[Cobertura] Mosh Metal Meeting reúne gigantes do metal extremo em produção primorosa

Belphegor, Crypta, Krisiun, Nervochaos
28 de maio de 2022
Wox Club
Pomerode/SC

Por Clovis Roman e Kenia Cordeiro

A turnê organizada pela Xaninho Discos intitulada Brea Extreme Tour reuniu quatro bandas de peso do metal, com uma grande quantidade de datas pelo Brasil e América do Sul. Com realização da Mosh Productions, uma das paradas foi em Pomerode/SC, na conceituada Wox Club, espaço que já recebeu grandes nomes do metal mundial, como Nile, Pestilence, Blaze Bayley, entre outros.

A espaçosa casa, que oferece outros ambientes ao público, incluindo uma área externa ampla (e com uma fogueira bastante bem-vinda), ficou abarrotada de gente do começo ao fim da noite. O som das bandas, no geral, estava excelente, e outro fator a ser glorificado foi a pontualidade nas apresentações. Por exemplo: a primeira banda, Crypta, estava programada para começar às 19h, e foi exatamente o que aconteceu.

Toda a área do palco estava lotada para conferir o Crypta, que lançou ano passado o álbum Echoes of the Soul, e agora está realizando a primeira turnê mais extensa da carreira. Em breve, inclusive, elas invadirão a Europa. Como Jessica e Fernanda Lira me confirmaram mais tarde, o repertório foi basicamente a tracklist do CD, com exceção de Blood Stained Heritage. O quarteto atualmente conta com Luana Dametto (bateria), Tainá Bergamaschi (guitarra), Fernanda Lira (voz e baixo) e Jéssica Falchi (guitarra), que substituiu Sonia Anubis. Um dos grandes destaques foi o brilhantismo de Jessica, que tocou como se estivesse na formação há anos. Isto deu uma unidade sonora à ferocidade das faixas, que são agressivas ao mesmo tempo que usam de maneira inteligente melodias cativantes.

Em cima do palco, o Crypta despejava fúria no público ensandecido, que retribuía cantando, agitando e se quebrando. Foi uma troca de energia espetacular, e possivelmente a mais intensa de toda a noite. Quem não conhecia tanto o som do grupo, certamente virou fã. Se elas pintarem na sua região, não perca a oportunidade: é um dever cívico metálico conferir o Crypta ao vivo. Vale frisar que o palco, adornado com sidedrops e um candelabro com velas, estava fenomenal.

Crypta.

O primeiro segundo de “Possessed” chega a remeter a “The Philosopher”, do Death. Curiosamente, no encerramento do show, com “From the Ashes”, o quarteto tocou a mesma finalização que o Death fazia nas versões de “The Philosopher” ao vivo. A influência do grupo de Chuck Schuldiner é sentida em alguns momentos (a intro da imponente “Shadow Within”, por exemplo), mas são apenas referências que abrilhantam ainda mais o som, afinal o Crypta tem uma identidade sonora própria, que se havia chamado atenção no CD Echoes of the Soul, transborda nas apresentações ao vivo, unido a garra e ferocidade com que as instrumentistas se apresentam em cima do palco. Show primoroso.

Repertório

Death Arcana
Possessed
Kali
Under the Black Wings
Starvation
Shadow Within
I Resign
Dark Night of the Soul
From the Ashes

Devido ao compromisso das quatro bandas em São Paulo, no dia seguinte, o cronograma foi formatado de maneira a permitir que estas tocassem primeiro, para facilitar toda a logística para os grupos. Portanto, o Crypta abriu a noite e foi seguido pelo Nervochaos, uma verdadeira instituição do metal nacional, e uma das que mais excursiona no exterior. Atualmente, o conjunto conta com o americano Brian Stone (vocais), Woesley Johann (guitarra), Pedro Lemes (baixo), estes na banda há cerca de um par de anos, além de Luiz ‘Quinho’ Parisi (guitarra), que entrou em 2010, e o membro original e guerreiro do metal Edu Lane (bateria).

São dez álbuns de estúdio em pouco mais de 25 de estrada. A trajetória do Nervochaos é de persistência e garra, pois mesmo com os percalços inerentes ao nosso amado estilo, o grupo nunca se deixou abalar. Eu venho acompanhando shows deles há cerca de duas décadas, e os vi com diversas formações diferentes. De todas, a atual é a mais sólida e coesa, sem sombra de dúvidas. A adição do exímio Woesley, por exemplo, trouxe um refinamento nos solos. E este é apenas um dos fatores. Nos vocais, Stone brutalizou, com um timbre potente e boa presença de palco. O mais recente registro deles é All Colors Of Darkness, que saiu este ano, poucos meses depois do álbum de regravações Dug Up… Diabolical Reincarnations. O grande destaque foi a já clássica “Pazuzu is Here”, além de “For Passion Not Fashion “ e “Dragged in Hell”, com suas partes velozes em contraponto a momentos mais tensos.

Krisiun!

O Krisiun veio na sequência mantendo a qualidade em alta. Sempre primoroso em cima do palco, o trio estava inspirado, e preparou um repertório focado no material mais antigo, proporcionando uma espécie de viagem no tempo aos fãs que viram eles ao vivo há uma década ou mais. A linha divisória foi The Great Execution (2011), com as pedradas “Blood of Lions” e “Descending Abomination”, mais cadenciadas. Os clássicos discos Apocalyptic Revelation (1998) e Conquerors of Armageddon (2000) também contribuíram com um par de canções: “Kings of Killing” e “Vengeance’s Revelation”, “Hatred Inherit” e “Ravager”, respectivamente. Nestas todas a galera se quebrou. Ainda mais que “Kings of Killing” e “Ravager” – dois mísseis supersônicos – vieram na sequência, abrindo a apresentação.

Em determinado momento, Alex Camargo (baixo e vocal) se posicionou e conclamou todos para os shows do Krisiun, sem distinções. Todos são bem-vindos no show do Krisiun, independentemente de cor, gênero, orientação sexual, origem, disse, antes de “Blood of Lions”. Também criticou o atual governo fascista, o que causou um coro de fora Bolsonaro, acompanhado pela banda – inclusive, este mesmo coro havia rolado no show do Crypta. O momento curioso foi quando, com sua voz de trovão, Alex educadamente disse a um fã que se apoiava nas caixas de retorno: “Cuidado com a mãozinha”. Brutal e gentil. Encaminhando para o final, a banda mudou um pouco o repertório. Primeiro, retirando “Bloodcraft” (tocada por eles na passagem de som mais cedo) e colocando “Scourge of the Enthroned” no lugar (foi a única mais recente apresentada), e realocando a posição de “Ace Of Spades” (Motörhead) no setlist, o que retirou “Black Force Domain” deste show. Foram apenas 10 músicas, algo perfeitamente compreensível devido ao formato da turnê, que conta com quatro bandas.

Repertório

Kings of Killing
Ravager
Combustion Inferno
Vengeance’s Revelation
Descending Abomination
Blood of Lions
Vicious Wrath
Scourge of the Enthroned
Ace of Spades [Motörhead]
Hatred Inherit

Serpent, do Belphegor.

Se o Krisiun focou o repertório em materiais mais antigos, o Belphegor foi no sentido oposto. Três músicas do vindouro álbum The Devils foram apresentadas: “Totentanz – Dance Macabre”, que fechou; “Sanctus Diaboli Confidimus”, além do novíssimo single “Virtus Asinaria – Prayer”, que conta com uma particularidade interessante. Os versos da canção foram usados pela primeira vez em “Festum Asinorum / Chapter 2”, do álbum Goatreich – Fleshcult (2005). A sequência veio no disco do ano seguinte, Pestapokalypse VI, em “Chants For The Devil 1533”. Os versos “Aurum de Arabia, Thus et Myrrham. Tulit in ecclesia, Virtus Asinaria. Orientis partibus, Adventavit Asinus. Pulcher et fortissimus, Virus Asinaria” estão nestas três faixas, e cada música tem uma pegada diferente.

Enquanto nas duas primeiras o foco é a velocidade, nesta terceira parte o Belphegor tirou o pé do acelerador, fazendo algo mais cadenciado e lento, dando ênfase aos versos macabros e blasfemos, como cânticos de um ritual negro. Daí, inclusive, o sufixo ‘prayer’ no título, pois de fato parece uma oração. Inclusive, durante o setlist, não apenas a música e a parte lírica deram o tom tenebroso e lúgubre. O frontman Helmut por vezes se utilizou de gestos irônicos à fé cristã, além de suas expressões faciais de desespero e ódio – completaram o clima os adornos de palco, como caveiras e tudo o mais. No Belphegor há 16 anos, o baixista Serpenth se tornou figura essencial na formação. Sua presença de palco é igualmente medonha e performática. A experiência de ver o Belphegor ao vivo é completa. E nisto eles estão cada vez melhores.

Helmuth, membro fundador do Belphegor.

O restante do repertório veio primordialmente dos últimos 15 anos. A nefasta “Stigma Diabolicum”, do Bondage Goat Zombie (2008) foi uma das mais antigas, junto com a caótica “Belphegor – Hell’s Ambassador” e a ancestral “Lucifer Incestus” (antes desta, Helmuth, em uma das poucas vezes que falou com a galera, saudou cada uma das outras bandas daquela noite), um dos destaques pela performance e reação do público. De resto, faixas de Totenritual (o disco mais lembrado esta noite, com três canções), além de “Conjuring the Dead / Pactum in Aeternum”, do disco Conjuring the Dead (2014). Deste, inclusive, tocariam “Gasmask Terror”, porém a banda saiu do palco deixando de apresentá-la. Porém o massacre foi tão efetivo – e o som estava excelente, o bumbo era ouvido com uma rara clareza – que ninguém reclamou. Após a apresentação, Helmuth atendeu pacientemente todos os fãs para fotos, enquanto os demais integrantes se dirigiram ao camarim. Memorável noite de blasfêmia.

Repertório

Swinefever – Regent of Pigs
The Devil’s Son
Sanctus Diaboli Confidimus
Belphegor – Hell’s Ambassador
Stigma Diabolicum
Conjuring the Dead / Pactum in Aeternum
Lucifer Incestus
Virtus Asinaria / Prayer
Baphomet
Totentanz – Dance Macabre

Fechando a noite, veio a Paradise in Flames, que deu um tremendo salto de qualidade em seus trabalhos mais recentes, principalmente no disco Act One, de 2021. Recém retornados de uma turnê na Europa, fizeram uma apresentação excelente, mantendo uma boa parcela do público dentro da casa até o fim do show deles. Depois, os catarinenses do Zombie Cookbook, mandando seu death metal com visual de filme de terror simplesmente genial. Nesta hora, a casa começava a esvaziar, mas os caras seguraram firme e deram tudo e mais um pouco. Próximos a área externa da casa, o Didley Duo se apresentou no intervalo de cada uma das bandas da noite, ou seja, fizeram vários sets de curta duração. O som é uma doideira só, com Breno Teixeira tocando pás, tábuas de tanque de lavar roupa, latas e outros itens que se tornaram instrumentos de corda amplificados. Preciso como sempre, o baterista João Kolachinski (também da Sex N’ Roll) completa a formação do grupo que, como o nome sugere, tem apenas dois integrantes.

O sucesso de público é algo a ser louvado. Diferente de outro evento que vi na casa pouco mais de um mês antes, nesta noite a Wox Club lotou, recebendo 600 pessoas de todos os cantos de Santa Catarina e Paraná, incluindo algumas pessoas do Rio Grande do Sul.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s