Ministry – Moral Hygiene
(Shinigami Records/nacional)
Por Clovis Roman
O álbum Moral Hygiene, do veterano Ministry, é o reflexo das mudanças no mundo nos últimos tempos. O maluco Al Jourgensen, referência do que se convencionou a chamar de metal industrial, se enfiou no seu próprio estúdio, o Scheisse Dog Studio, junto com o engenheiro de som Michael Rozon e sua namorada Liz Walton e o resultado está agora no mercado brasileiro pela Shinigami Records. Aliás, tanto Rozon quanto Liz participam em quase todas as faixas.
A hipnótica frase “How concerned are you?” vai crescendo de maneira claustrofóbica, até a entrada do espetacular riff principal da faixa de abertura, “Alert Level”, caótica ao mesclar partes inicialmente destoantes, o que causa um certo e desafiador desconforto na primeira audição. A bateria foi gravada por Roy Mayorga, que tocou por anos no Soulfly, e é a percussão mais orgânica de todo o álbum.

O restante de Moral Hygiene conta com bateria programada, o que dá uma mudança na sonoridade, mas não baixa a qualidade como um todo. A segunda, “Good Trouble”, é outra que traz um convidado que aparece em apenas uma música: o baixista Paul D’Amour, que tocou no Tool nas antigas. Mais lenta e introspectiva em seu núcleo, traz momentos de balbúrdia controlada. Com um pé no punk rock, “Sabotage is Sex” traz o lendário Jello Biafra (ex-Dead Kennedys) e sua voz irônica e inconfundível, bradando belíssimos versos como “Freedom from religion, freedom from starvation, freedom from pollution”. Na seguinte a pegada muda bastante, com “Disinformation”, um tema bastante eletrônico com participação de Billy Morrison (atual Billy Idol) nas guitarras e teclados; ele aparece em outras faixas também.
Embarcando em outra jornada musical depois de tocar thrash metal a maior parte da carreira, David Ellefson (ex-Megadeth) aparece em “Search and Destroy”, clássico do The Stooges, que soa mais palatável aqui em comparação com suas antecessoras, e “Believe Me”, bastante acessível. As letras são agressivas críticas a diversas mazelas sociais da atualidade, com política, racismo, imprensa e controle de informações, teorias conspiratórias e até mesmo ecologia. Nada diferente do que se esperaria de Al Jourgensen, o insano líder e vocalista do Ministry. A frase final “Life will never be the same” faz a conexão direta com o começo da seguinte, “Broken System”, que aborda o cuidado com os recursos naturais – We’re running out of time to save our planet – e é guiada por uma cítara além dos instrumentos convencionais.
Depois da lenta e raivosa “We Shall Resist” (bagunçada e lúgubre), a estranha “Death Toll” mete a bicuda ao homenagear o mais de meio milhão de americanos mortos por decorrência da Covid-19 durante a criação deste álbum. A letra desta não está no encarte, apenas uma mensagem específica aos que morreram – na verdade, são bradadas algumas frases e palavras avulsas. A música em si é lenta e no máximo interessante, com algo de rap, o que destoa totalmente da seguinte, “TV Song # 6”, que encerra o CD. Em vez de finalizar o trabalho com uma música mais calma, Jourgensen joga na cara de todos um som brutal, na velocidade da luz, com frases avulsas jogadas em meio a letra. Aliás, ambas trazem críticas à religião de maneira ampla. Com uma porrada ultrasônica, é decretado o final de Moral Hygiene.
Sem comparar com a obra pregressa de Jourgensen e seu Ministry, este registro é bastante interessante e desafiador, merecendo algumas audições até ser, de fato, assimilado pelo ouvinte. O primeiro bloco do CD e a saideira são os grandes momentos, mas a obra toda é bastante interessante.
Compre o CD: https://www.lojashinigamirecords.com.br/p-9485195-Ministry—Moral-Hygiene
Músicas
- Alert level
- Good trouble
- Sabotage is sex
- Disinformation
- Search and destroy
- Believe me
- Broken system
- We shall resist
- Death toll
- TV song #6

