[Resenha] A envolvente sujeira musical e moral do Motley Crue

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por Clovis Roman

O quarteto drag-queen que tomou de assalto os anos 80 com seu hard rock vigoroso e comercial na medida, é o exemplo da decadência e da tríade sexo, drogas e rock and roll. Os caras foram a fundo nesses três tópicos, apesar de que em alguns momentos os itens um e dois acabaram sobrepujando o terceiro. A relevância do Motley Crue musicalmente é mais que conhecida, goste deles ou não. O New York Dolls dos anos 80, mais depravados e malucos, chegou, após consolidar sua formação, de maneira relativamente rápida ao sucesso. Desde o começo tinham grande apelo popular na sua região, o que cresceu exponencialmente a cada álbum até Dr. Feelgood (1989). Nesse meio tempo, mesmo discos menos inspirados como o multiplatinado Theater of Pain tiveram ótimas vendas – tanto o vocalista garanhão Vince Neil quanto o baixista junkie Nikki Sixx detestam o álbum.

E eles não estão errados, pois entre dois mega sucessos – e excelentes músicas “Smokin’ in the Boys’ Room” (que é uma cover, aliás) e a tocante balada “Home Sweet Home” – estão um punhado substancial de fillers (em tradução ‘free-style’, encheção de linguiça). Mas acontece que, ao redor desse lançamento, os caras ofereceram ao mundo músicas atemporais, que até hoje os colocam no status de grandes bandas de Rock: “Wild Side”, “Girls, Girls, Girls”, “Shout at the Devil”, “Looks That Kill”, “Too Young to Fall in Love”, “Live Wire”, “Take Me to the Top”, “Too Fast for Love”, “Dr. Feelgood”, “Kickstart My Heart” e “Same Ol’ Situation (S.O.S.)”, só para citar as mais famosas.

O livro
A primeira coisa sobre o livro The Dirt – Confissões da banda de Rock mais infame do mundo, escrito por Neil Strauss e que saiu originalmente em 2001, é relacioná-lo ao filme homônimo, disponível na plataforma Netflix. O longa metragem não é tão ruim quanto está sendo comentado, afinal, muito do lido no livro é mostrado na tela de maneira quase literal, como a parte em que Mick Mars, recém integrado ao grupo, manda o outro guitarrista da banda embora, quando Vince Neil transa com a namorada do executivo Tom Zutaut ou a fantástica cena com Ozzy Osbourne na piscina de um hotel qualquer. Há outras tantas similaridades, por motivos óbvios.

Mas se o filme dividiu opiniões, o livro – que chega ao mercado brasileiro em uma belíssima edição da Editora Belas Artes – é praticamente unânime: Suas quase 450 páginas são envolventes, divertidas, revoltantes e exageradas. Os quatro músicos são os que primordialmente preenchem o livro com histórias absurdas, algumas das quais mal dá para acreditar. Outros personagens aparecem volta e meia, e até mesmo o vocalista John Corabi, que passou um tempo na formação nos anos 90, dá seu lado da história em diversas páginas. Sendo fã da banda ou não, é uma biografia de Rock indispensável em qualquer biblioteca pessoal.

Da fase anos 90, inclusive, temos os momentos em que todos estavam mais perdidos que o Jota Quest em festival de Rock. Prisões, demora absurda para compor e gravar um simples disco (foram 5 anos), gastos absurdos, suntuosidade e ostentação e outras situações de pura falência moral povoam as páginas. Não que isto não tivesse aparecido na parte que cobre os anos 80. Uma porção especialmente pesarosa é a que narra a morte de Skylar, filha de Vince Neil. A riqueza de detalhes projeta todo um cenário na cabeça do leitor – e quem viu o filme então, consegue enxergar os atores em cenas inéditas. Depois, ele se afundou ainda mais nas drogas e na futilidade, tanto que gasta um bom espaço contando as pessoas famosas com as quais transou.

Enquanto isto, o Motley Crue, vacilante, gravou e lançou um disco que custou mais de dois milhões de reais, e que por mais que seja musicalmente soberbo, passou despercebido do mainstream. Um duro golpe para o colosso comercial que o grupo era até então. Em determinada passagem, Tommy conta que em uma entrevista numa rádio, que ofereceu passe livre para qualquer fã que pintasse na área. Apenas 2 garotos se apresentaram, mostrando como estavam em baixa. Uma entrevista para a MTV dessa época, hilária, é transcrita integralmente em um determinado capítulo. É tão genial que resta a obrigatoriedade de você pegar o livro e acompanhá-la com o video:

O novo vocalista John Corabi acabou pagando o pato e acabou dando espaço para o retorno de Vince – vale frisar que houve um breve momento em que os dois estiveram juntos, nas sessões que se tornaram o disco Generation Swine (97) – nele há, inclusive, composições de Corabi. A turnê foi complicada, tendo inclusive porrada entre alguns membros. Entre tropeços, tudo se resolveu e a banda segue até hoje. Ainda há todos os motivos para Tommy Lee ter saído do grupo. Seus substitutos, Randy Castillo e depois Samantha Maloney, mal são mencionados – o nome do primeiro é rapidamente citado por Vince, e nada mais. Quanto a Samantha, que fez a turnê do álbum New Tattoo (2000), ela não é citada uma única vez. Ironicamente, nos agradecimentos do autor na última página, diz que eles seriam ouvidos em um eventual The Dirt 2. Randy (que tem duas composições em New Tattoo), infelizmente, morreu um ano depois do lançamento original do livro (2002), portanto, isso não pode mais ser corrigido.

Visão geral do livro The Dirt, com seu belíssimo marca páginas.

Na fase de ouro, a personalidade de cada um dos quatro integrantes é traçada por histórias contadas por eles e por seus companheiros. A arrogância de Vince, a porra louquice de Nikki, a passividade de Mick e a energia desenfreada de Tommy são esmiuçadas em detalhes. No meio, tudo o que você pode imaginar de um grupo de rock transgressor (e pasmem, não é uma redundância, afinal, há outros tantos conjuntos que não o são): Gravações de discos, bebedeiras, turnês malucas, muitas drogas, brigas, orgias e abusos sexuais, brincadeiras de mal gosto, violência (Vince que o diga), relacionamentos que cedo ou tarde fracassaram… e mais um tanto de drogas. A parte em que todos falam sobre a morte de Razzle, vocalista do Hanoi Rocks, que estava em um carro com Vince Neil, é marcante, pois mostra como o grupo, por dentro, estava se corroendo – e como eles não souberam lidar muito bem com a situação. A parte de Mick Mars é assustadora de tão decadente.

Uma parte engraçada no final é que Vince, Nikki, Mick e Tommy encerram suas partes falando de seus excelentes relacionamentos atuais (no caso, da época), e abaixo, em cada um deles, há uma nota do tradutor informando quando eles se divorciaram.

Para comprar, acesse o site da editora Belas Letras: www.belasletras.com.br

Você pode ler aqui o primeiro capítulo: issuu.com/editorabelas-letras/docs/miolo_motley_crue_-_the_dirt_cap1

Imagens: Reprodução/Belas Letras

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