[Resenha] A produtividade criativa do Warshipper

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Warshipper – Barren…
(Heavy Metal Rock)

Material gentilmente enviado por Heavy Metal Rock, resenha e entrevista mediada pela Som do Darma

por Clovis Roman

Barren… é o terceiro álbum do Warshipper, banda de death metal oriunda de Sorocaba, São Paulo. O quarteto mostrou uma evolução ao mesmo tempo que não perdeu suas características principais. O grupo vem ganhando cada vez mais destaque, e Barren… justifica toda a atenção. A despeito do rótulo, o som da banda é rico, não ficando preso a fórmulas ou barreiras. Mas se você é mais purista, não precisa se espantar: nada do que a banda apresenta aqui, em mais de uma hora de música, é descartável ou ameno em demasia. Não a toa, o álbum foi citado em listas de melhores do ano passado por aí.

No ano passado, quando do lançamento do disco, fui convidado pela Som do Darma a ser um dos profissionais da mídia especializada a gravar um vídeo comentando brevemente o trabalho. Meu depoimento foi postado no Instagram e no Facebook da banda:

Para abrir o CD, nada melhor que uma paulada de responsa, que atende por “Barren Black”, primando pelas partes rápidas. O contraste vem na sequência com “Axiom”, como fosse uma mescla de Death (a banda) com passagens thrash metal. “Respect” conta com Fernanda Lira (Crypta), com uma abordagem mais rasgada contrastante com o vocal principal de Renan Roveran, também responsável pelo belo trampo de guitarra ao lado de Rafael Oliveira. Nesta faixa em especial as partes instrumentais são o grande trunfo, um thrash/death cadenciado e repleto de melodia e peso na medida. Formam a cozinha de Roger Costa (bateria) e Rodolfo Nekathor (baixo).

O quarteto em Barren é o mesmo que gravou o Black Sun (2018) e o debut Worshippers of Doom (2014), ambos igualmente espetaculares. Tocando juntos há anos, a coesão entre os músicos é notável, e este entrosamento trouxe avanços tanto na execução quanto na composição e estruturação das faixas. É uma trinca de respeito, sendo Barren… o mais completo de todos. Afinal, ele conta com “Embryo”, uma composição onde tudo funciona, mesmo não sendo tão convencional assim. É uma faixa instrumental extensa, com partes onde tranquilamente caberiam algumas linhas vocais. No encarte, há versos complementares, indicando que se trata de um álbum conceitual, porém, com um tema não tão explícito assim. Vai fundo!

Outra que chega perto da genialidade de “Embryo” é “Beneath the Burden”, quase um black metal moderno, arrastado, que pedia a letra mais satânica do universo. É algo que o Behemoth faria, por exemplo. Lá pela metade, a faixa se transforma um tanto e assimila partes rápidas de bateria e riffs velozes. “Anagrams of Sorrow” é o momento mais tranquilo do play, uma excelente semi balada, enquanto “Compulsive Trip” traz sonoridades mais modernas, que chegam a lembrar o Black Comedy, finado projeto de Tjodalv (ex-Dimmu Borgir) e Memnoch (ex-Old Man’s Child). A faixa foi composta junto ao produtor e também mentor do Fanttasma, Rafael Augusto Lopes. Por mais diferentes que ambas as faixas possam parecer, não destoam do restante do material.

Continuando a traçar paralelos com os trabalhos anteriores, Barren… também tem músicas longas, ultrapassando a marca dos seis minutos, média impulsionada pela saideira “Knowing Just as I (Detachment)”, que quase bate a marca de dez minutos de duração. E um grande trunfo é fazer esses 600 segundos soarem envolventes sem perder o foco um momento sequer. Este épico aposta em partes apoiadas em guitarra e sonoridades mais melódicas, com longas partes instrumentais, tudo isso costurado com outras passagens agressivas com vocais guturais (há também uns versos com vozes um pouco mais limpas, como um coral macabro), mas tudo com um andamento moderado. O final hipnótico coroa a composição e o disco. Barren… é um trabalho espetacular, dos mais importantes lançados nos últimos tempos por esses lados. O lançamento do CD é da Heavy Metal Rock, que vem colocando uma grande quantidade de ótimos discos no mercado brasileiro.

Compre o CD: https://hmrock.com.br/produto/warshipper-barren-cd/ 

Músicas

  1. Barren Black
  2. Axiom
  3. Respect!
  4. Rabbit Hole
  5. Embryo
  6. Numb (Pleasures of Possession)
  7. Beneath the Burden
  8. Licking the Wounds
  9. Anagrams of Sorrow
  10. Compulsive Trip
  11. Knowing Just as I (Detachment)

Informações:
https://www.youtube.com/warshipperband
https://www.facebook.com/Warshipper
https://open.spotify.com/artist/7vQYQ2RIvIyHuv89VQaJjI 

Entrevista

A crítica musical é a opinião de um profissional que as pessoas consideram como uma referência sobre o que é bom e o que não é. Chegamos ao consenso, neste caso, que Barren… é um disco excelente. Entretanto, colocar o artista para falar de sua própria obra é outra maneira de expor aos leitores as ideias e conceitos do trabalho. Curioso notar como Renan Roveran, vocalista do grupo, menciona elementos que abordei na resenha, sem que ele a tenha lido antes da publicação desta matéria. Confira:

Musicalmente, quais as principais diferenças entre Black Sun e Barren…?

Renan Roveran: Salve pessoal do Acesso Music. Obrigado por ceder este espaço para participar dessa pauta com vocês. Algo que acho interessante no processo de composição do Warshipper é que não nos prendemos a regras ou preconcepções, como uma “proposta” musical. Não temos uma proposta. Deixamos fluir naturalmente, incorporando elementos e ideias de cada um de nós quatro.

Considerando isso, há grandes diferenças entre músicas em um mesmo álbum, inclusive. Porém, eu entendo que há alguns elementos presentes no Barren… que trouxeram caminhos novos e diferentes para nossa musicalidade, como linhas de vocal limpo em algumas composições, arranjos acústicos na faixa “Anagrams of Sorrow”, até elemento eletrônico como na faixa “Compulsive Trip”. Como compositor, sempre gostei de me sentir livre para expressar as mais diversas musicalidades que compõem meu background musical. Portanto, entendo que a principal diferença entre os álbuns foi o acúmulo de experiências de cada um de nós individualmente e também como banda.

Qual é o conceito lírico do disco? Ele é um álbum conceitual?

Renan: Barren… propõe uma leitura bastante intensa e densa acerca da sensação de esterilidade, de fato, que muitas pessoas desenvolvem para com a sociedade, devido às mais diversas injúrias de cunho social que são desferidas por consequência de desigualdades, preconceito, entre outros elementos que estão presentes no dia-a-dia de cada um de nós, mas muitas vezes estão maquiados como “coisas normais”. Falamos sobre a necessidade constante de adequação a padrões que são pré-estabelecidos como normais, seja com relação a condição intelectual ou mental, depressão, a cor da pele, orientação sexual, e outros aspectos que são julgados e condenados aos olhos da sociedade.

Os títulos das 11 faixas do CD formam o anagrama “Barren Black”, nome da faixa de abertura. Qual a ideia por trás disso? Há um significado ou foi apenas um jogo com palavras?

Renan: “Barren Black” é o título da primeira faixa do álbum, e inicialmente seria o nome do álbum, mas resolvemos deixar apenas Barren…, para transmitir a sensação de “o que vem depois disso”, ou seja, uma vez que percebemos o quão sem vida cor e sabor a vida de uma pessoa pode ser por consequência de atitudes de outras, o que podemos fazer para mudar? Devemos expressar a indignação, no mínimo, quando passamos a atuar de forma empática entendendo que nada o que aprendemos como “verdade” deve deixar de ser indagado. Além disso, o jogo de letras amplifica a percepção de relação entre as músicas, letras e temas, reforçando a ideia do conceito acerca do disco.

O CD conta com a capa do single Atheist no encarte, entretanto a faixa não está no CD. Por que?

Renan: Isso foi uma falha de comunicação que acabou ocasionando na falta da faixa no CD. Iremos corrigir este defeito para as próximas prensagens. É válido reforçar que a faixa está disponível em todas as plataformas disponíveis, além de possuir um belo lyric video em nosso canal no youtube.

A banda fez uma turnê pela europa há algum tempo, como foi a experiência e como surgiu a oportunidade?

Renan: Cara, foi uma das experiências mais intensas e enriquecedoras a qual tivemos nestes 10 anos de banda. Gostamos muito da energia das apresentações ao vivo e ter a possibilidade de conhecer bangers de diversos lugares e durante esta espécie de imersão no underground, pudemos conhecer várias pessoas muito legais, que se tornaram amigos, além de ter amplificado a sinergia entre nós da banda, mesmo sendo amigos há mais de duas décadas. Além disso, toda a experiência de palco e estrada nos deu uma boa visão de como melhorar ainda mais o desempenho de nossas apresentações.

Qual banda você acha que faria uma cover legal de alguma das músicas do Warshipper?

Renan: Uma pergunta muito interessante. Eu ficaria muito contente em ouvir uma diferente versão de alguma música nossa sendo interpretada por artistas do nosso underground brasileiro. Independente de qual estilo essa banda desenvolva. Aliás, estamos trabalhando em uma releitura de uma música do Bywar (minha antiga banda) e do Zoltar (antiga banda do Rodolfo, nosso baixista). Vai ser muito divertido fazer essas versões.

Resenha bônus

Como complemento, confira abaixo a resenha do disco anterior da banda, Black Sun. O texto também foi escrito por Clovis Roman, quando o trabalho foi lançado, em 2018:

De Sorocaba, São Paulo, vem o Warshipper, grupo que por definição é death metal, mas que não se furta em usar melodias e bons arranjos em suas composições. Claro que tudo aqui é bastante agressivo, mas o som é dinâmico e interessante. Esse Black Sun é o segundo disco dos caras, e várias nuances metálicas compõem esse ótimo trabalho. Os longos solos heavy de “Cry of Nowhere”, que precedem uma parte violenta black, não soam deslocados. Os elementos aqui são bem mesclados, por mais díspares que possam parecer.

A três em um “Black Sun (Part I, II & III)” é um épico com ares de Hypocrisy encontra Nevermore (principalmente no trampo de guitarra, ainda mais nos solos), com uma letra doidona, tem até citação à nuvem Öpik-Oort, uma nuvem de planetesimais (pequeno corpo sólido hipotético resultante da aglutinação de poeiras constituídas por diferentes minerais) voláteis (fragmentos nebulares) que fica cerca de um ano luz do Sol; ou do Sol Escuro, no caso. Algumas leituras de apoio são indicadas para acompanhar a parte lírica. Esse é um ponto bastante positivo, afinal, escrever sobre Satã, sangue, morte e baboseiras afins é bem fácil.

Desconsiderando a introdução e um interlúdio – “Deathblast Overhead” – as músicas tem média de 6 minutos de duração. É uma fórmula complicada, mas os caras se saem bem. Afinal, eles não apostam só em velocidade ou só em peso. É tudo balanceado, e nada é feito com pressa, melodias e riffs são repetidos quantas vezes forem necessárias. As diferentes partes não se atropelam, algo bastante corriqueiro no metal.

Na única música curtinha do disco, os caras também mandaram bem: “M.E. 262” tem menos de três minutos, e mais simples, é a música perfeita para encerrarem seus shows. Falando em conclusão, o objeto de nossa resenha se encerra com “Delusions of Grandeur’, outro momento estupendo, cuja letra teve inspiração interessante. No caso, o livro Communion: A True Story do ufologista americano e autor de horror Whitley Strieber, onde se aborda supostos contatos com alienígenas. Essa temática cosmológica é um dos grandes trunfos desse disco. O outro é a parte musical: Tudo muito bem estruturado, feito por músicos competentes. Indispensável.

Um single intitulado “Atheist” saiu em março de 2019. Segundo a banda, essa “provavelmente é a composição do Warshipper que mais sintetiza todos os aspectos de nossa musicalidade”. Ouça abaixo:

Foto: Fred Guerrero/Divulgação

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