[Entrevista] Nuno Mindelis fala sobre a carreira e o resgate de suas origens; guitarrista é uma das atrações do 4º Festival BB Seguros

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Curitiba abrirá o Festival BB Seguros, que acontece em algumas cidades pelo Brasil. Dia 26 de maio se apresentam na capital paranaense Stanley Jordan e Dudu Lima Trio, Hermeto Pascoal, Pepeu Gomes, O Bando, BB Seguros Jazz Band’s e o Milk N’ Blues. Junto a toda esta galera, estará o guitarrista Angolano radicado no Brasil, Nuno Mindelis. Eles estarão na parte de trás do Museu Oscar Niemeyer, e é tudo gratuito.

O evento é grandioso, e agradável para toda a família. Segundo registros oficiais, em 2017 o evento reuniu 22 mil pessoas em Curitiba.  No fim da página você encontra a programação do dia completa. Antes, entretanto, você se depara com uma entrevista que fizemos com Nuno Mindelis, que nos fala sobre esta iniciativa, e também de sua carreira e seus projetos futuros que resgatam o passado. E ainda tem uma declaração que pode pegar muItos de surpresa. Basta ler:


Clovis Roman: Qual a importância que você vê em um evento como o Festival BB Seguros, que traz o Jazz e o Blues ao acesso de todos, já que é um evento gratuito?
Nuno Mindelis: Vejo como um oásis e, especialmente, como muito democrático, porque não é a operação casada habitual (Majors x TVs x Rádios Comerciais).

Clovis: Você é reconhecido por sua habilidade na guitarra, mas agora você está entrando no território da voz, com canções no dialeto Kimbundu. Como veio isto, é uma espécie de resgate de suas origens? E o que isto traz para incorporar ao som que você produz?
Nuno: É mesmo esse resgate das origens. E também porque percebi que os dialetos de Angola, que são inúmeros, riquíssimos e altamente estruturados do ponto de vista linguístico e que eu ouvia todos os dias tão de perto, estão caindo em esquecimento. Só alguns kotas (anciãos) os falam a essa altura. A sua importância pode ser vista na cessão da enorme quantidade de palavras que usamos todos os dias, como caçula (kassula, mais novo), caçoar (kassuada, zombaria), bunda (nbunda, traseiro), marimbondo (plural de Rimbondo, vespas), Minhoca (nhoka), Kitanda, entre outros.

Clovis: Você está trabalhando em um novo álbum de estúdio, com influências da música de seu país de origem, pode nos contar mais sobre?
Nuno: Ainda estou em fase bastante pré-estúdio, tentando decifrar a planta ideal dos apartamentos para depois fazer o prédio. Em 2010 fiz um disco (Free Blues) no qual reli as músicas dos meus heróis (clássicos do blues negro e do Rock, de BB King a Jimi Hendrix) sob uma ótica mais nova, com elementos da eletrônica, do Rap, Trance e outros. A ideia era oxigenar a linguagem, fazê-la palatável às novas gerações , para que a partir dela chegassem ao Blues das plantações e pudessem ter o privilégio de saber, por exemplo, quem foram Skip James ou Robert Johnson. Tal qual malucos como Bluesbreakers e Jimi Hendrix fizeram comigo e com um monte de gerações desde os anos 60, ao injetar eletricidade e Rock no Blues tradicional. Agora aproveito algumas canções que são consideradas hinos da música Angolana,  que ouvi desde que nasci e também fazem parte da minha formação e ‘bluesifico-as’, mantendo as melodias e harmonias originais. Se servir para novas gerações de Angolanos conhecerem sua língua e seus valores ancestrais, já terá valido a pena.

Clovis: Como você pretende preparar o repertório para a apresentação no Festival? Pretende tocar composições inéditas ou quem sabe apresentar algo de grande apelo popular?
Nuno: Parece que qualquer coisa de grande apelo popular hoje em dia só pode ser Axé, Sertanejo, “Meu Pau te Ama”, donde não me considero qualificado para a tarefa. Beatles se tornou um grupo hermético, pode soar como a nona sinfonia de Beethoven para as novas gerações. Farei músicas de discos anteriores com algum troca troca (aqui ou ali, não inéditas fonograficamente, mas nunca tocadas em shows) e temas em Kimbundu, que entrarão em dose mais homeopática, uma música ou duas.

Clovis: E da música Brasileira, que artistas ou grupos você sente como influência direta em seu repertório musical?
Nuno: Assim como o Blues de raiz é que me faz a cabeça , também o Samba puro, Baião, Forró e outros gêneros raiz são os meus prediletos. João Donato é um que gosto muito. Toda a vez que faço algo relacionado a música brasileira – sem qualquer pretensão, tipo entre amigos, sai Samba ou Bossa. É instintivo. Nunca sairá Axé, nem Sertanejo, nem Urban, mesmo eu gostando da Anitta.

Eu li que você usou muito tempo uma Gibson que comprou aos 17 anos no Canadá. Você ainda tem esta guitarra? Que outros modelos você costuma tocar em suas apresentações e gravações?
Nuno: Ainda tenho essa Gibson Lespaul Custom 1968. Foi comprada com muito sacrifício, era o começo do exílio sem volta. Eu tinha 17 anos e tinha perdido tudo numa guerra. Considerado esse contexto, será impossível me separar dela. Ela foi aquela bola de vôlei Wilson daquele filminho esquisito “Náufrago”. Parte da minha salvação, com certeza. Usei um bom tempo uma outra Gibson SG 1972 (a mesma série de caps mini humbuckers 71 que Tony Iommi usou em Paranoid), uso uma customshop Music Maker feita sob medida, primorosa (Telecaster semi-acústica com caps Humbucker), e uma Gibson ES335 1966 (preciosidade!). Nos anos 90 usei uma Stratocaster japonesa dos anos 80 (student model) com captadores Rio Grande (da época em que a Rio Grande quase não existia, o cara enrolava os captadores em casa.

Clovis: Você já dividiu o palco com gente de alto gabarito,como o Double Trouble, só para citar um bom exemplo. Com quem você gostaria de poder dividir o palco para uma jam ou algo assim? Pode sonhar alto.
Nuno: BB King. Eestive várias vezes junto e apresentado como o Bluesman do Brasil pelos próprios empresários dele. Teria rolado, mas nunca pedi, sou meio contra. Acho que canja tem que partir de quem convida. Agora não dá mais! E agora, Clapton. Sonhar alto seria Bob Dylan e Paul McCartney! (-:

Clovis: Deixe um recado de convite para as pessoas comparecerem ao Festival BB Seguros (Curitiba).
Nuno: “Alô alô galera uuuuhhh isto não é um convite: é uma intimação!” Apareçam porque vai ser uma enorme alegria, uma festa, vocês vão gostar muito!

Clovis: Muito obrigado Nuno por seu tempo. Abraços!
Nuno: Eu agradeço a atenção e oportunidade. Abraço.

No show, Nuno terá a seu lado os músicos: Dhieego Andrade (bateria), Allex Bessa (Teclados), e Marcos Klis (Baixo).

PROGRAMAÇÃO 4º FESTIVAL BB SEGUROS
11h00 – BB Seguros Jazz Band
12h00 – Milk N’ Blues
13h10 – O Bando
14h10 – Nuno Mindelis
15h15 – Pepeu Gomes
16h20 – Hermeto Pascoal
17h40 – Stanley Jordan e Dudu Lima Trio

foto capa: Thiago Cardeal
fotos da matéria: Vladimir Fernandes & Marcelo Davera
Todas fotos de divulgação pela assessoria

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