Efeito Borboleta: as teias sonoras que se entrelaçam em um pálido ponto azul

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por Rico Boschi

Prólogo
Quando a equipe da NASA (agência espacial norte-americana) liderada pelo astrofísico Carl Sagan deu início ao Programa Voyager em 1977, as duas sondas espaciais gêmeas que foram lançadas ao espaço inicialmente direcionadas às rotas de Júpiter e Saturno carregaram muito mais do que o desejo humano de expandir o entendimento do cosmos. Elas levaram também “Os Sons da Terra”.

Como que harmonizando com todo aparato de observação e coleta de dados para apreciação científica, discos de cobre banhados a ouro – contendo, entre outras coisas, 115 imagens e sons da natureza – pegaram carona na expedição interestelar com o objetivo de apresentar às possíveis “civilizações contatadas em um futuro distante” clássicos da música que vão desde “Gavotte en Rondeaux”, de Bach até “Johnny B Good”, de Chuck Berry.

Se essa mesma expedição deixasse o planeta rumo ao infinito 40 anos depois, em 2017, talvez pudesse levar, impressas em sulcos dourados, cópias do disco “Efeito Borboleta”, de Rodrigo Santos e Fernando Magalhães, pois o álbum nasceu do mesmo sentimento de inquietude que impulsionou o homem à fronteira final.

Da reflexão à onda
Embora a Terra seja sim um “mero ponto de luz em um vasto cosmo circundante”, dentro deste pixel celeste cabe um infinito de dinâmicas, de relações, de impulsos criativos e destrutivos e eventos que se influenciam em um eterno jogo de causa e efeito. E foi observando e refletindo sobre essa pluralidade de dinâmicas naturais e sociais que Rodrigo Santos e Fernando Magalhães trouxeram à luz o disco “Efeito Borboleta”.

Tocando juntos há 25 anos – no Barão Vermelho e em projetos paralelos –, os artistas se complementam em influências, estilos e sonoridade. O disco conta ainda com as participações de artistas como Humberto Barros (teclados) e Lucas Freiner (bateria), que ajudaram a conceber esse que deve ser o primeiro de uma trilogia.

E a primeira tentativa de orquestrar esse caos criativo já aparece na faixa título, “Efeito Borboleta”, que abre o álbum. Com um instrumental frenético, a canção coloca em foco todos os pilares por sobre os quais se sustenta a sociedade humana na contemporaneidade. Com um olhar milimétrico que oscila entre a macro e micro visão, as teias que ligam o gênero humano parecem assumir cores sonoras. Enquanto borboletas batem asas no Japão.

E, considerando o homem também como um universo, canções como “Navegar”, “Juntos de Novo” e “O Meu Juízo” partem de abordagens confessionais para tratar de assuntos universais. São “a totalidade de nossas alegrias e sofrimentos”, como diria Carl Sagan, deixando a película de vida de um homem para se tornar a de todos os homens.

Nas palavras de Fernando Magalhães “Acho que e eu e o Rodrigo estamos numa fase da vida, de balanços, reviravoltas e olhando para trás, por tudo o que passamos, com um toque de reconhecimento por erros e acertos, é um momento que podemos fazer um álbum com a nossa bagagem de vida e musical”, comenta.

E entre esses homens está o brasileiro. Na verdade a extração imagética da representação de um fóssil. Em “Fóssil Brasileiro”, os artistas trazem a imagem cristalizada da percepção que o brasileiro enquanto povo tem de si mesmo. O contraste entre a brutal resiliência ao trabalho e a tendência ao sorriso.

Diametralmente oposto é o clima de suavidade poética e despedida em “Mano”, que pede um arranjo calcado no blues. De mesma suavidade é “Sorte”, que funciona como uma espécie de súplica aos ventos futuros, traduzida em uma balada marcante.

Fechando a seleção de 15 faixas, “A Magnitude de Nossa Insignificância” retoma o tema das reflexões cósmicas e fecha o trabalho como a encerrar o ciclo. Um trabalho que trata da natureza humana sem data-la. Seus registros sonoros são marcas de uma visão madura da vida e da arte, anos-luz à frente do que temos nos habituado a consumir.

Entrevista
Confira abaixo a transcrição na íntegra da conversa de Rico Boschi com a dupla Fernando Magalhães e Rodrigo Santos:

A expressão “efeito borboleta”, que dá nome ao disco, está relacionada à sensibilidade das condições iniciais de um sistema dentro da teoria do caos. O processo de composição de um álbum autoral pode ser descrito como uma tentativa de se orquestrar o caos de referências, vivências, sentimentos que o artista sente a necessidade de expressar?
Fernando Magalhães: O titulo remete a conectividade, a sincronia do universo, com suas causas e efeitos. Estávamos conversando muito sobre “O pequeno ponto azul”, livro do Carl Sagan, que fala das escalas do tempo e espaço, e também o quão ínfimos e grandes somos diante de tudo. A composição de um álbum vem de diversos lugares, múltiplas experiências e gostos. É um caldeirão de rascunhos que transformamos em canções completas.

Rodrigo Santos: Sim, o caos está dentro de todos nós. A administração dele é que é muito pessoal e variável. Dentro de um processo artístico, eu diria que é imprescindível que o caos se manifeste de uma maneira organizada e produtiva, transformando o processo também em divertimento. Quisemos passar também que um disco de rock, com todas as dificuldades possíveis , pode ser feito dentro do caos, com objetividade . Esse disco foi gravado em 6 dias praticamente. Usamos o caos a nosso favor. Tem urgência. É um disco amorosamente objetivo. Cruel e doce ao mesmo tempo.

Há um tom bastante reflexivo, filosófico e otimista em diversas faixas como “Navegar “, “Um Novo Recomeçar” e outras. Essa franqueza em olhar para si e para o mundo na hora de tratar de assuntos confessionais e ao mesmo tempo universais é o segredo para garantir uma conexão com o público?
Magalhães: Acho que e eu e o Rodrigo estamos numa fase da vida, de balanços, reviravoltas e olhando para trás, por tudo o que passamos, com um toque de reconhecimento por erros e acertos, é um momento que podemos fazer um álbum com a nossa bagagem de vida e musical, como uma biblioteca que podemos usufruir.Podemos falar do que realmente achamos importante e transformar em arte.

Rodrigo: No caso desse disco especificamente, me voltei para muitas letras reflexivas e filosóficas. Acho que a nossa combinação – eu e Fernando – tem muita influência nisso. Pensamos o Rock de uma maneira voltada para textos e texturas. Uma moldura para os pensamentos. Nem sempre são otimistas os pensamentos. “Navegar”, “A Vida é Bela”, “Um novo recomeçar” são sim, esperançosas; já “Efeito Borboleta”, “A magnitude da nossa insignificância” e “12 anos de espera” são bem mais densas e reflexivas , só para citar algumas . O Rock que pensamos e vivemos tem de tudo. Circula da primeira pessoa do singular até a terceira pessoa do plural. Sempre sim, com muita franqueza nas abordagens.

Com uma vida dedicada à música, vocês buscaram conciliar diversos projetos paralelos – parcerias, trabalhos solos – com a atuação no Barão Vermelho. Em um momento em que a banda principal vive uma etapa de reafirmação, uma nova fase com a substituição do vocalista, os projetos paralelos influenciam de alguma forma o que é produzido posteriormente?
Magalhães: A música é sempre “me traz o que você aprendeu de novo”, então, sempre, se você faz com amor e com honestidade, vem o que você gosta e tem vontade de ouvir. Acho os projetos paralelos sempre saudáveis para o bem estar da sua banda principal,sempre da um brilho novo.

Rodrigo: Acho que tudo influencia em nossas vidas. Somos presentes em tudo o que fazemos. Claro, essa junção nos possibilitou descobrir um mundo infinito dessa composição em dupla. Foi um achado. Temos muito mais pra fazer, incluindo compor para o Barão mais na frente. Devemos lançar um autoral com o Barão, porém lá somos cinco cabeças pensantes, que gostam muito de compor. Já estamos fazendo músicas em dupla, em trio, uns com os outros. O leque é muito mais abrangente e o direcionamento é a banda. Nos discos solo é outra coisa, pois podemos abrir pra mais parceiros de outros lugares . Em dupla estamos focando no que um tem de melhor para combinar com o outro , dentro de um universo em comum, uma intersecção de vivências dentro da música, do rock, do blues, do folk… da amizade. Acho que temos agora mais um canal musical dentro dessa TV chamada vida.

Em todas as 15 faixas que compõe o disco é possível notar um equilíbrio entre o instrumental e as letras da canção no que diz respeito à densidade da composição. Com um cenário musical dominado por canções descartáveis e intelectualmente inócuas, trabalhos autorais como “Efeito Borboleta” ganham um peso de “conteúdo de resistência”?
Magalhães: Gostamos de música boa, e tentamos fazer música boa, não fizemos o álbum prestando atenção no que esta rolando. Apenas fizemos o que achamos bonito e satisfatório para nós.

Rodrigo: A ideia do Rock, ou pelo menos do Rock que gostamos, sempre passa por isso. Resistência. Somos insistentes na música de qualidade, na arte que faça refletir, pensar, sair da mesmice, arriscar. Isso é fundamental pra gente.

O disco intercala canções altamente contestadoras da contemporaneidade com outras bastante suaves e românticas. Qual o desafio em harmonizar canções tão diferentes como “Meu Juízo” e “Fóssil Brasileiro” dentro de um mesmo trabalho?
Magalhães: Aí esta a grande graça, não ser monocórdico, temos tantas influências, que seria uma lástima, fazermos um disco, com a mesma sonoridade. Gostamos de tantas coisas, então compomos de diversas maneiras, esta é a simples verdade.

Rodrigo: Esse é o tal do caos. Temos a preocupação estética de trazer pra cada canção, o que melhor a representa. Dentro de nosso “olhar musical” somos bem criteriosos na escolha da moldura. Escrevi a letra de “O Fóssil Brasileiro” já pensando que ela deveria ser uma porrada sonora. A cada verso que escrevia, imaginava uma loucura caótica. A brasilidade do desespero. Ou vice versa. “Juntos de Novo”, quando iniciei a letra, já veio com melodia, do A, do B, refrão. Fernando criou o riff de entrada , o tema do solo, e a música se tornou uma de nossas favoritas. “Mano”, feita para nosso brother Peninha , falecido no final do ano passado, nos levou ao primeiro blues que compusemos. Um blues de raiz, uma harmonia perfeita do Fernando. Só coloquei em cima a “azeitona da empada” : o texto. A canção manda na gente . A gente só obedece da melhor maneira possível.

Há planos para pegar a estrada e divulgar este trabalho? Ou há conflitos na agenda com relação ao Barão?
Magalhães:
Queremos tocar este repertório ao vivo sim, estamos vendo as agendas, para acharmos uma época boa, para que um trabalho não atrapalhe outro.

Rodrigo: Bem, tentaremos chegar no maior número de cidades. Achamos esse disco lindo. Fizemos com muito carinho. E se tudo der certo, as agendas não baterão e chamaremos os grandes músicos envolvidos nesse trabalho, pra fazer os shows conosco: Lucas Freiner na bateria e Humberto Barros nos teclados.

fotos: Rodrigo Daryan

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