[Cobertura] Angra transcende mares e terras com turnê nostálgica

Angra
Tokio Marine Hall
02 de julho de 2022
São Paulo/SP

Por Clovis Roman e Kenia Cordeiro

Por mais que o Angra entregue excelentes shows em todas as praças, as apresentações em São Paulo sempre causam um frisson extra. Mais uma vez no palco do Tom Brasil (ou Tokio Marine Hall, que seja), o grupo exibiu aos fãs um longo e variado repertório com uma vibrante performance, como sempre. Assisti todas as formações da banda ao vivo, e independente de quem esteja no palco, se o momento é prolífico ou de transição, sempre a entrega é, no mínimo, muito satisfatória.

A banda vive um momento de estabilidade, com uma formação já consolidada e dois álbuns de estúdio que os mantiveram em atividade e com criatividade. Agora, celebrando as duas décadas do icônico disco Rebirth, o Angra o exibiu na íntegra e revisitou todos os demais  álbuns da carreira, com um repertório idêntico ao apresentado em todas as outras cidades até agora (bom, em Belo Horizonte faltou “The Rage of the Waters”, mero detalhe).

A apresentação foi disponibilizada também via streaming, uma iniciativa muito bacana para quem não pode conferir o show pessoalmente. Alguns problemas ocorreram na transmissão durante algumas canções, mas no geral tudo saiu conforme o esperado, com uma boa qualidade de som.

Guga Machado ao fundo, Bittencourt e Andreoli.

Às 22 horas, um pano foi posicionado em frente ao palco, com a capa do disco Rebirth, antecipando a experiência de “voltar no tempo he he he heyy” (referência ao DVD Rebirth World Tour). Poucos minutos depois, a banda surge abrindo com a colossal “Nothing to Say”, uma das mais belas obras, entre tantas, lançadas pelo Angra nestes trinta anos de estrada. Na sequência, “Black Widow’s Web”, do mais recente trabalho, Omni (2018), com Rafael Bittencourt fazendo as partes gravadas originalmente por Sandy e Fabio Lione fazendo os guturais que no CD foram registrados por Alissa White-Gluz (Arch Enemy), com o adendo dos vocais de apoio do baixista Felipe Andreoli em determinadas partes. O gutural de Lione, inclusive, soou bem mais encorpado que na tour anterior, que pode ser conferida no DVD Omni Live. A música em si, vibrante e com solos estonteantes, entretanto, poderia ter dado espaço a outras como “Magic Mirror” ou “Insania”, dada a reação mais contida após o desvairo coletivo da faixa de abertura.

Entretanto, isto acabou passando meio batido, afinal, na sequência veio “In Excelsis”, intro de Rebirth, como um prenúncio de “Nova Era”, um dos maiores hits, um power metal veloz e com melodias memoráveis e cantaroláveis. Do photo-pit, pude ver como os fas estavam envolvidos com a canção, e esta conexão se manteve com a progressiva “Millenium Sun” (composição do ex-guitarrista Kiko Loureiro), que abre melancólica e lenta, arrepiando os recônditos mais profundos do corpo, para entrar então em uma sessão mais cadenciada e de melodias ganchudas que se seguem até colidirem no grandioso refrão, cantado de maneira preciosa por Lione.

É óbvio mais que ululante que todos na banda são tecnicamente acima de qualquer suspeita, mas a performance do baterista Bruno Valverde chamou a atenção. Com um kit de bateria mais singelo que outrora, e agora segurando as baquetas de maneira mais adequada ao Metal (certamente a breve passagem pelo Sepultura rendeu um update neste sentido), o jovem músico preencheu todas as lacunas ao mesmo tempo que aplicava uma força ainda maior nas batidas, como ficou bastante evidente em “Acid Rain” e “Metal Icarus”, esta na segunda parte do show. Outro bem vindo adendo percussivo foi a performance de Guga Machado, que tocou em praticamente todo o set, adicionando uma nova gama musical ao som já encorpado do quinteto.

Rafael Bittencourt.

As pérolas, além dos hits, foram “Judgement Day”, tocada poucas vezes ao vivo até então, e a versão mais crua de “Unholy Wars”, uma música cheia de nuances e passagens que poderiam ser discrepantes com outra banda, mas não com o Angra, que costura tudo de maneira brilhante e fluída.

A trinca final de Rebirth – “Judgement Day”, “Running Alone” e “Visions Prelude” – contou com a participação da pianista Juliana D’Agostini. A última destas foi o momento no qual o instrumento encaixou como uma luva, em um dos mais belos momentos do repertório. Ver o Angra tocar uma música tão lenta, com forte carga emocional, com o adendo do piano e dos vocais brilhantes de Lione (que ainda cantou alguns versos em no estilo operístico), é simplesmente deslumbrante. Apesar do trunfo desta faixa em cima do palco, ela dificilmente voltará a ser apresentada em turnês posteriores (assim como “Judgement Day”).

O segundo ato do concerto trouxe um apanhado de músicas dos outros álbuns da banda, uma de cada. Assim como nos outros shows que estive desta turnê, a despeito do brilhantismo de todas as canções deste bloco, foi um momento mais morno após o frenesi anterior. Todas estas pepitas de ouro certamente foram reluzentes, como “The Rage of the Waters” e “The Course of Nature” (com a introdução no berimbau feita por Guga Machado), porém “Metal Icarus”, do magnânimo e subestimado Fireworks (1998) brilhou indubitavelmente mais ainda. A intro por Rafael Bittencourt e Marcelo Barbosa puxou a atenção de imediato, e os fãs foram brindados por uma interpretação irretocável, levando-os ao último álbum que Andre Matos gravou com o conjunto. Uma junção de fatores levaram Fireworks a não figurar na maioria das listas de álbuns favoritos dos fãs, porém este é um trabalho sólido, com músicas mais pesadas e uma profusão de solos estupendos.

A brilhante balada “Bleeding Heart” teve grande interação da plateia que lotou o Tokio Marine Hall, enquanto “Upper Levels” levou a níveis inferiores de reciprocidade, mesmo sendo um arraso prog repleto de nuances a la Rush, por exemplo. A ferocidade retornou no encore, como esperado, com “Carry On”, a mais icônica música da banda.

Fabio Lione e Marcelo Barbosa ao fundo.

Uma apresentação ao vivo é algo orgânico, baseado em energia e imprevistos. Quem espera perfeição cirúrgica em cada segundo, que vá ouvir o CD em casa. Aqueles mais conscientes de como consumir e apreciar a boa música, certamente imergiram na experiência e saíram dela plenamente satisfeitos. Música é para sentir, se conectar e extravasar (entre outras expressões), não para fazer um relatório impassível e ignóbil.

O Angra é uma banda resiliente, como se costuma falar no mundo corporativo. Fala-se muito sobre a capacidade da banda em renascer em meio as adversidades, fazendo um paralelo com o nome do álbum. Porém, o Angra nunca morreu, apenas passou por momentos turbulentos antes de se reinventar. Foram trinta anos de batalhas, derrotas, mas muito mais vitórias. Um texto de um colaborador dos primórdios da revista Rock Brigade, cujo nome infelizmente desconheço, ao falar sobre um álbum do Manowar, serve para descrever esta jornada do Angra sobre Aquas às Holy Lands em sua barca guiada pelos ventos do destino: “Tempos medievais. Mar turbulento, ondas açoitantes, céu nebuloso. Como que alheia, uma indestrutível embarcação singra a violência das águas, imponente, assustadora. Homens de guerra bradam o seu grito de vitória enquanto é alçada a bandeira do leão sagrado de sua majestade. Ao fundo, navios pirata vão lentamente em chamas, a pique. Terra firme, solo montanhoso, aurora gélida. Os soldados da verdade suprema montados em seus corcéis bafejantes, cavalgando orgulhosos em oferenda ao soberano. No fundo do vale, agonizam os lacaios da maldição peçonhenta”.

.Repertório:

Nothing to Say
Black Widow’s Web
Nova Era
Millennium Sun
Acid Rain
Heroes of Sand
Unholy Wars
Rebirth
Judgement Day
Running Alone
Visions Prelude
The Course of Nature
Metal Icarus
The Shadow Hunter
The Rage of the Waters
Bleeding Heart
Upper Levels
Carry On

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