[Entrevista] Seu Juvenal mostra o que há de errado no Rock!

Nenhum comentário

por Clovis Roman

O grupo mineiro Seu Juvenal parece uma miragem no marasmo do Rock. Em tempos onde tudo soa tão artificial, datado, formulaico, o grupo oriundo da fantástica cidade de Ouro Preto questiona e provoca com Rock Errado, um disco coeso e esperto. Em sua divulgação o quarteto chegou a fazer uma série de shows pela Europa. Foi sobre tudo isto e um tanto mais que conversamos com o vocalista Bruno Bastos. Confira abaixo a entrevista completa e impressões sobre o álbuns nas palavras do jornalista Clovis Roman.

Clovis Roman: A “Rock Errado European Tour” foi financiada pelo “Programa Música Minas”, iniciativa do Governo do Estado de Minas Gerais, por intermédio da Secretaria de Estado de Cultura, que visa apoiar a cadeia criativa e produtiva da música mineira. Nos conte sobre este processo, desde a inscrição até sua efetivação. Que benefícios vocês enxergam em políticas de apoio a cultura como esta que os contemplou?
Bruno Bastos: Bom, com relação ao processo, passamos aperto com a emissão de passaportes, pois houve uma paralisação na emissão e então por pouco não tivemos que levar um baixista substituto! No mais o responsável pelo projeto foi o nosso gestor cultural Eliton Tomasi, da Som do Darma, que fez um trabalho incrível. A contemplação basicamente cobriu os custos das passagens. Tivemos ajuda de algumas casas de show com a portaria e lugar para dormir.

Clovis: Como foram os shows da turnê europeia que a banda fez recentemente? Quais os pontos diferenciais entre a cultura e estrutura de lá comparada com a de cá?
Bruno: Os shows foram ótimos. Tocamos com bandas de diversos países – o que foi um grande aprendizado – e o público se mostrou muito entusiasta. Um ponto cultural meio complicado é com relação à comida, mas no geral até que não foi tão difícil assim. Com relação à estrutura nós trabalhamos com uma agência da região acostumada a fazer turnês com bandas estrangeiras. Eles já têm uma cadeia de casas noturnas e também tivemos uma van com um motorista experiente, que sabia se virar com os imprevistos que acontecem na estrada e ainda falava diversas línguas, o que é muito importante, pois tocamos em três países onde nem todos falavam inglês fluentemente. Este serviço também dispunha de uma pequena carreta com o nosso backline.

Clovis: Vocês lançaram um clipe para a faixa título Rock Errado, com cenas dessa trip europeia. Há mais registros em vídeo que possam vir a ver a luz do dia algum dia?
Bruno: Sim, claro. Pretendemos logo começar a pré-produção de um mini documentário falando sobre a história da banda e com certeza haverão registros inéditos da turnê nele.

Clovis: A que, primordialmente, o nome Rock Errado se refere? Vocês que tocam um Rock não convencional, fora dos padrões; ou o estilo que está saturado, andando em círculos com suas fórmulas e vícios?
Bruno: O termo “Rock Errado” foi pensado como uma provocação ao Rock burocrático e politicamente correto praticado por muita gente hoje em dia, principalmente no mainstream e que sim, parece saturado e andando em círculos.

Clovis: Rock Errado foi gravado em apenas 4 dias, com produção do Ronaldo Gino, também guitarrista do Virna Lisi. O material já estava todo pronto quando entraram em estúdio, né?

Bruno: Na verdade 3 músicas já estavam gravadas e haviam sido lançadas em um EP chamado “Três Doses do Veneno Todo”: Rock Errado, “Free Ordinária” e “Burca”, que inclusive já possuía o clipe. Isso ajudou muito no prazo do estúdio. Por outro lado havia algumas músicas, com “Moleque Dissonante” e “Louva-a-Deus” que foram finalizadas durante o processo de gravação.

Clovis: E para um novo álbum de estúdio, há planos concretos?
Bruno: Sim, queremos entrar em estúdio ainda este ano. Só não sabemos ainda se será um full álbum ou um EP com vídeo. Já temos muitas boas ideias e rascunhos de músicas.

Clovis: O Seu Juvenal, na parte lírica, aborda questões atuais de comportamento, baseado em experiências empíricas. Sobre o que vocês não escreveriam sobre, de jeito nenhum?
Bruno: Não sei se existe algo sobre o que não escreveríamos de jeito nenhum [risos]. Mas ao mesmo tempo posso dizer que seria praticamente impossível levantar bandeiras político-partidárias.

Clovis: A capa de Rock Errado é bastante curiosa. Com cores impactantes e traços despojados, a ilustração é de fácil memorização – o que é bom, pois cria uma identidade a banda. Como foi sua concepção e execução?
Bruno: A ideia inicial era um bebê bem detonado, ilustrando como as crianças, especialmente as crianças de rua, são largadas pela sociedade em geral. O nosso amigo Dinho Bento, um grande artista por sinal, pegou a ideia e resolveu dar uma espécie de atitude punk ao bebê, como se ele não fosse uma vítima social apática.

Clovis: Estive em Ouro Preto, uma cidade inspiradora por sua arquitetura e história. qual o legado da cidade no quesito musical? E me digam o que andam ouvindo ultimamente que seja oriundo de Minas Gerais como um todo.
Bruno: A cidade nos inspira um pouco, mas não tanto, pois falamos de temas bem universais, que podem ser de qualquer lugar. No quesito musical, falando do rock especificamente, a cidade demorou um pouco para ter bandas autorais por exemplo. Isso só ocorreu a partir dos anos 90 praticamente. Neste ponto a banda possui uma forte ligação com a cena de Uberaba dessa época, pois o Seu Juvenal foi fundado por lá em 1997. Ouvimos muito o Rock autoral feito em Minas ultimamente, seja ele da capital, do interior ou do triângulo Mineiro. Bandas como Cadelas Magnéticas, Isso, Evil Matchers, Uganga, 2 Dedo… está última é uma banda que o nosso novo baixista faz parte.

Clovis: Vocês estão com novo baixista. Como se deu a entrada de Fabiano Minimin e como surgiu a necessidade de tê-lo na banda? Quais os motivos que levaram o antigo membro, Alexandre Tito, a se desligar?
Bruno: O Tito era o único membro da banda a ainda morar em Uberaba atualmente, que é uma cidade muito distante de Ouro Preto. Isto dificultava tudo: desde ensaios e o processo de composição, arranjos, etc. até o fato de fazermos mais shows e tal. Não foi uma decisão fácil, pois ele estava na banda desde 1998 e é um irmão que nós temos, mas pensamos no que seria melhor para a banda no final das contas.
Assim sendo, logo após o desligamento dele nós entramos em contato com o Fabiano, que já era figurinha carimbada aqui na cena do rock autoral da região e já curtia o nosso som.

Clovis: Qual banda ou artista vocês acham que faria uma releitura bacana de alguma das músicas do Seu Juvenal?
Bruno: Que pergunta mais inusitada [risos]. Já que é pra viajar seria muito louco ver uma banda gringa tocando o nosso som e cantando em português. Tipo um Sonic Youth tocando Passarins, do segundo disco, ou um Faith no More tocando Burca!!

Rock Errado – O disco
Rock Errado é o terceiro disco de estúdio do Seu Juvenal, grupo formado em 1997, na época com o nome de Os Donátilas Rosários. O nome era muito estranho, então resolveram apostar em algo mais convencional… Os primeiros trabalhos de estúdio vieram em 2004 “Guitarra de Pau Seco”; e 2008, com “Caixa Preta”. Rock Errado sacramenta o Seu Juvenal como nome artisticamente relevante em seu nicho. Seja ela qual for.

Se o Rock está errado, o Seu Juvenal não toca esse estilo. Afinal, o trampo dos caras é certeiro. As frases iniciais de “Free Ordinária”, que contam com versos como “Eu não sou uma boa pessoa para lhe dizer o que fazer”, são apoiadas por um riff pesado; logo após, uma parte um tanto mais caótica surge, numa transição bastante natural, por mais estranho que possa parecer. A abertura, antes, com “Homem Análógico”, é rápida e rasteira, com uma canção que não chega aos três minutos. “Antropofagia Disfarçada” sugere teor lírico mais profundo, e musicalmente significa um mergulho no Rock Progressivo dos anos 1970, misturada a partes malucas, reverberações e vozes ao contrário.

Mostrando seu ecletismo, “Asfalto” soa grandiosa, com potencial comercial gigante. É um Rock (ops) com ares de grandiosidade e boas melodias. “Louva-a-deus” marca pelo seu final, onde a banda conversa durante enquanto ensaia os acordes da música recém tocada. Como seu título sugere, “Um Dia de Fúria” surge com um tanto mais de peso, entretanto, com velocidade moderada. A canção pedia um vocal um tanto mais visceral para evidenciar esta mudança repentina de abordagem. Mas a fúria surge mesmo com a faixa título, pouco convencional e com muitos gritos.

De maneira rápida, “Moleque Dissonante”, passa despercebida. Situação que muda drasticamente já na faixa seguinte: “A Chuva Não Cai” prende a atenção por sua estrutura e camadas: cada instrumento carrega em si uma influência distinta, consciente ou não. O resultado é uma música marcante e a sagra como melhor composição de todo o álbum. Densa, “Burca” fecha as cortinas de Rock Errado, um trabalho forte, arrojado e destemido. O Seu Juvenal questiona, instiga, provoca e por fim, mostra que, errado ou não, é uma banda de Rock. E das melhores.

O disco está disponível para download gratuito no site oficial da banda. E os álbuns anteriores podem ser ouvidos, também sem custo, pelo Youtube. Veja mais em www.seujuvenal.com.br.

fotos: Divulgação/Reprodução

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s