[Resenha] Cülpado – Romper da Realidade

Cülpado – Romper da Realidade
(Kill Again Records/nacional)

Material gentilmente cedido por Jeff Verdani

Por Clovis Roman

O projeto do experiente baterista curitibano Jeff Verdani, Cülpado, foi idealizado em 2020 e chegou ao primeiro álbum pouco tempo depois. Após dois singles, “Canibais de Garanhuns” e “Loucura a Dois”, finalmente o full-lenght, Romper da Realidade, chega ao mercado pelo lendário selo Kill Again Records.           

Conhecido por tocar em bandas como Sad Theory, Axecuter, Jailor e Murdeath, também chegou a fazer um show com a banda sueca Ambush, quando o baterista deles se atrasou para uma apresentação durante uma turnê pelo Brasil. Com este currículo certamente era de se esperar que o projeto paralelo do músico fosse de qualidade, mas cada segundo deste CD é surpreendente. Como a imagem do músico é, primordialmente, de um baterista, espanta o talento com a guitarra e também nos vocais, cavernosos e raivosos na medida. No que tange a composição, tudo é de extrema qualidade e coesão.

O que chama atenção de cara é a qualidade da gravação, que destaca a bateria sem torná-la maçante. Os riffs são excelentes e as estruturas muito bem definidas e fluídas. A faixa-título abre o trabalho, um thrash metal bastante dinâmico e instrumental. Os dois minutos e meio passam na velocidade da luz, até voltei para ouvir mais uma vez.

Liricamente, Romper da Realidade é um álbum temático, e cada música aborda crimes de serial-killers brasileiros.  O título foi inspirado em um bordão do psiquiatra forense Guido Arturo Palomba, que destaca o rompimento com a realidade como uma característica assídua nestes tipos de assassinos, que seguem suas vidas sem remorsos, sem arrependimento, sem culpa. Com a música apresentada neste disco, Verdani não tem remorso algum dos ouvintes. Porém, claro, de maneira positiva. A explosiva “Mato por Prazer” conta a história de Pedrinho Matador, temido criminoso que assumiu ter matado mais de 100 pessoas apenas pela sua própria satisfação. Não tinha remorsos e matava quem achava que deveria morrer, um negócio meio Dexter.

Um pouco mais devagar, com partes um pouco mais melódicas (mas pouca coisa), “Maníaco Maldito” conta mais uma história de horror, que abre espaço para a insana “Picadinho”, cujo título deixa claro o tema: Chico Picadinho, aquele cujo primeiro assassinato o levou a picar a vítima, uma bailarina austríaca, com faca de cozinha, tesoura e até mesmo lâmina de barbear. Sublime. “Loucura a Dois” (cuja letra foi escrita por Daniel Franco, baixista e letrista do Sad Theory) é outro arregaço musical, e chega a lembrar algo dos materiais mais recentes do Sad Theory. Inclusive o vocal de Verdani remete ao de Guga aqui e em algumas outras passagens no decorrer do play. A letra se refere ao Folie à Deux (Loucura a Dois, em francês), uma síndrome psicótica compartilhada, e foi baseada nos atiradores dos colégios de Suzano (São Paulo) e Columbine (EUA).

Um thrash metal virulento (o comecinho chega a lembrar “Black Magic” do Slayer), “Canibais de Garanhuns” tem um solo fenomenal (mas que, justamente por isto, poderia ser maior), partes dinâmicas e muita agressividade. Não poderia ser diferente, afinal, a letra fala sobre aquela galera que matou algumas mulheres e depois venderam a carne humana dentro de singelos salgadinhos. Uma exceção – em partes – a temática do álbum, “Cortejo Fúnebre” não relata nenhum crime, mas é baseada em um conto escrito por Jorge Beltrão Negromonte, que consta em um livro de sua autoria, chamado “Revelações de Um Esquizofrênico”. Verdani adaptou os versos, portanto ele e o criminoso co-assinam esta letra.

Finalizando, “Pipoca, Sangue e Pólvora” é mais cadenciada, com uma intro dedilhada e depois descamba para riffs mais heavy. O andamento moderado alicerça vocais rasgados quase inteligíveis. Apenas quase pelos três minutos é que o som pega mais velocidade, com uma guitarra base e uma solo se sobrepondo, criando algo como um Iron Maiden death metal. Vibrante e hipnótica, a faixa evolui sem pressa em seus oito minutos de duração. Curiosidade: o Hutt já gravou uma música com o mesmo tema e com o título bastante similar: “Pólvora, Pipoca E Sangue”. Aliás, o tema é aquele massacre dentro de um cinema no Morumbi Shopping, em São Paulo, em 1999, quando um maluco entrou atirando em quem estava vendo um filminho. Três pessoas morreram.

Mesmo gravando todos os instrumentos sozinho, Verdani não se furtou em trazer diversos convidados para abrilhantar a obra. São nomes de peso como Aly Fioren (Sad Theory) em “Picadinho”, Danial Danmented (Axecuter) em “Cortejo Fúnebre” e o grande Luis Carlos Louzada (Vulcano) na mesma faixa, fazendo vocais de apoio. As gravações aconteceram no Estúdio O Beco, com o produtor Ivan Pellicciotti (Vulcano), e a excelente capa (que retrata os cenários retratados nas músicas – perca horas procurando cada referência)  foi concebida por Jeff Verdani e desenvolvida por Ícaro Freitas, da Skull Full of Ink.

São oito músicas em pouco menos de 34 minutos de duração, o que acaba ocasionando uma coisa cada dia mais incomum na maneira como as pessoas consomem música: a vontade de apertar o replay no aparelho de som. Em seu julgamento, acusado de entregar um dos melhores álbuns ouvidos no Brasil nos últimos tempos, Verdani é declarado cülpado.

Músicas

  1. Romper da Realidade
  2. Mato Por Prazer
  3. Maníaco Maldito
  4. Picadinho
  5. Canibais de Garanhuns
  6. Cortejo Fúnebre
  7. Loucura a Dois
  8. Pipoca, Sangue e Pólvora

Conheça mais o projeto em: https://linktr.ee/culpado  

Foto: Mateus Cantaleano

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