Nightwish + Beast in Black
14 de outubro de 2022
Espaço Unimed
São Paulo/SP
por Clovis Roman e Kenia Cordeiro
Fotos por Rafael Strabelli (Divulgação/Produtora)
Em meados de 1996 o Nightwish nasceu com um punhado de canções acústicas, logo travestidas ao metal com guitarras e a insólita voz de Tarja Turunen, conquistando o mundo após o segundo disco, Oceanborn. Até a traumática saída (demissão) da vocalista em 2005, seguiram numa crescente que parecia não ter fim.
Uma fase menos aclamada mas que igualmente primava pela excelência, com Anette Olzon, o grupo finlandês encontrou na gigante Floor Jansen sua voz definitiva. Capaz de interpretar com facilidade as antigas canções, ainda imprimiu uma identidade única nos materiais que gravou com o Nightwish, principalmente no disco próximo da perfeição chamado Human. :||: Nature. (2020) – nossa resenha sobre a obra você pode relembrar aqui.

Começaram pontualmente às 22h30 com a parte tribal da introdução de “Music”, infelizmente não tocada na íntegra. Ela abriu o caminho para “Noise”, típica música simples e pegajosa do Nightwish, que imediatamente prendeu a atenção do público, que lotou o Espaço das Américas (agora chamado Espaço Unimed) e cantou alto em basicamente todas as músicas.
Do clássico Once, veio “Planet Hell”, com Floor fazendo as partes do baixista Marco Hietala, que deixou o grupo após quase duas décadas. A perda do músico (substituído pelo discreto Jukka Koskinen, ex-Wintersun) foi um duro golpe, todavia, como o Nightwish é craque em se reinventar, tudo foi adaptado e o show continuou. Outra mudança na interpretação veio em “I Want My Tears Back”, com o coringa multi-instrumentista Troy Donockley fazendo as partes vocais do ex-baixista. Nesta, todos os instrumentistas ficaram no praticável ao fundo, passando ao público uma sensação de união e camaradagem entre eles. Por sua vez, Floor, posicionada no centro do palco, à frente, catalisou as atenções para si, e não apenas neste momento, mas durante todo o repertório.

A configuração do palco era diferente de outrora: O praticável ao fundo tinha a bateria no canto esquerdo, com o tecladista e chefão Tuomas Holopainen ao lado, comandando os teclados, e na outra extremidade, o espaço destinado a Donokley, que tocou uma miríade de instrumentos e cantou em diversos momentos. A entrada do músico foi um ganho imensurável à formação do Nigthwish, e uma prova disto – dentre tantas outras – foi a execução de “Nemo”, com o músico fazendo o solo de guitarra enquanto Emppu Vuorinen, o guitarrista oficial, cuidou da base. Este formato poderia ser repetido em mais músicas, inclusive.
Das músicas novas, “Tribal”, como o nome sugere, tem elementos mais percussivos, com uma performance estonteante do baterista Kai Hahto, outro achado brilhante de Tuomas. O músico, que tem vasto currículo – inclusive passando pelo Rotten Sound, uma banda de grindcore (!) – trouxe um gás renovado e muito mais precisão, força e qualidade técnica para a função. A canção tem um riff que lembra bastante “Territory”, do Sepultura, em seu minuto final. As melodias vocais de “Shoemaker” enfeitiçaram o público, enquanto a versão acústica de “How’s the Heart” foi o momento mais fofo, com Floor e Troy sozinhos em uma interpretação sublime. Tuomas e Kai voltaram para tocar a parte final.

A delicada e empolgante “Elán” foi o contraponto de “Storytime”, um dos melhores refrões do Nightwish, em meio a tantos outros memoráveis. A frase “I know you like stories”, dita por Floor, foi a deixa para este momento ter seu início. A cantora, aliás, foi um dos principais destaques, com uma performance assombrosa do início ao fim. Em “She is my Sin”, trouxe uma abordagem menos lírica e mais orgânica, enquanto em “Sleeping Sun” soou mais próxima da original. Em todo caso, transbordou excelência e também em carisma, ao conversar diversas vezes com o público e agradecer ao mesmo inúmeras vezes.
O bloco final trouxe a épica “Ghost Love Score”, daquelas pérolas de rara beleza na história da música. Ela proporcionou um final apoteótico e emotivo, com uma qualidade técnica cada vez mais apurada. Mas se o assunto é uma composição longa e intrincada, ainda havia “The Greatest Show on Earth”, um monumento de 24 minutos no CD, que no palco ficou na casa dos 17. Troy novamente tocou guitarra aqui, dando um upgrade musical fundamental. No telão ao fundo, entre cenas diversas, veio uma homenagem à Alexi Laiho, ex-Children of Boom, que faleceu há algum tempo, e era amigo deles.
O grandioso épico, repleto de camadas, vozes e sentimentos, foi o adeus do grupo aos brasileiros em grande estilo. Em 170 minutos irrepreensíveis, o Nightwish proporcionou aos fãs o maior show da terra.
Repertório – Nightwish
Noise
Planet Hell
Tribal
Élan
Storytime
She Is My Sin
Sleeping Sun
7 Days to the Wolves
Dark Chest of Wonders
I Want My Tears Back
Ever Dream
Nemo
How’s the Heart?
Shoemaker
Last Ride of the Day
Ghost Love Score
The Greatest Show on Earth
All the Works of Nature Which Adorn the World: VIII. Ad Astra

Beast in Black
A abertura de noite foi um brinde muito bem-vindo. Pela primeira vez no Brasil, o Beast in Black fez uma apresentação empolgante, que cativou aqueles que ainda não os conheciam. A primeira música, “Blade Runner”, teve problemas com o microfone, mas a plateia relevou, e o simpático vocalista Yannis Papadopoulos também levou na esportiva. Empolgado, na sequência anunciou a dançante “From Hell with Love”.
Os refrães tiveram uso de VS, reforçando os vocais do grego, que usa e abusa de linhas estridentes, na linha de Rob Halford dos anos 90 e Ralph Scheephers. A música que dá nome à banda e “Born Again” mantiveram o ritmo, assim como o heavy/power “Cry for a Hero” e o dance com guitarras “Moonlight Rendezvous”, do mais recente disco Dark Connection (leia aqui nossa resenha).

Ressoando Iron Maiden, “No Surrender” foi um dos grandes destaques, e “One Night in Japan” trouxe Papadopoulos dançando sem medo de ser feliz. A banda, liderada pelo introspectivo Anton Kabanen, ex-integrante do Battle Beast, tem suas raízes fincadas no heavy metal, porém, traz elementos eletrônicos e ritmos bastante acessíveis. Uma prova é “Blind and Frozen”, cujos versos iniciais em tons mais delicados chamaram atenção positivamente. O estilo não conversa muito com o Nightwish, mas acertou em cheio com esse público, que, mesmo não agitando tanto, apreciou de maneira respeitosa e aprovou. Nas conversas com a plateia, o vocalista disse que eles deram um passeio no Cristo Redentor, e em outro momento, revelou que a banda volta ao país para o festival Summer Breeeze Brasil, que vai rolar em abril de 2023. A galera até chegou a puxar um coro “Beast in Black, Beast in Black”.
Repertório – Beast in Black
Blade Runner
From Hell With Love
Beast in Black
Born Again
Cry Out for a Hero
Moonlight Rendezvous
Sweet True Lies
No Surrender
Die by the Blade
One Night in Tokyo
Blind and Frozen
End of the World




















