Editora Belas Letras: Rock e literatura em prol de um mundo melhor

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A editora Belas Letras está inundando o mercado brasileiro com uma grande variedade de livros sobre música, e mais especificamente, sobre artistas e bandas de Rock. Dois livros relacionados ao Motley Crue, The Dirt e Diários da Heroína (do baixista Nikki Sixx) foram lançados este ano. Ambos foram resenhados pela equipe do Acesso Music em texto e vídeo.

Mas o catálogo é bem mais amplo: uma série de livros do baterista do Rush, o saudoso Neil Peart, além de obras sobre Nirvana, Janis Joplin, Red Hot Chili Peppers, Kiss e Cindy Lauper, para citar alguns. Há também números de artistas do Brasil, como livros de Thedy Correa (Nenhum de Nós) e Engenheiros do Hawaii.

E há muito planejado para sair em um futuro próximo, inclusive Confess, autobiografia de Rob Halford, o Metal God vocalista do Judas Priest. Entre outros nomes, gente como Dave Mustaine (sobre o fantástico álbum Rust in Peace), Liam Gallagher e Noel Gallagher (Oasis), Slash, Tony Iommi, Lita Ford, Gene Simmons e Keith Moon.

Há também outras opções literárias. Você pode conferir todas as opções neste link: www.belasletras.com.br/vitrine/musica.

Conversamos com o CEO da Editora Belas Letras, Gustavo Guertler, sobre os livros do Motley Crue, Rock and Roll e a importância da leitura para uma sociedade melhor.

por Clovis Roman

A editora foi fundada em 2008. Qual era o conceito dela naquele momento? Era atender a um estilo literário específico ou desde sempre o plano era ser algo mais amplo?
A Belas Letras nasceu para servir aquelas pessoas que queriam conteúdo que se conectasse com o modo de vida moderno, com a memória afetiva de cada um, com aquilo que, de alguma forma, faz a gente se sentir humano. E por isso escolhemos desde o início temas que fizessem sentido dentro disso, queremos mostrar que livros são acessíveis e que fazem parte da nossa vida, e de alguma forma a literatura clássica, embora muito importante, gera sim um pouco de afastamento, e na nossa história esteve muito ligada a uma ideia de elitização de conhecimento, de erudição. Nossa ideia sempre foi quebrar isso. E mostrar que só somos humanos porque acreditamos em histórias, contamos histórias para nós mesmos.

Novidade no catálogo da Belas Letras.

A editora fez esse ano a campanha “Abrace com um Livro”, onde para cada livro vendido um outro era doado pela editora para um asilo. Como surgiu essa ideia e como este tipo de iniciativa é benéfica para a sociedade como um todo?
A gente já tem o programa Compre 1 Doe 1 desde 2015, onde pra cada livro vendido a gente doa outro. É o que se pode chamar de uma corrente do bem. Hoje temos tantas empresas, oferecendo tantas “soluções”, que muitas delas poderiam desaparecer que não fariam tanta falta no mundo. Nossa ideia sempre foi de que se existimos como empresa, precisamos ter uma razão para existir além do gerar lucro. Então esse é um movimento que começamos há muito tempo mesmo. Apenas na pandemia, nos demos conta de que os asilos estavam com seus idosos isolados e essas pessoas, que em geral já amargam dias solitários, estavam mais solitários ainda. Essa ideia surgiu de mostrar que, nesse caso, um livro era um item essencial para essas pessoas também, uma companhia. Foi tão bem sucedida a campanha que a gente ainda não conseguiu completar todas as doações, pois a gente quer ser muito criterioso nas escolhas. Até o natal devemos concluir.

Lançado este ano, livro sobre o festival Woodstock.

Gustavo, qual sua relação com o Rock and Roll e/ou com a música em geral? Ela tem espaço na sua vida assim como tem a literatura?
Quem não gosta nem um pouco de rock bom sujeito não é… Pode fazer o teste [risos]. Eu nasci em 79, então, cara, quem não gostasse de rock nos anos 80 ou 90 ou não era jovem ou vivia em Marte. Hoje eu tenho ainda aqui comigo uns discos que marcaram minha vida, uns CDs, o One hot minute do RHCP, o Led Zeppelin IV (acho que não dá pra descrever a epifania de ouvir pela primeira vez coisas assim), o Nevermind, enfim, sou da geração do grunge, e cada vez que olho, cara, me traz uma memória afetiva muito grande porque a informação não chegava até a gente, então a gente guardava o dinheiro do mês pra comprar aqueles discos, na verdade eu peguei a era do K7 e depois do CD, aquela mídia que a galera brinca que já nasceu morta. O que eu tenho muito presente na minha vida era que minha mãe, professora, ela só colecionava duas coisas em casa: livros e discos. Ela era apaixonada pela Jovem Guarda, aquele movimento todo, e de alguma forma acho que quase todo mundo que gostava de rock era realmente uma forma de rebeldia, como sempre foi e sempre vai ser. Eu cresci no meio dos livros e da música, minha mãe principalmente dava muito valor para a educação, tanto que ela acabou sendo a última da família a fazer faculdade, ela formou todos os filhos e depois, já com 50 anos, entrou na faculdade. Eu acredito que a música e a literatura são formas de arte sublimes mesmo, que fazem de alguma forma a vida fazer algum sentido.

Como é feita a escolha dos títulos a serem lançados no Brasil? A solicitação do público por email ou redes sociais influencia nessa escolha, ou há uma pessoa ou um grupo responsável pela escolha desses livros?
A gente ouve bastante os leitores sim. O leitor manda. Nós, como editores, de alguma forma somos facilitadores, claro que a gente faz uma curadoria, por exemplo, agora vamos publicar um livro sobre o Oasis, tem vários pra traduzir, mas qual reflete melhor, qual honra mais a história da banda. E também é nosso papel embalar isso de uma maneira que o próprio produto revele para as pessoas a nossa obsessão em fazer uma coisa de qualidade. O Queen ensaiou e repetiu dezenas de vezes até chegar a versão final de Bohemian Rhapsody. A gente entende que nossas edições precisam passar pelo nível de excelência de gravar uma obra de arte até chegar ao leitor, e isso envolve uma boa tradução (um baixista), um revisor perfeccionista (um guitarrista talentoso), um editor que dá os tempos certos das coisas (batera) e um vocal potente e performático (comunicação e marketing). E de preferência um empresário bom (financeiro). É isso, cara, a gente é uma banda aqui também.

Obra sobre o mais importante álbum do Megadeth.

Um dos títulos sobre Rock lançados pela editora é The Dirt, do Motley Crue, que rendeu um ótimo – e também polêmico – filme. A ideia de trazê-lo para cá veio após o boom do filme?
Não. Esse livro já estava antes no nosso radar. Na real eu até acho que o filme mais atrapalhou do que ajudou (vou ser crucificado, eu sei, mas achei bem razoável o filme, nota 3). Cara, claro que são coisas diferentes, mas quando você lê o livro você vê que o filme poderia ter sido muito mais interessante. Resolvemos mais publicar porque esse livro é um clássico, não existiu e é pouco provável que vai existir, um livro tão interessante, divertido e bom de ler como ele. Ele chega a ser inacreditável, um cara que escrevesse uma ficção eu tenho certeza que não chegaria a inventar aquilo tudo. É um livro obrigatório, não é à toa que ele aparece em todos os rankings de melhores livros sobre rock da história.

Confira aqui nossa resenha do livro.

E como você compara filme e livro nesse caso? Um serve de complemento para o outro ou são produtos que seguem caminhos distintos (mesmo que o tema seja o mesmo)?
O filme ajuda, principalmente se for muito bom. Mas hoje eu vejo mais como complementos, quem comprou o livro vai querer ver a adaptação e vice-versa. Os dois se ajudam.

Outro destaque no catálogo é a série de livros de Neil Peart, ex-baterista do Rush. Eles não são biografias, e sim relatos e retratos de experiências do músico. Você acha que esses títulos se encaixam na missão da empresa, que é “Transformar a vida das pessoas através de histórias”
Perfeito, eu sou suspeito para falar da obra do Neil. O curioso é que não sou fã de Rush, eu sou fã do Neil escritor. Porque é muito curioso que na maior parte dos livros dele ele fale muito pouco sobre música, bastidores de shows por exemplo, e mais sobre experiências de vida. Ele é um cara que sabia contemplar a passagem dele por essa vida e isso não deixa de ser um pouco do que é a música, o resultado dessas experiências. Cheguei a conclusão de que o Neil sempre foi um filósofo que também era baterista. Ele não estava preocupado em explicar as coisas para ninguém, nem ensinar nada, era um cara mais contemplativo, que gostava de registrar as coisas que via, ouvia, sentia, e não é à toa que o apelido de Professor caía tão bem nele. Eu acho que qualquer título de música em geral ajuda a transformar a vida das pessoas, porque te traz memórias afetivas fortes, faz você voltar a se sentir um ser humano.

Um dos lançamentos mais recentes da editora.

Diários da Heroína, de Nikki Sixx, é uma história de superação, a biografia de um rockstar ou um pouco de ambos?
Eu diria que é tudo isso e mais um monte de coisa. Acho que o Diários é a prova de que o inferno realmente existe e o Nikki o conheceu. Na verdade eu acho que o Diários foi um projeto que o Nikki deve ter pensado em deixar porque ele sabia que ia morrer. E de alguma forma foi uma espécie de alerta, quase como uma carta de suicídio, para que as pessoas não chegassem ao ponto que ele chegou. Fica muito claro que ele já estava morto quando registrou aquilo. O Nikki não é um sobrevivente. Ele é outra pessoa. A pessoa que ele era ele enterrou com o livro. Então é uma mensagem muito potente, a geração roqueira foi muito inconsequente, sim, e esse conceito de rebeldia, junto com esse sentimento de vazio, a depressão, em muitos casos levou muitos músicos a esse extremo. É muito curioso entender que muitas das histórias do clube dos 27, por exemplo, em geral tem um roteiro muito parecido, a Janis sofrendo bullying na escola, uma vida problemática na infância, um talento artístico que acabava sendo reprimido, enfim, tem pontos de conexão muito fortes entre os músicos, as letras das músicas são muito reveladoras, enfim, eram artistas em geral que não se encaixavam no seu tempo, que não se encaixavam no mundo como ele era e davam vazão a isso na arte. O Diários é um projeto que é um soco na cara porque deixa de romantizar a questão das drogas. Não é romântico o cara usar drogas. Não é romântico o cara se dar um tiro aos 27 anos. Seria muito mais interessante pra gente que o Kurt Cobain ainda estivesse fazendo shows por aí hoje, enfim. Mas eles são produtos do seu tempo e por isso é tão interessante ler e entender, porque a música foi apenas a manifestação das histórias deles. As histórias estão contadas nos livros. Você pode até curtir as músicas, mas para entendê-las você precisa ler os livros.

Leia aqui nossa resenha do livro.

Obrigado por seu tempo, nos deixe uma mensagem.
O rock não morreu.

Imagens: Reprodução

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