Hell Gun – O primeiro passo de uma jornada promissora

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Mais uma banda curitibana chega ao seu tão esperado debut álbum. A Hell Gun está colocando no mercado este ano, via Classic Metal Records, estreia em grande estilo de uma banda que já vem há anos batalhando arduamente. Abaixo, você confere uma resenha do álbum, e logo depois, uma entrevista com o guitarrista Lucas Licheski, guitarrista e um dos fundadores do grupo. Completam a formação atualmente o baterista CJ Dubiella, o vocalista Matheus Luciano, o baixista Marllon Woicizack e o guitarrista Jean Fallas.

por Clovis Roman

O disco “Knights of Beyond” é a estreia da Hell Gun, e mostra um grupo que trabalhou e trabalhou sua proposta até apresentar um material digno de nota em seu primeiro CD. A audição é um deleite, por apostarem em uma pegada mais cadenciada, e remeterem imediatamente aos anos 1980. Bem-vindas referências a nomes como Overkill, Savatage ou Metal Church se fazem presentes, entretanto, sem fazer o som do quinteto curitibano soar como um mero pastiche oitentista. Muito pelo contrário. A faixa “Dracula” é a introdução do ouvinte ao play, e o faz de maneira muito convincente. Ela não se resume a alguns ruídos desconexos, como tantos fazem – é uma música de fato, instrumental, com ares apoteóticos e empolgação, não necessariamente tendo que pisar no acelerador.

A faixa título surge então, grandiosa, exalando Metallica, Metal Church, Liege Lord e muito dos anos 1980 em geral. A obra, cheia de partes, conquista de imediato com seu andamento moderado em primazia. O trampo das guitarras, a cargo de Lucas Licheski e Jean Fallas, na longa sessão instrumental no meio da composição, é formidável. Normalmente, ao se fazer uma resenha, o álbum é ouvido, na íntegra, ao menos três vezes, na ordem da tracklist. Entretanto, a faixa “Kings of Beyond” ficou no repeat uma dezena de vezes até que eu finalmente conseguisse chegar em “Tears of Ra”, que ao que título e letras indicam, fala sobre Rá, o deus do Sol do Antigo Egito, que reinou durante a quinta dinastia, sendo julgado por Anubis naquele ritual macabro de pesar o coração em uma balança. Musicalmente, ela tem as mesmas características da anterior, porém com um refrão mais fácil e grudento.

Inspirada em videogame, “Night of the Necromancer” traz uma citação direta ao jogo Castlevania: “What a horrible night to have a curse”, começa cantando Matheus. Quem manja bulhufas de joguinhos, vai passar batido, mas é bastante interessante. O som é mais um mid-tempo com diversas partes e excelente trampo das guitarras. Um peso monolítico em cima disto soaria um absurdo. O interlúdio no meio da canção também é digno de nota.

Um tanto mais acelerada, “Revolution Blade” traz uma interpretação raivosa e grave de Matheus, e riffs excepcionais em profusão. Os vocais de apoio no refrão são bastante crus, como se fosse um grupo de poucas vozes reunidas. Normalmente em estúdio essas vozes são multiplicadas, para que pareça uma pequena multidão bradando junta. Detalhe, entretanto.

Esta pegada vintage segue durante todo o álbum, em faixas como “Emily’s Possession” e na antiga “Sacrifice” (saiu como single em 2017), que evoca Annihilator. A produção direciona o som do grupo para algo oitentista, com eco na bateria e um som e uma sonoridade geral mais comportada. Algo mais aberto, propício ao thrash, poderia enfatizar mais o peso e a energia das canções, fazendo-as soar mais próximas daquela sonoridade que se obtém em cima do palco. A faixa título explicita bem isso. Cheia de nuances, com a melhor performance vocal de todo o play, variado e agressivo. A faixa “Cult of Ignorance” tem cara de single, por ser curta e direta ao ponto, com cozinha discreta, guitarras pesadas e com riffs ritmados, e boas linhas vocais.

Eu falei bastante da produção, que é apenas um elemento desse trabalho. Os demais, como interpretação, estrutura das composições, letras e parte gráfica compensam e com sobra. E um grande trunfo do grupo foi praticamente não usar músicas antigas. Muito do material aqui já era tocado ao vivo, mas nunca havia sido lançado previamente. Isto mostra que os caras são prolíficos na composição e que tiveram esmero na hora de definir a tracklist de Kings of Beyond.

Este álbum é um trabalho marcante no cenário local – isto em um ano que teve ótimos álbuns de Bad BeBop, Ethel Hunter, Thou Shall Not (inclusive, este também foi gravado por CJ Dubiella) e The Secret Society (a versão física de Rites of Fire) -, que alça a banda alguns degraus acima em apenas uma tacada.

Quando os shows voltarem a acontecer, providencie um tíquete para vê-los em ação.
E compre o CD para ir aprendendo as letras, para cantar junto. Agora é torcer para que a Hell Gun continue firme e forte na sua caminhada, e que nos agracie com mais álbuns

ENTREVISTA
Clovis Roman – São sete anos de atividades da Hell Gun. Para apresentá-los aos leitores, nos contem como surgiu a ideia de montar a banda, como vocês se aproximaram e a origem/inspiração para o nome da banda.

Lucas Licheski – A banda começou como um projeto cover onde já tocávamos juntos (Marllon e Lucas) por diversão. Nos conhecemos na loja e estúdio Musicause, em São José dos Pinhais, o único lugar que vendia discos e cds de rock e metal. O baixista Marllon começou a namorar a irmã do Matheus (vocal) e logo na sequência o Matheus entrou na banda. Foi aí que começamos a trabalhar em músicas autorais e nos consolidamos como banda. O nome antes era Black Boogie. O nome Hell Gun surgiu quando decidimos dar uma cara mais séria pra banda. Não pensamos em um conceito específico na época, somente em um nome forte e expressivo.

Clovis – Marllon, Lucas e Matheus são os membros da formação original, certo? Como foi lidar com as trocas de integrantes nos primeiros anos até estabilizar a formação atual?
Lucas
– Sim, foi quando nós três nos unimos que a banda se oficializou. Foi sempre muito complicado trocas de integrante, mas felizmente aconteceram poucas. Nós sempre fomos muitos unidos, e a adaptação com outra pessoa não acontece de uma hora para a outra. Por mais difícil que fosse, isso nunca nos desmotivou e sempre trabalhamos para superar os desafios. Acreditamos que a entrada do CJ [Dubiella, bateria] foi muito importante para definir a pegada e identidade da banda, e estamos estabelecidos com esta formação desde 2017.

Clovis – A letra de “Night of the Necromancer” é uma referência a algum jogo de video game?
Lucas
– A letra é a união de um conto de horror idealizado por Lucas e Matheus, com algumas referências a franquia Castlevania. O Matheus é grande fã da série de jogos, que é conhecida pelas trilhas sonoras épicas e com vibes de heavy tradicional, algo que acabou casando com o clima da música.

Clovis – Quais são os temas mais recorrentes nas letras da Hell Gun? Há temas os quais vocês nunca abordariam?
Lucas
– As letras tem assuntos variados: “Tears of Ra” fala de divindades do Egito antigo, e “Emily’s Possession”, sobre a narrativa do filme O Exorcismo de Emily Rose, por exemplo. Gostamos muito de evocar climas de terror e fantasia e também algumas letras de crítica social. Acreditamos que isso faz parte do papel do artista, vivendo em um país como o nosso. Sobre um tema que jamais abordariamos… bom, difícil pergunta [risos]. Mas provavelmente uma letra romântica não caberia no nosso repertório.

Clovis – Ainda na parte lírica, qual tema central da faixa título, “Kings of Beyond”?
Lucas
– Novamente, a letra de “Kings of Beyond” é fruto de uma viagem do Lucas e do Matheus, a letra fala de um clan de vampiros voltando a vida e tendo a raça humana como animais de abate, descartáveis. Tentamos fugir do óbvio ao falar de um tema clichê como vampiros.

Clovis – Das músicas do álbum, houve alguma composta mais perto da gravação mesmo? Pois algumas dessas vocês já tocavam há tempos, não é?
Lucas
– A “Revolution Blade” foi a última a ser composta. Alguns detalhes dela foram acrescentados durante as gravações. Ficamos tão empolgados com o resultado que esla acabou sendo o single de divulgação do disco. Outra que levou um tempo para ser finalizada foi “Emilly´s Possession”, que talvez por sua pegada mais épica e por fugir um pouco das músicas rápidas e diretas que compomos usualmente, foi uma das que foram sendo finalizadas pouco a pouco. Já tocávamos as músicas antes, algumas há bastante tempo até. Tudo já fazia parte do conceito de Kings of Beyond, porém tivemos tempo para lapidar elas até ficarem como estão no disco.

Foto promocional da Hell Gun.

Clovis – Na parte da produção, ela tem uma abordagem vintage, bem anos 80. Até que ponto vocês se envolveram no processo de captação, mixagem e masterização?
Lucas
– Foi um processo bem demorado e pensado em conjunto com o mestre Arthur Migotto. Os timbres das cordas foram bem pensados e a atmosfera anos 1980 já existia nas composições e interpretação, mas o Arthur intensificou tudo isso, já que é especializado nessa linha som mais vintage.

Clovis – As composições da banda evocam nomes como Savatage, Overkill e Metal Church, todas bandas dos anos 1980. Uma sonoridade mais encorpada, mais porrada mesmo, realçaria essas e outras características sonoras?
Lucas
– Acho que essas bandas são ótimos exemplos de influências mais óbvias da banda, acho que o que realça no som da banda é essa pegada entre o heavy, speed e proto-thrash, algo bem característico da cena US metal, dando essa cara bem porrada mesmo para o som mas sem abrir mão de harmonias e melodias marcantes e refrões grudentos. Outro ponto muito forte é a teatralidade na interpretação e clima da música, algo trazido sem dúvidas por influência de Mercyful Fate e Candlemass.

Clovis – Como foi o baque dessa quarentena, sem ter shows para fazer e divulgar o trampo? Como estão lidando com este período sem poder pisar em um palco?
Lucas
– A quarentena tem sido cruel, não conseguimos ensaiar, mal estamos nos vendo e a saudade dos palcos só aumenta. É complicado lançar um disco nesse momento, pois não temos como fazer shows. Estamos fazendo o possível com a internet, plataformas de streaming e festivais online e de certa forma o álbum tem atingido um número bacana de views e ótimas resenhas. Obviamente gostaríamos de estar divulgando o trabalho nos palcos, mas o apoio dos fãs tem sido muito positivo e muita gente tem nos procurado para adquirir merchandising e o disco, o que é ótimo.

Clovis – Aliás, vocês chegaram a pensar em postergar o lançamento do álbum para depois da pandemia?
Lucas
– Sim, pensamos em segurar e lançar após todo o caos do Covid-19, mas como já havíamos demorado muito pra lançar e não tínhamos, e nem temos, previsão para o fim da pandemia, decidimos lançar assim mesmo.

Clovis – Por fim, uma pergunta que faço à todos meus entrevistados: Qual banda você acha que gravaria um cover foda de alguma das músicas da Hell Gun?
Lucas
– Nossa, que pergunta sensacional [risos]. Bom, seria surreal ver uma banda que curtimos fazer um cover nosso, acho que além das citadas acima (Overkill, Metal Church, Savatage), o Grave Digger ou o Running Wild, em seus respectivos auges, fariam um arregaço!

Informações
Facebook: https://www.facebook.com/bandaHellGun
Instagram: https://www.instagram.com/hellgun_official
Spotify: https://open.spotify.com/artist/572j2ZpUQqUL9UeQt9JqwY

Fotos: Mateus Cantaleäno

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