Falcão: “Embora o pessoal me rotule de brega, sempre tive muito de Rock”

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por Clovis Roman

É comum resumir o trabalho de um artista a apenas um rótulo. Mas quem se debruça sobre a obra de Falcão nota que ele vai muito além do brega (e foi este o termo que veio imediatamente na sua cabeça quando leu o título, admita). O cantor intelectual, que largou a arquitetura para se dedicar a carreira musical, baseia sua obra no Rock and Roll com mistura de influências nordestinas e muito bom humor. Não que ele não seja brega: ele apenas não é só isto.

Registrado em cartório com Marcondes Falcão Maia, o cantor recebeu a equipe do Acesso Music antes de realizar um show fechado no Clube Santa Mônica, em Colombo/PR. Era uma festa temática para sócios e convidados, cujo tema central era o brega; nada mais justo. Falcão, já com sua indumentária característica, é um ‘cabedal’ musical e muito atencioso, o que rendeu uma entrevista bastante descontraída. Confira o resultado desse bate papo:

Você, recém formado em arquitetura, largou esta profissão para enveredar em outra, a de artista, e se deu bem. A cerimônia em Juazeiro do Norte que você participou, a convite de Ciro Gomes, foi o momento que fez sua música estourar ou você atribui o sucesso a outros acontecimentos também?
Falcão: Eu acho que ajudou né, porque como era uma coisa inusitada, totalmente diferente que se se fazia na época, a gente já tava começando a chegar em São Paulo. Tanto que eu já tinha sido chamado pro programa do Jô Soares e algumas pessoas conheciam meu disco no eixo Rio-São Paulo. Mas aquele programa do Aqui Agora foi legal pois mostrou para um outro tipo de público, mais popular… em Fortaleza eu fazia muito show, mas era praquele público mais universitário, mais intelectual. Quando os caras mostraram no Aqui Agora pegou o povão todo, aí todos queriam saber o que era aquilo.

Eu assisti um vídeo de um show seu nos anos 90, onde você toca uma música do Pink Floyd e conta um causo que diz que a banda não deixou você gravar a música. Foi apenas uma piada ou você realmente teve a permissão de gravar a versão negada pela banda?
Falcão: Eu gravei e tudo legal, e a gravadora, a BMG, entrou em contato com o Pink Floyd pra poder liberar. Aí a editora do Pink Floyd disse que a banda não libera pra ninguém, é uma cláusula contratual deles lá. Nunca ninguém gravou música do Pink Floyd, e não seria eu que iria gravar. Eu escrevi uma carta explicando para o Roger Waters do que se tratava [risos] mas não teve jeito. Na realidade, muito melhor do que ter gravado foi esta onda toda que se criou. E eu também proibi o Pink Floyd de gravar minhas músicas, e acabou funcionando tudo legal.

Na música como um todo o que te influencia, além do Pink Floyd?
Falcão: Eu sou uma mistura geral; Pink Floyd e aquelas bandas do início dos anos 70 e dos 60 também, a partir dos Beatles e dos Rolling Stones isso tudo me influenciou bastante. A música brasileira da época também, a Jovem Guarda e a Tropicália, misturado a música nordestina: Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro; depois os nordestinos mais modernos, como Belchior, Fagner, Alceu Valença, Zé Ramalho, passando por Raul Seixas. Todo tipo de fuleragem me influenciou [risos]. Eu sou um cara que ouvia muito rádio e meu pai tinha uma coleção imensa de discos. Essa história do brega eu devo a essa coleção, que era a maioria era brega, Waldick Soriano e os mais antigos da década de 40 e 50, tipo Herivelto Martins, Chico Alves, era o que a gente escutava lá em casa. Com certeza isso tudo foi formando esse meu cabedal musical.

Isto certamente alicerçou sua formação musical, mas é interessante notar como o Rock tem muito apelo na sua música, como em “Fumando Numa Quenga”, que usa um riff do Deep Purple [risos].
Falcão: “Lasque a Rola em Tonha”, que agora é “Like a Rolling Stone”… e todo disco meu tem muito Rock. Embora o pessoal rotule de brega, sempre tive muito Rock. Tanto que eu tenho um projeto, um plano de fazer uma coletânea só das músicas Rock and Roll que eu já fiz. Mas é por isso, porque eu sou daquela efervescência final dos anos 60, 70 e os 80. Eu morava em Pereiro (CE) e a gente escutava muita Jovem Guarda e Beatles. Quando mudei para Fortaleza, com 10/11 anos de idade, foi que eu comecei a conhecer outras coisas do Rock And Roll. Como eu era um cara, embora muito jovem, gostava da coisa mais cabeça, comecei a ouvir Frank Zappa, Bob Dylan e aquelas cara do Rock Progressivo, tipo Yes e o próprio Pink Floyd, aí entrou Led Zeppelin, Deep Purple, Uriah Heep, Black Sabbath e não sei o que…culminando com Raul Seixas, que era nosso roqueiro aqui. Raul Seixas e Rita Lee na época que ela era roqueira. Isto tudo foi formando minha personalidade roqueira.

Você acha que o rótulo ‘brega’ acaba te limitando artisticamente?
Falcão: Tem limitado bastante mas não me incomoda não. Acho interessante que têm as pessoas que percebem, tem um público fiel que sabe que eu não sou “brega brega”, eu sou um “brega que faz um escracho do brega”. Esse pessoal que compreende, que sabe o que é, é legal, que forma aquele público que tá sempre me acompanhando, e sabe que no fundo eu sou Rock and Roll. Mas eu sou um músico contemporâneo, de MPBm misturado com tudo quanto é coisa. E esta é a proposta, fazer um negócio que não seja só… como eu não tenho formação musical, e a música brega é muito simples, eu uso essa simplicidade para fazer minha música. A maioria das músicas não são brega, são só brincadeiras em cima do brega.

Você gravou uma música com o Massacration e chegou a fazer uma apresentação com eles na MTV, como rolou aquele convite e o que achou da experiência?
Falcão: Aquelas caras são todos meus fãs, fãs inveterados. O Bruno Sutter, o cantor, sabe todas minhas músicas, ele sabe músicas que nem eu sei [risos]. Eles são tudo doido por mim. Eu fiquei admirado quando eles me convidaram porque os caras são do Rio de Janeiro, estavam na MTV, outro tipo de mentalidade, e os caras conheciam minhas músicas e tudo. Eles são roqueiros mesmo, embora façam rock em cima do humor, e humor em cima do rock e aquele negócio, mas eles sabem qual é a minha intenção. Foi uma experiência muito legal. Inclusive, o produtor que era das bandas de Metal que fez o disco, um americano, ele invocou com minha pessoa [risos].

Era o Roy Z…
Falcão: Ah, era um cabra lá que eu nem sei o nome dele… [risos]

Você apresenta o programa Leruaite, programa com o mesmo nome de um livro seu lançado em 2001. Qual é a proposta do programa? E como você colocou lá o grupo Num Tô Nem Vendo?
Falcão: Eu já tive aquele programa na Band, nos anos 90. E depois que terminou eu fiquei tentando fazer alguma coisa. Essa emissora lá do Ceará me convidou. E eu pensando em fazer uma brincadeira em cima do programa do Jô, me lembrei que lá, quando a gente tava bebendo nos bares, de repente passava um ceguinho e a irmã dele também cega, tocando um forró, zabumba, sanfona, triângulo e não sei o que. Aí eu “rapaz, vou chamar eles pra fazer a banda lá no programa”. Eu mesmo batizei, os caras são cegos, então “Não tou nem vendo” [risos]. E pegou. Os caras saíram da rua, pedindo esmolas, para ser uma banda que hoje em dia faz um bocado de shows lá no nordeste, até na Amazônia.

Seu último disco, que é um nome difícil de falar, Sucessão de Sucessos Que Se Sucedem Sucessivamente Sem Cessar…
Falcão: O cara que fala isso aí já pode fazer o ENEM [risos]. O problema não é só falar, mas escrever também, que é difícil, cheio de “S” [risos].

Esse disco saiu há três anos, que saiu um bom tempo depois do anterior. Você tá já pensando em alguma nova ou ainda não?
Falcão: Tou pensando, inclusive quero lançar ainda este ano. Esse negócio do disco tá muito complicado. Não tem mais pra quem lançar disco, não tem mais loja pra vender disco, não tem mais ninguém com saco de ouvir um disco inteiro. Então eu acho que a opção seria fazer um meio disco, com 4 ou 5 músicas, do que fazer um disco inteiro, que é até um desperdício musical, que ninguém vai ver mesmo. A única vantagem de você lançar um disco é divulgar seu trabalho e praquelas pessoas que me curtem mesmo ter o disco. Se for pra você colocar na internet a disposição de quem quiser baixar, você pode ficar todo mês fazendo uma música, não precisa ser o disco inteiro.

Hoje em dia isto acaba tendo mais apelo, porque a cada vez uma música nova você tem uma atenção constante. O CD junta 10/12 músicas e o intervalo entre os lançamentos é muito grande.
Falcão: Aliás, de muito tempo né? Conheci um radialista no Ceará, daquele tempo do LP, que ele dizia “não sei porque o cara faz o disco com 12 músicas, se na rádio só toca uma”. Hoje em dia o que ele falava tem sentido. Mas eu sou um cara que gosta que meus fãs mais chegados tenham o disco físico, quem peguem e levem pra casa, isso é legal.

Você já pensou em lançar um DVD?
Falcão: Eu sou o único cantor do mundo que não tem um DVD. Isso é um charme, vai chegar um ponto que todo mundo vai ficar querendo um DVD, pois sou o único que não tem, eu vou entrar pro livro Guinness. Mas eu estou fazendo pelo Brasil um show ‘stand-up’ musical, eu sozinho com um violão contando minhas histórias e cantando músicas. Eu tava pensando em gravar isto em DVD para lançar, mas não tem muita data pra sair, até porque quero segurar mais ainda essa história de ser o único cantor do mundo que não tem um DVD [risos].

Você está usando esse óculos escrito “by Falcão”, isto é uma casualidade ou há uma grife de óculos do Falcão?
Falcão: Rapaz, sabe que tem corno pra todo mundo, tem um cara que é dono de uma loja lá em Fortaleza, e ele chegou pra mim e disse “mandei fazer um óculos especial pra você”. Aí pronto, tá feito. Mas é um óculos de grau…eu lancei essa onda de sempre estar de óculos escuro, então é um óculos escuro de grau. Mas ultimamente com essa história de eu estar virando ator, fazendo vários filmes, eu tou tirando mais o óculos. No cinema não é todo filme que vai querer o cara de óculos. Mas é uma idéia boa, pode ser feito depois uma grife “by Falcão”. Mas não esses modelos muito convencionais, tem que ser uma coisa mais diferente, uma coisa retrô, Ray Charles e aqueles óculos que ele usava, poderia assinar uma coleção naquela pegada do Ray Charles.

Você vai trocando os seus penduricalhos, na sua roupa, antes você tinha uma luz de bicicleta. Quais são suas últimas aquisições?
Falcão: Não sei nem dizer! O negócio da bicicleta tava aqui até ontem, mas caiu e quebrou [risos]. Aí não tive como repor. Agora tem pessoas que estão fazendo bottons e vou colocando aqui. Por exemplo, agora com esse negócio de Lava-Jato resolvi colocar uma ratoeira, as vezes vou pra Brasília, pode ser que eu pegue alguma coisa. As pessoas vão me dando os adereços e eu também às vezes passo no shopping e vejo um negócio interessante.

Qual artista você gostaria de ouvir cantando alguma de suas poéticas obras?
Falcão: Rapaz, você sabe que isso é uma coisa interessante. No Brasil só teve um artista que resolveu gravar uma música minha, foi a Elke Maravilha, que morreu. Eu gostaria de ver alguém cantando uma música minha, mas não tenho predileção. Talvez o próprio Roger Waters, se ele mandar uma carta explicando, pode ser [risos]. Mas por exemplo, outro dia eu vi um cara cantando uma música, é um pessoal da Bahia, dos trios elétricos, o Bel Marques do Chiclete com Banana e o cara do Asa de Águia eles interpretaram uma música minha na rua. Isso é muito legal, você estar no meio da multidão e de repente o cara cantar uma música tua é interessante, achei muito legal.

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