[Baú do Clovis] Rotting Christ: 14 anos do show mais lotado da história do Curupira Rock Club

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O Curupira Rock Club foi um dos espaços culturais mais cultuados da região sul do Brasil, por fomentar a movimentação cultural da música independente em Santa Catarina, e também dos estados limítrofes. Em 19 de maio de 2006, os produtores do local contrataram o grupo grego Rotting Christ, nome cultuado no Metal e que há 8 anos não aparecia em nosso país. Essa era a receita para uma noite de casa cheia, o que se concretizou. Esgotada a capacidade de 500 pessoas, conta a lenda que cerca de 200 ficaram de fora, sem terem ingressos para entrar. Apesar da muvuca, a noite transcorreu sem maiores percalços. E sim, o Rotting Christ fez uma apresentação antológica.


Rotting Christ
19 de maio de 2006
Curupira Rock Club
Guaramirim/SC

por Clovis Roman

Meu site da época, o Order News, tinha pouco mais de um ano de existência. Eu muito bem poderia ter solicitado credenciamento para cobrir o show do Rotting Christ em Santa Catarina, mas não o fiz. O ingresso era barato, apenas R$ 20, e eu o comprei sem pestanejar. Me reuni a alguns amigos e pegamos a estrada rumo a Guaramirim, uma cidade no interior daquele estado. Chegar ao município foi fácil, e encontrar um bar, mais ainda. Mas chegar de fato ao Curupira Rock Club foi um tanto mais complexo. A noite já havia caído quando de fato desvendamos os mistérios das ruas da cidade e estacionamos numa chácara – que é rodeada por outras casas e moradias – onde havia uma grande estrutura de madeira, com um bando de cabeludo andando pra lá e pra cá. Era o Curupira.

Cartaz do show.

Em uma construção primitiva feita com mescla de partes em alvenaria e madeira e telhado simples, estávamos, sem ter noção na época, presenciando um momento histórico na história de shows de Metal no sul do Brasil. O Rotting Christ não estava em uma turnê específica de um álbum, mas o mais recente na época era o irregular Sanctus Diavolos. Na verdade, esse álbum é excelente, mas para uma banda com o Rotting Christ, o adjetivo excelente era pouco. A banda já havia viajado do Black Metal ao som mais próximo do Dark/Gothic, e agora começava a dar sinais do que faria a partir do álbum seguinte, o ótimo Theogonia. Sanctus Diavolos é um álbum de transição.

A simpática casa estava abarrotada de gente, certamente mais do que as 500 pessoas que a casa suportava. Havia gente em cima das vigas de madeira que sustentavam o telhado. Era gente que não acabava mais. Alguns amigos que foram comigo, após o show, falaram que aquele havia sido o melhor show que haviam ouvido – já que enxergar o palco, no meio da muvuca, foi impossível. Em entrevista ao site OCP News, o produtor Kélson Mendes, um dos administradores do local na época, afirmou categoricamente aquela ter sido a noite mais lotada da história do recinto: “Foi produzido em parceria com Pierre Luis Rasini quando trouxemos a banda de Black Metal da Grécia, Rotting Christ. Como era o único show em Santa Catarina, atraiu muita gente vindos de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Vendemos todos os ingressos que o local comportava. Foram 500 ingressos […] muita gente foi tentar na hora. Imagina-se que ficaram duzentas pessoas sem ingresso. Este foi, sem dúvida, o maior público da história do Curupira Rock Club“.

O baterista do Evil War, Ichthys Niger (foto: Clovis Roman)

A abertura da noite ficou com duas bandas de visual carregado, que constrastaram com a atração principal, que tocou sem maquiagem ou quaisquer adornos vestuários. Enfim, primeiro veio a Impetus Maleficum, e depois o EvilWar, que divulgava o bom “Bleeding In The Shades Of Baphomet”. A banda estava em uma formação enxuta, em trio. O baterista era, claro, Ichthys Niger (Edilton Purkote), membro fundador, que veio a falecer pouco menos de dois anos depois dessa noite. Na guitarra e vocais, Halphas, que hoje, sem pseudônimo, atende por Alessandro Guimarães e toca já há alguns anos no Jailor. E no baixo, Shaitan, hoje no Doomsday Ceremony. Entre as músicas apresentadas, “Unholy March”, “Deluge Of Blood” e “Offending The Divine Laws”.

De se espantar foi o esquema de segurança, eficiente e discreto, com uso de detector de metal e tudo. Você podia sair e entrar no espaço específico do show, mas cada vez que entrava, era revistado. O entra e sai de pessoas aconteceu bastante durante os números de abertura, pois havia um pátio ao lado da porta, onde, no lado oposto a área do palco, havia os banheiros, e ao lado desses, o bar. E como o ambiente ficava dentro de uma chácara, havia muito espaço a céu aberto, gramados e cantos escuros com árvores e tudo o mais. Cada cantinho desses também virava banheiro masculino, invariavelmente.

Rotting Christ e público separados por uma corda (foto: Clovis Roman)

No Curupira havia uma figura lendária, que todos chamavam de Bananeira. E como você deve imaginar, o apelido veio pelo fato dele ficar plantando bananeira nos shows. Se ele estava lá essa noite, teve que ficar de pé como todo mundo, pois não tinha espaço para ele fazer sua habitual peripécia. Quando o Rotting Christ subiu ao palco, um verdadeiro pandemônio no meio do público emergiu de imediato. Eu, com filmadora em uma mão e uma câmera fotográfica na outra, não titubeei: como estava na grade, eu simplesmente pulei a cordinha de isolamento (era uma cordinha mesmo, literalmente) e subi no palco, logo ao lado de um dos guitarristas. Perdi a abertura com “Fifth Illusions” nessa manobra, mas consegui começar a filmar a partir de “Archon”, do espetacular Triarchy of the Lost Lovers (1996), considerado como um dos melhores discos da banda por fãs e imprensa.

Themis Tolis, do Rotting Christ (foto: Clovis Roman)

Do mais recente álbum, Sanctus Diavolos, a gloriosa “Athanati Este” e a violenta “Visions Of A Blind Order” foram tão mortais quanto sons mais antigos, como “Nom Serviam”, “Fgmenth, Thy Gift” e “The Sign Of Evil Existence” (essas duas últimas do clássico disco de estreia, Thy Mighty Contract, 1993). A banda de Sakis Tolis (guitarra e vocal) se apresentava no Brasil após muitos anos, e contando com uma formação estabilizada. Na bateria, o irmão de Sakis, Themis Tolis, que também está na banda desde o começo, apesar de ter saído por um breve período de tempo nos idos de 1996. No baixo, Andreas Lagios, que na época já estava há uma década na formação, e na segunda guitarra, Giorgos Bokos, que vinha trabalhando com a banda desde o ano anterior e havia sido recém efetivado, tendo ficado até 2012. Ele, entretanto, não gravou nenhum álbum, afinal de contas, no estúdio é Sakis quem grava tudo. Ele apenas fez uma ponta em uma música do disco Theogonia. De resto, sua função era única e exclusivamente tocar ao vivo; assim como Lagios, inclusive.

Ingresso daquela lendária noite (arquivo pessoal Clovis Roman)

Todo o repertório, que durou um tanto mais que uma hora, foi intenso e cru. Houve algumas coisas sampleadas, mas pouco. Era a banda em estado bruto, tocando com uma garra absurda, certamente influenciada pela selvageria do público, que gritava, erguia os braços e agitava o cabelo sem parar. Literalmente. O encerramento, após um repertório intenso e em suma, bastante agressivo, veio com uma dobradinha mais amena (mas igualmente ótima) vinda de A Dead Poem (1999): “Sorrowfull Farewell” e Among Two Storms”, que são, curiosamente, as duas primeiras faixas desse álbum, que trouxe elementos do gótico de maneira mais contundente ao som do grupo grego.

Quando a turnê no Brasil foi anunciada, o grupo postou uma nota oficial, que dizia: “Nós, como banda, estamos ansiosos em tocar novamente para nossos irmãos do Metal no Brasil, músicas de toda nossa discografia. Nós prometemos noites realmente diabólicas“. Nesse caso, a promessa foi cumprida com êxito plano. Afinal, a parte lírica agressiva, unida aos sons velozes e furiosos, se casaram perfeitamente com a aglomeração, calor e as luzes predominantemente vermelhas no palco, que deram, de fato, um ar diabólico a apresentação.

Curupira Rock Club
O palco do lendário Curupira Rock Club pegou fogo nesta noite, no sentido figurado. Infelizmente a literalidade tomou a frente pouco menos de três anos mais tarde. Em 27 de março de 2009, a estrutura do local foi severamente danificada por um incêndio, afetando principalmente a parte onde Sakis e companhia – além de uma infinidade de outros artistas – haviam se apresentado. O equipamento sonoro foi destruído ou pelo fogo ou pela água usada para conter as labaredas. Uma lâmpada esquecida acesa foi apontada pelo proprietário do local, Ivair Nicocelli, como a culpada pelo incidente.

Para conhecer mais a história desse lendário espaço cultural, fundado no começo dos anos 90, assista o documentário “Onde o Pai Cura e o Filho Pira”, cujo trocadilho infame em seu título é nada menos que genial. É um material de uma riqueza Vale frisar que no filme, lá por volta dos 25 minutos, aparecem imagens do show do Rotting Christ, filmadas por um cara que estava exatamente do meu lado, por isso minhas fotos tem basicamente o mesmo ângulo que essas cenas.

Galeria de fotos
Sim, todas são do mesmo ângulo, pois era humanamente impossível se movimentar dentro daquele lugar. E o uso do flash, mesmo não sendo o indicado, foi necessário, afinal, era tudo ou nada.

 Fontes para pesquisa:
https://impregnantes.blogspot.com/2009/05/curupira-rock-clube-em-chamas.html
https://ocp.news/entretenimento/curupira-rock-club-nao-deixe-cena-morrer
https://mundo47.wordpress.com/tag/curupira/
https://fejiano.wordpress.com/2009/04/07/curupira-rock-club/

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