessoas nesse caminho do gutural, transferindo todo o meu conhecimento para que a pessoa chegue ao objetivo desejado. Atualmente dou aula para todos os estilos de voz, não somente gutural, tratando cada voz, de cada pessoa, como única. Todos têm objetivos diferentes, desde perder a timidez, soltar a voz, cantar para si somente por prazer, até mesmo desenvolver técnicas novas e construir carreira na música. Além das aulas particulares, também estou integrada na Academia do Rock, levando comigo A Arte de Berrar, oferecendo a possibilidade de todos a soltarem seus demônios.

Você vê isso como uma inspiração para outras mulheres?
Sim, obviamente sabemos que o mundo da música extrema tem em sua maior parte homens, o que torna difícil a visibilidade da mulher. Ouvimos constantemente frases como “você canta muito, e dá de 10 a zero em muito macho por aí”, e não somos vistas com naturalidade, sempre vem a comparação. Fora o fato de sofrer assédio ou mesmo ouvir coisas que não precisávamos ouvir. Meu sonho é que um dia seja natural para todos ter bandas femininas ou mulheres que tocam instrumentos inseridas naturalmente em shows e com igualdade e respeito. Pense se fosse ao contrário, chegarmos para um cara e falar “nossa, você toca ou canta muito melhor que qualquer mulher por aí” ou “esse cara só faz sucesso porque usa regata e mostra seus músculos”. É feio né? (rs…). Então, sempre converso com meninas que desejam cantar, qualquer estilo de música, e as encorajo a se inserir no meio. Minha primeira aluna mulher foi a Angie Ramms (vocalista da Molt), que é minha esposa (teve um momento em que ela não fazia mais aulas, e nos tornamos amigas, e então nos aproximamos e agora casamos). E a Angie é a prova desse crescimento e força dentro da música. Ela não se inseriu somente em bandas e foi pé firme diante do machismo, mas também se inseriu como roadie, um mundo totalmente dominado pelos homens em Curitiba. Sinto orgulho em saber que ajudei ela a seguir esse caminho, e ver seu crescimento tanto como vocalista, quanto roadie. Sempre com força de vontade em aprender e superar os obstáculos do meio underground.

E quais são suas maiores influências no vocal?
Minhas maiores influências sempre foram os timbres mais rasgados do Death, Cannibal Corpse e Arch Enemy (Angela Gossow). Atualmente estou viciada em Jinjer, e procuro inspirações para em algum momento misturar canto limpo com guturais.

Mercy Killing. Foto: Giowanella Fotografia

A Mercy Killing lançou em 2015 o disco Euthanasia, e depois vieram alguns lançamentos como EPs e singles. Há planos para um novo álbum de estúdio em um futuro próximo?
Sim, estamos agora com um novo integrante na banda, o baterista Marllon Fabrício, que trás a bagagem do Hard Core, estilo que aprecio muito e que combina com a proposta da banda. Iremos focar os próximos meses em composições novas, mantendo a linha política, e pretendo dar mais ênfase em temas como o feminismo e a força da mulher. Pretendemos nesse ano lançar Singles, EPs e quem sabe sai o álbum completo. Seguiremos a essência da banda, que são as músicas de protesto, revolta, com muito peso e velocidade para todos abrirem moshs destruidores nos shows.

Outra banda sua atualmente é o Hokmoth, mais orientado ao Black Metal. Como é explorar esse território com os seus vocais? Quais as principais diferenças que você nota ao cantar nessa banda em relação ao Thrash Metal da Mercy Killing?
Foi algo totalmente novo para mim, e considero que consegui explorar o máximo da minha capacidade nos vocais guturais. Dentro da linha do Growl, consegue explorar os vocais agudos, graves e pig squeal. Fiquei muito satisfeita com o trabalho, pois além de berrar, consegui explorar os sentimentos que as músicas propunham. A temática da banda foi criada por Yuri Seima, que explora o mundo do ocultismo e espiritualidade. Nas gravações fizemos praticamente rituais para conseguir colocar o máximo de sentimento na voz e transferir ao ouvindo toda a obscuridade da música. A principal diferença em relação à Mercy Killing, além da temática, e a possibilidade de explorar vocais mais longos e trabalhos, justamente pelo formato mais arrastado das músicas. Experimentei texturas diferentes de voz, que dou nomes bizarros, como o vocal gosmento, vocal desesperado, vocal de porco, vocal de tirar o fôlego (rs…). Em cada momento da música foi possível explorar um sentimento de forma mais espiritual. Na Mercy Killing exploro algo mais direto e com ênfase na revolta e protesto.

O Hokmoth deve em breve fazer seus primeiros shows, como será o repertório? Músicas do EP Neophytvs e quem sabe alguma cover ou outra, pelo menos agora no começo?
Há uma sintonia muito forte entre o Mário (baterista) e Yuri, que compõem a linha instrumental. Inicialmente foram feitas as 5 músicas do EP Neophytvs e estamos trabalhando em novas composições para compor o repertório e conseguir fazer um show autêntico que mostre a essência da banda. O Yuri é detalhista e muito cuidadoso nas composições, prestando atenção em cada detalhe para que a música de fato represente uma arte, e transfira apenas pelo som os sentimentos obscuros para o público. Temos esse cuidado na banda, de compor um som relevante e com o sentido que queremos passar. Colocamos para esse ano a meta de nos apresentar ao vivo, e estamos trabalhando arduamente para conseguir criar as novas músicas. Nos ensaios arriscamos uns cover, mas não sei se irão de fato fazer parte do show, prefiro deixar como uma surpresa, mas fica como a dica de que iremos homenagear as origens do Black Metal com a pegada firme, direta e arrastada da Hokmoth.

Gostaria de agradecer muito à Kenia, que está promovendo essa entrevista. Foi uma delícia responder às perguntas e relembrar dos momentos primórdios da minha história na música. Admiro muito seu trabalho!

Acompanhe o trabalho da Tati:

Técnica vocal: @tatiklingel
Mercy Killing: @mercykillingbr
Hokmoth: @hokmothcult

Foto de capa: Onirica Produções

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