Por Jessica Valentim
Poucos minutos antes de nossa conversa começar, Ben Hutcherson precisou interromper a chamada. O motivo era dos melhores possíveis: a primeira prensagem em vinil do novo álbum do Khemmis acabara de chegar à sua casa.
Lançado em 12 de junho, o trabalho autointitulado marca mais um capítulo na trajetória da banda de Denver, conhecida por sua combinação única de doom metal, heavy metal tradicional e passagens melódicas carregadas de emoção. Desde sua formação em 2012, o Khemmis construiu uma identidade própria dentro do metal contemporâneo, conquistando reconhecimento por discos como Absolution, Desolation e Deceiver. Agora, com o recém-lançado Khemmis, o grupo inicia uma nova fase, mantendo suas características marcantes enquanto amplia ainda mais seu alcance.
“Desculpe por isso”, disse Hutcherson ao retornar à câmera. “A primeira prensagem do nosso novo álbum literalmente acabou de ser entregue. Eu tive que trazer 13 caixas de vinil para dentro.” A empolgação era evidente. Além da satisfação de finalmente segurar o resultado físico de meses de trabalho, havia também uma preocupação prática: a chuva. “Eu precisava pegar tudo porque está chovendo. Caso contrário, teria deixado lá fora por um tempo, mas pensei: não posso deixar os discos tomarem chuva.”
Ao ser questionado sobre receber toda aquela quantidade de material em casa, o guitarrista explicou que boa parte do trabalho ainda estava por vir.
“Sim. O David, nosso baixista, e eu vamos nos reunir nos próximos dias para embalar todos os discos das pré-vendas aqui na minha casa.”
O momento de celebração acontece justamente em meio a uma agenda intensa. Além do lançamento do novo álbum, o Khemmis se prepara para voltar à estrada nas próximas semanas. “Nossa, estou até sem fôlego por causa disso”, brincou Ben após carregar as caixas. “Vamos sair em turnê em menos de um mês.”
Como aquecimento para a maratona de shows, a banda realizou recentemente uma apresentação especial ao lado do Acid Bath, que serviu como uma espécie de ensaio geral para o que está por vir. “No fim de semana passado (nota: show realizado dia 16 de maio em Oklahoma City nos Estados Unidos) fizemos um show único com o Acid Bath, o que foi muito legal. E tocamos “Invocation of a Dreamer” ao vivo pela primeira vez. Foi incrível.”
A faixa faz parte do novo álbum e, segundo Hutcherson, foi muito bem recebida pelo público presente. A experiência serviu como um indicativo do que os fãs podem esperar da próxima turnê. “Estou ansioso para tocar essa música novamente na estrada. Vai ser um ano bastante agitado para nós.”
Embora “Invocation of a Dreamer” tenha sido a única composição inédita apresentada naquele show, Ben revelou que outras faixas do novo disco também devem entrar no repertório da turnê. “Ainda não decidimos exatamente quais serão, mas vamos tocar pelo menos mais uma música nova. Você precisa ter algo para todo mundo: algumas músicas antigas, algumas novas e algumas do meio do caminho.”
Durante a conversa, mencionei a recepção extremamente positiva ao primeiro videoclipe divulgado pela banda. Entre elogios e demonstrações de entusiasmo pelo novo material, não faltaram também os tradicionais comentários pedindo uma visita ao Brasil.
“Eu adoro isso”, respondeu Ben. “Quando recebemos o primeiro comentário dizendo ‘Come to Brazil’, pensei: sim, estamos fazendo algo certo.”
Mais do que apresentar novas músicas, o álbum autointitulado parece funcionar como uma declaração de amor ao heavy metal. Ao longo da conversa, o guitarrista voltou diversas vezes à ideia de que o disco nasceu da paixão pela música pesada e da necessidade de encontrar algo positivo em tempos difíceis. Ainda declarou, que embora o Khemmis continue explorando temas sombrios e atmosferas melancólicas, a intenção desta vez foi transmitir uma sensação diferente. “Quando digo que este é nosso álbum mais alegre, não significa que seja um disco feliz ou leve. Ainda é um álbum escuro. Mas existe uma sensação de alegria que vem do próprio heavy metal.”
Ben cita experiências pessoais para explicar o conceito. Ele relembra o impacto de ouvir Metallica pela primeira vez ainda jovem e a sensação de descoberta que muitos fãs experimentam ao encontrar uma banda ou álbum capaz de mudar suas vidas.
“Você coloca um álbum como Powerslave, do Iron Maiden, ou qualquer disco do King Diamond, e existe alegria ali. Mesmo quando a música é sombria. É a alegria de fazer parte de algo especial.”
O músico também falou abertamente sobre saúde mental e sobre como isso influenciou sua visão artística atual.
“Vivemos em um momento em que tudo parece ruim o tempo todo. As notícias são ruins. O mundo parece estar desmoronando. Eu não preciso de mais arte que me faça sentir pior. Procuro coisas que me deem um pouco de esperança e um pouco de alegria.”
Essa filosofia acabou se tornando uma das forças motrizes do novo trabalho.
Após o extenso ciclo de turnês de Deceiver — que incluiu apresentações ao lado de bandas como Mastodon, Opeth e Trivium — o Khemmis iniciou o processo de composição do novo álbum com um desafio diferente: escrever músicas mais diretas e objetivas.
“Nós queríamos ver se conseguiríamos fazer um álbum inteiro de músicas mais curtas. Para nós, isso ainda significa faixas de quatro ou cinco minutos, mas foi uma mudança em relação ao que costumávamos fazer.”
O baixista David Small teve papel fundamental nessa fase, contribuindo com diversos riffs que ajudaram a definir a direção do disco. A primeira música desenvolvida foi “Tomb of Roses”, apontada por Ben como uma das faixas mais especiais do álbum.
Apesar da distância geográfica entre os integrantes — espalhados por diferentes estados dos Estados Unidos — a banda utilizou reuniões virtuais frequentes para desenvolver as composições antes de se reunir presencialmente.
Entre as músicas do novo trabalho, “Tomb of Roses” ocupa um lugar especial para Hutcherson. “Talvez seja o solo mais longo que já gravei em um álbum do Khemmis. Trabalhei muito nele e estou extremamente feliz com o resultado.”
A identidade visual do disco também marca uma mudança importante. Pela primeira vez desde os primeiros lançamentos, a banda trabalhou com um artista diferente daquele que vinha assinando suas capas. O responsável pela arte é Christopher Remmers, cuja estética grandiosa e detalhista chamou a atenção do grupo imediatamente.

Segundo Ben, a mudança fazia sentido porque o álbum representa um novo capítulo na história da banda. “É o primeiro disco desta formação e decidimos torná-lo autointitulado por uma razão. Queríamos que ele fosse uma declaração sobre quem somos hoje.”
Outro diferencial está nas letras. Pela primeira vez, todas as canções contam histórias ficcionais. “Há elementos pessoais nelas, mas não estamos falando diretamente sobre nossas próprias experiências. Estamos explorando esses sentimentos através de personagens e narrativas.”
Ao final da entrevista, inevitavelmente surgiu a pergunta que todo músico estrangeiro escuta ao conversar com fãs brasileiros: quando o Khemmis virá ao Brasil?
A resposta veio acompanhada de entusiasmo genuíno. “O mais rápido possível. Estamos morrendo de vontade de tocar na América do Sul!”
Se depender da empolgação demonstrada durante toda a entrevista, o desejo é mútuo. Afinal, entre os inúmeros comentários recebidos pelo Khemmis nas redes sociais, os inevitáveis “Come to Brazil” continuam aparecendo — e sendo recebidos pela banda como um sinal de que estão alcançando exatamente o público que desejam conquistar.
Agradecimentos: Marcos Franke – Nuclear Blast
Saiba mais sobre o Khemmis aqui https://khemmisdoom.com/
