[Resenha] O renascimento do underground curitibano

Atrocitus
Joaquim Livraria
19 de março de 2022

Exylle, Hell Gun
Teatro Universitário de Curitiba – TUC
19 de março de 2022

Texto e fotos por Clovis Roman

O termo New Wave of British Heavy Metal foi cunhado por um jornalista no começo dos anos 1980 para classificar um grupo de bandas que fazia Metal, e que vinha com força após o breve boom punk na segunda metade da década anterior. Hoje, a sigla NWOBHM é difundida e reconhecida por qualquer headbanger. Longe de mim ter a audácia de forjar um novo termo, mas enquanto eu presenciava algumas bandas mais jovens do atual cenário de Curitiba no último sábado (19), não pude de pensar em um trocadilho com o movimento acima: New Wave of Curitiba Heavy Metal.

Conferi dois eventos diferentes no mesmo horário, em locais próximos, contando com a sorte do cronograma de ambos baterem certinho, o que me permitiu ir e voltar da Joaquim Livraria ao TUC algumas vezes e ver todas as bandas que me interessavam esta noite. No primeiro recinto, o Atrocitus organizou o Pop Grind Fest, ao lado de outras bandas de estilos bem diferentes, promovendo uma união. Quando cheguei, o grupo Punk Doenças e Outros Infartos fazia um set animado, com a galera se quebranco em meio aos livros. Tocaram cerca de uma dezena de faixas com bastante energia. Depois, veio o Atrocitus, que mesmo com alguns problemas técnicos, não se intimidou e apresentou materiais conhecidos (faixas do EP O Que Será de Nós?, como “Martírio”, “Mãos Atadas” e “Alienado”; além da antiga “Salvação”) e uma faixa nova, “Peste”, com fúria e ao mesmo tempo descontração. Durante o set, o vocalista e baixista W. Huan clamou por outra alcunha: “Pop Grind não é apenas um festival, mas é um movimento”. O som, que pode ser chamado de Thrash Metal, conta com os vocais de apoio eventuais do guita Pettrus, e completam a formação o ótimo guitarrista Ideraldo Ferreira, recém integrado ao time, e o jovem porém experiente baterista Ian Schmoeller (Ignis Perpetua, Neverwinter, Lords of Aesir).

Atrocitus brutalizando a livraria (foto: Clovis Roman).

Repertório – Atrocitus:
Mind Block
Repulsa
Martírio
Mãos Atadas
Salvação
Peste
Mordaça
Alienado

Antes do Atrocitus, no TUC, o Exylle mostra a cada show uma evolução absurda. A atual linha de frente do grupo é a melhor que já tiveram, afinal a presença insana do guitarrista Wini Rodrigues (um bagulho meio Anthrax) complementa perfeitamente com seu colega de instrumento, Kevin Vieira. Os vocais de Victor Hugo (também baixista) estão cada vez melhores. No repertório, um punhado substancial de faixas do disco homônimo de estreia (2019), e algumas faixas do EP Sangue nas Ruas, que saiu ano passado. Em disco, as letras em português funcionam melhor, mas ao vivo todas unidas viram um rolo compressor. Com destaques, cito “Seu Brasil”, “Retrocesso Jamais” e “Immortal Dies”, mas foi uma massa homogênea de ódio e thrash metal. Quem perdeu, poderá vê-los com a Gangrena Gasosa em alguns dias.

Exylle em ação no TUC (foto: Clovis Roman).

Repertório:
Legacy of Chaos
I Am Neither Innocent
D.W.B.C.
Fear Inside Me
Seu Brasil
Retrocesso Jamais
G.A.
Immortal Dies
Burn Your Leaders

Leia nossa resenha do mais recente EP do Exylle, Sangue nas Ruas: https://acessomusic.com.br/2021/11/17/resenha-exylle-sangue-nas-ruas/

O Hell Gun não ficou para trás. Fechando a noite, o quinteto heavy trazia um novo segundo guitarrista, Lucas “Shred” Rodrigues, um grande adendo musical e também na presença de palco, com um visual que lembra Herbie Langhans quando jovem. Na outra guita, Lucas Licheski reassumiu o posto, uma decisão sábia. Por sua vez, o vocalista Matheus Luciano evoca o Metal dos anos 1980 nos trejeitos e figurino, interagindo com o público sempre que possível. Inclusive, a plateia foi um caso a parte, afinal a galera cantou diversos refrães a plenos pulmões. Ver este tipo de reação ao som de uma banda autoral, é, no mínimo, emocionante. Destaque do repertório foi “Emily’s Possession”, uma pequena obra-prima do Metal curitibano, uma ode ao som oitentista que tanto amamos. O show redondo foi encerrado devido ao horário da casa,  e infelizmente “Devil Dogs” ficou de fora. Mas considerando a aula metálica vista até então, isto não reduziu em nada o brilho da apresentação da Hell Gun.

Público cantando junto com a Hell Gun (foto: Clovis Roman).

Repertório – Hell Gun:
(Intro) Dracula
Kings of Beyond
Night of Necromancer
Tears of Ra
Pirates From Outer Space
Revolution Blade
Pride To The Nations
Emillys Possession
Sacrifice
Balrog’s Wrath

Leia aqui nossa resenha do álbum Kings of Beyond: https://acessomusic.com.br/2020/10/24/hell-gun-o-primeiro-passo-de-uma-jornada-promissora/

O Metal em Curitiba teve diversas fases nessas décadas todas. O momento atual, com a retomada dos shows e a presença de público maciça nestes dois eventos, pode significar um novo renascimento do underground local. Mas o mais importante nesta equação é a qualidade musical e de palco das jovens bandas deste cenário. O último boom do Metal local, que trazia bandas retrô calcadas no Thrash oitentista, que rolou há meia dúzia de anos, tinha alguns bons baluartes mas a maioria dos conjuntos era de músicos e compositores sofríveis – e posers, enfim. Esta nova onda que presenciei conta com músicos ótimos e compositores idem, por uma piazada que vive e respira Metal; e o mais importante: que leva o estilo a sério.

Com Atrocitus, Hell Gun e Exylle sendo alguns dos expoentes deste atual movimento, o futuro é promissor. Chame do que for, até mesmo de NWOCHM, mas o fato é que estamos testemunhando uma efervescência cultural única há muito não vista por estes lados.

Galeria de fotos:

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