[Entrevista] Os tempos dourados do Helloween

O Helloween criou as bases do metal melódico e deu origem a uma ramificação tão importante quanto: o Gamma Ray. Nas idas e vindas da vida, a formação que se separou no fianl dos anos 1980 e começo da década seguinte, se encontrava casualmente. O guitarrista e fundador Kai Hansen fez vários shows com o Helloween como convidado, e o seu Gamma Ray fez turnês com o Helloween (que inclusive, passou pelo Brasil). Do outro lado, Kai manteve amizade com Michael Kiske, vocalista prodígio que ficou anos afastado da música após sair do Helloween em 1993. Eles fizeram uma banda juntos, o Unisonic, que também passou um par de vezes por nosso país.

Enfim, mas mágoas entre eles foram deixadas para trás, e em 2016 ambos voltaram ao Helloween, que manteve os cinco membros que estavam na banda naquele momento: Michael Weikath (guitarra), Markus Grosskopf (baixo), Andi Deris (vocal), Sascha Gerstner (guitarra) e Dani Loeble (bateria). O septeto fez uma turnê nostálgica avassaladora, lançou um disco e vídeo ao vivo simplesmente perfeito e deu o lógico passo seguinte: gravou um álbum de canções inéditas.

Quase todo mundo compôs algo, e cada faceta trazida pela individualidade gerou um álbum interessante, coeso e homogêneo. O entrosamento é absurdo e o álbum, intitulado simplesmente como Helloween, soa vigoroso e refrescante, curiosamente, ao mesclar todos os elementos que marcaram sua trajetória.

A resenha do CD você encontra aqui: https://acessomusic.com.br/2021/08/22/resenha-o-melhor-momento-do-helloween/

Conversei com o baixista Markus Grosskopf sobre o disco, expectativas e até mesmo sobre a pandemia. Esta entrevista saiu anteriormente no jornal Diário Indústria & Comércio. Abaixo, a conversa na íntegra.

Por Clovis Roman

Clovis: Quase todas as músicas do novo álbum tem apenas um compositor e todas as músicas se completam perfeitamente, como foi feita a divisão na composição?

Markus: Não sei muito bem. Todo mundo que deu alguma ideia ou colocou algo na música que também está no álbum, foi mencionado como co-compositor (N. Do R.: apenas “Best Time” consta com dois autores: Andi e Sascha). Se  há alguém com ótimas ideias para a música e coisas como essas, sabe, nós só compartilhamos.

Clovis: Todas as composições foram feitas antes da pandemia, certo?

Markus: Sim, sim. Começamos a trabalhar em estúdio logo antes disto começar. Portanto, pelo menos tivemos tempo de ficarmos juntos no estúdio por um mês inteiro, ou cinco semanas, pra fazer os arranjos,  algumas demos e mexer com os arranjos e tudo mais, sabe? Isso foi legal, mas depois de umas quatro ou cinco semanas, a pandemia ficou tão cruel que não pudemos mais trabalhar juntos, não tínhamos permissão para voltar ao estúdio. Eram cerca de 10 pessoas, incluindo produtores e técnicos e tudo mais, então tivemos que nos separar e trabalhar em estúdios diferentes, o que já fizemos antes,  isso não foi uma novidade para nós. Então, Kai e eu trabalhamos em Hamburgo com Dennis Ward fazendo o baixo, algumas guitarras, e coisas assim, enquanto os outros estavam fazendo a parte de bateria em outro lugar, e o vocal foi feito na ilha de Tenerife, e algumas guitarras foram gravadas em Berlim. Foi bastante dividindo, e por isto ficamos enviando os arquivos uns para os outros.

Markus Grosskopf no show do Helloween em Florianópolis, 2019 (foto: Clovis Roman).

Clovis: Então não há uma grande diferença em gravar como um quinteto ou com sete integrante, certo?

Markus: Bem, o arranjo foi muito diferente porque havia mais duas pessoas trazendo  ideias para você o tempo todo, sabe, como somos cabeças muito criativas, muitas ideias surgem enquanto você está fazendo a música ou enquanto os arranjos são feitos. Levou um tempo para reunir tudo isso e escolher entre todas as ideias, porque muitas coisas são jogadas na sua cabeça, até ela explodir, no final das contas, foi muito trabalho, mas acho que o resultado valeu a pena.

Clovis: Você escreveu a faixa “Indestructible”. Qual foi a sua inspiração para a letra dessa música?

Markus: Quando fizemos a turnê, tive esse sentimento para mim porque… com os dois novos caras chegando, dois novos velhos caras, voltando para fazer os shows, havia tanta energia no palco, sabe, e nós também jogamos essa energia para o público, e o feedback foi incrível. A energia que recebemos do público foi grandiosa, e pensamos: “Meu Deus, isso é algo muito, muito especial”, e com os dois caras voltando… cara, a gente nunca desistiu! Mesmo sem eles, e agora com eles novamente, faz eu me sentir meio que indestrutível, sabe. E essa foi a minha inspiração, então nem mesmo uma pandemia pode nos deter quando voltarmos em turnê.

Clovis: Algo que chama a atenção é que não há baladas nesse novo álbum. Vocês escreveram alguma balada que não entrou no disco?

Markus: Sim, nós tínhamos algo parecido com uma balada, mas depois da mixagem decidimos não colocá-la no álbum, porque tínhamos diferentes ideias muito boas depois de feito, quando era tarde demais para usá-las,  e não iríamos lançar uma música que achávamos que não estar pronta. Apenas a seguramos e queremos trabalhar nela um pouco mais e torná-la ainda melhor, talvez para o próximo. Sendo assim,  pensamos: ‘Certo,  esse disco não vai ter uma balada. Vamos ver o que acontece’.

Clovis: Este álbum tem algumas linhas de baixo matadoras, como “Golden Times”, para citar apenas uma.  Como foi especificamente o processo de gravação do baixo? As gravações foram feitas em fitas analógicas?

Markus: A bateria definitivamente foi gravada em fitas analógicas, isso é certeza,  porque  queríamos usar as máquinas antigas para o kit de bateria do Ingo, que o Dani usou para obter um pouco daquele espírito do Ingo que tínhamos ao vivo. Queríamos transportar isso para o estúdio, então usamos máquinas muito antigas, como gravadores analógicos, duas delas no mesmo estúdio onde Ingo tocou alguns discos conosco, e isso foi muito, muito legal . Eu não sei como os outros foram gravados, eles fizeram suas gravações em Tenerife, Berlim ou sei lá onde eles fizeram. É como uma mescla de coisas analógicas com as coisas digitais. Isso dá uma sensação interessante, muito quente, eu acho.

Clovis: E como vocês recuperaram a bateria antiga do Ingo? Como vocês acharam?

Markus: Alguém conhecia um cara que a estava comprando na época, e então perguntamos para ele se poderíamos usá-la o estúdio e ele disse: ‘sim, por que não?’, orgulhoso dessa bateria estar de volta ao estúdio. Isso foi fácil [risos]. Dani se inspirou por isso também.

Clovis: Podemos notar isto no álbum, ele está tocando melhor que nunca, trazendo este feeling do Ingo de volta.

Markus: Yeah,  isso que ele nos disse, que estava tentando dar um pouco daquele espírito em sua maneira de tocar, porque ele adorava o Ingo e o jeito que ele tocava. Ele não tentou tocar como ele, mas ter um pouco daquele espírito na performance.

Clovis: Falando sobre os shows, os shows da turnê Pumpkins United tiveram a duração de quase três horas, para a próxima turnê, vocês já conversaram sobre a seleção das músicas para o setlist?

Markus: Um pouco, mas é um tema muito difícil, temos que sentar juntos e conversar um pouco mais sobre isso, pois temos um monte de músicas, como você pode imaginar. Também queremos tocar “Skyfall” e temos tantas outras músicas que são muito, muito longas. Você não pode gastar uma hora de show apenas tocando quatro músicas ou algo assim, você precisa tocar coisas diferentes. Então, estamos pensando o que podemos fazer sobre isso [risos]. E isso não vai ser fácil [risos]. Quanto mais músicas você tem, mais difícil fica montar um set list, sabe.

Clovis: Yeah, com certeza. Eu estava pensando… O Helloween irá resgatar algumas músicas antigas e raramente ou nunca tocadas como foi feito antes? Porque, por exemplo “Midnight Sun” nunca foi tocada ao vivo e a música é maravilhosa, ou “The time of the Oath” que nunca foi tocada nos últimos 20 anos.

Markus: É por isso que temos que sentar e escrever músicas que gostaríamos de tocar e achamos que as pessoas iriam gostar de ouvir músicas antigas que realmente nunca tocamos. Vai ser uma luta difícil, eu acho, porque todo mundo tem ideias diferentes, sabe, que podem ser engraçadas. Tenho medo de quando chegar este dia [risos].

Sascha e Markus (foto: Clovis Roman)

Clovis: O novo álbum se chama Helloween e é o mesmo nome do primeiro EP que vocês lançaram em 1985. Qual o significado desse nome? É algo que simboliza um novo começo para a banda ou algo assim?

Markus: Sim, algo assim. É um renascimento. Sentimos que renascemos com os dois novos caras e o círculo está se fechando aqui.Sentimos que: este é o Helloween. Não precisa de mais nada. Tivemos algumas ideias como Skyfall, que na verdade era para ser a faixa-título. Tínhamos ideias como… “Helloween’s Skyfall something blah blah blah”, ou algo assim. Mas no final pensamos: Não precisamos de nada além de “Helloween”. Sabemos que já usamos esse nome antes e outros bandas fizeram algo similar. Não reinventamos a roda ou algo assim, apenas sentimos que era a coisa certa.

Clovis: O Helloween tocou pela última vez no Brasil em 2019, e eu fui em dois shows, Florianópolis e Rio de Janeiro. Vocês tocaram com o Scorpions. Como foi dividir o palco com essa lendária banda alemã?

Markus: Foi legal, foram vários shows, eu assisti o Scorpions e o Judas Priest [N. Do R.: O Judas Priest não esteve nesta turnê]. Isso é ótimo. As pessoas pensam que nós saímos juntos o tempo todo porque somos duas bandas alemãs, mas a verdade é que nós mal nos vemos porque eles sempre estão em turnê e nós estamos em turnê. Desta forma, nunca conseguimos nos ver direito, mas dizer ‘olá’ e assistir seus shows foi ótimo. O álbum Tokyo Tapes foi um dos meus primeiros de rock, sendo assim, eu gosto muito dessa banda e o que eles fizeram, de abrir mercado japonese para o rock, sabe? Fiquei muito orgulhoso de fazer parte desta turnê com o Scorpions. Além disto, tínhamos David Coverdale e o Whitesnake naquela turnê também. Foi ótimo ver esses camaradas ainda tocando muito bem, eu adorei.

Clovis: Você acha que o Helloween angariou novos fãs com esta turnê, que foi, de certo modo, não planejada?

Markus: Espero que sim, talvez até novos fãs antigos, pois alguns me disseram que não gostaram tanto de um ou outro álbum, e que agora estão novamente acompanhando o Helloween. Também há muitos jovens indo aos shows, eu sei porque quando saio, alguns pais chegam me apresentando seus filhos e dizem que eles começaram há mais de 30 anos indo aos shows do Helloween e que continuam seguindo o Helloween desde então. E então, de repente, eles trazem seus filhos de 16, 17, 18 anos para os shows . Eu gosto desta coisa de unir gerações.

Clovis: Ainda falando sobre o Brasil, qual foi a sensação de retornar ao Rock in Rio, desta vez tocando no palco principal? Foi o último show da banda antes da pandemia, não é?

Markus: Esse foi o último, o último show de festival. Foi fantástico. Estava muito, muito calor, mas isto não me incomodou naquele dia, pois fazer algo assim é muito especial. Eu disse ao cara que faz os meus contrabaixos, da Sandberg, que estava fazendo meu baixo de abóbora: “ei pessoal, vocês têm que se apressar! Tenho que tocar esse baixo no Rock in Rio”, então eles se apressaram para que eu levasse o baixo para o Rio [risos]. Foi um show bastante especial.

Clovis: Marcus, em 2008 você trabalhou em um projeto paralelo chamado Bassinvaders, ao lado de outros grandes músicos de rock e metal. Você pensou em fazer um segundo volume para esse projeto ou foi algo único?

Markus: Eu acho que foi único fazer algo daquela maneira. Foi um experimento. A inspiração veio quando estávamos em turnê com o Motörhead, na temporada de festivais, no ano anterior a este CD. Eu vi Lemmy tocando, do lado do palco, e pensei “uau, esse som de baixo é incrível. Na verdade, com aquele som de baixo como esse, você não precisaria de mais guitarras, sabe?” [risos]. Então esta ideia foi bastante inspirada por Lemmy. Eu pensei: “bem, por que não arriscar e fazer uma tentativa?”. Eu gostei, foi um experimento e foi isso que as pessoas viram. Não venderia uma enorme quantidade de cópias, mas isto não era importante. Foi divertido para todos.

Clovis: Devo dizer que gosto muito daquela regravação “Eagle Fly Free” …
Markus
: Aquilo é algo bastante interessante [risos].

Clovis: Sim, com certeza! Ainda falando de projetos paralelos, em 1999 você gravou um álbum solo como Shockmachine, o incrível Ferdy Doernberg tocou as teclas, inclusive. Como foi gravar esse álbum e como você analisa ele hoje?

Markus: Era o que eu estava pensando naquela época. Um disco é sempre o reflexo, o espelho do que você sentiu ou do que tinha em mente. É um álbum muito legal, eu acho, só porque soa muito, muito diferente do Helloween e, portanto, eu realmente gosto dele.

Clovis: Quais foram suas primeiras influências no rock e, mais amplamente, os baixistas que te inspiraram a tocar esse estilo?

Markus: Quando eu estava começando, eu ouvia música punk, discos do The Clash, o London Calling e coisas assim que eu gosto. Mas depois me tornei um grande fã de AC/DC, Kiss e então veio Iron Maiden. Lembro-me de cair da cadeira enquanto ouvia o primeiro álbum do Iron Maiden. Tudo era único e para mim era como um paraíso do contrabaixo, sabe? Mais tarde tornei-me um grande fã de Geezer Butler, Billy Sheehan e todos estes músicos, Rudy Sarzo também; Cliff Williams, do AC/DC, também toca muito bem, mas a música é muito diferente. Ele precisa tocar esse baixo mais básico, porque a música é baseada nisso, e eu acho que também é uma arte não tocar tantas notas, mas queríamos coisas diferentes. Ian Hill, do Judas Priest, também é um baixista fantástico. Há muitos que eu gosto. Geddy Lee, do Rush, não é heavy metal mas tem algumas linhas de baixo incríveis, ou então, o John Entwistle, do The Who. Ele é, na verdade, meu baixista favorito de todos os tempos. John Entwistle, que deus o abençoe. Pessoas assim me comovem com sua maneira de tocar, é emocionante o que eles fazem. Muitos deles tocam de forma muito agressiva, o que eu acho legal e é muito inspirador para mim como baixista.

Capa da nova obra-prima do Helloween.

Clovis: Qual banda ou artista você acha que faria uma cover legal de alguma música do Helloween?

Markus: Talvez o  Judas Priest tocando “Eagle Fly Free”.

Clovis: Isso seria incrível! Quando entrevistei Weikath há dois ou três anos, fiz a mesma pergunta e ele me respondeu: “Judas Priest tocando ‘Steel Tormentor ’”.

Markus: Talvez seja “Steel Tormentor” e “Eagle Fly Free” ficaria para o Iron Maiden. Então eles iriam tocar essa música o tempo todo, porque eles fazem muitas turnês, o dinheiro da renda iria para o Helloween e não precisaríamos mais sair em turnê [risos]. Isso seria incrível. Seria ótimo [a cover], eu acho. “Steel Tormentor” é uma ideia muito boa para o Judas Priest, é verdade.

Clovis: Sim, encaixa perfeitamente. Eu tenho mais uma pergunta: Eu sei que você não escreveu a letra de “Steel Tormentor”, mas você pode me dizer sobre o que ela fala? Porque me parece meio sexual, eu acho.

Markus: Sim é! É a mente perturbada de Michael Weikath. É sobre isso que é a música, e eu adoro isso, é simplesmente louco, “crashing your machine down” e todas essas coisas. É realmente um tipo de letra de macho, e eu gosto disso.

Clovis: Marcus, muito obrigado por essa entrevista. Foi incrível e espero vê-lo em breve.

Markus: Sim, eu espero que sim. Qual é a situação onde você mora? Está melhorando?

Clovis: Não muito. No geral, não temos muitos shows. Não sabemos quando vai voltar.

Markus: E qual é a situação da Covid por aí?

Clovis: Já temos a vacina, mas levaremos mais uns meses para vacinar todos.

Markus: As lojas estão fechadas, vocês estão em lockdown?

Clovis: Uma semana está tudo fechado, na próxima semana algumas lojas abrem um pouco e fecham novamente. O governo não está fazendo nada, basicamente.

Markus: Você ainda estão com altos números, certo?

Clovis: Sim, mais de meio milhão de pessoas morreram até agora.

Markus: Oh, isso é cruel, péssimo. Precisamos superar isso, estou orando por vocês.

Clovis: Muito obrigado por suas palavras, Markus, isso significa muito para nós.

Markus: Tenha um bom dia então. Espero vê-lo em breve quando tudo voltar ao normal.

Fotos: Todas por Clovis Roman.

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