[Cobertura] Iron Maiden faz show espetacular para mais de 60 mil pessoas em São Paulo

um comentário

Iron Maiden
Estádio do Morumbi
São Paulo
06 de outubro de 2019

por Kenia Cordeiro e Clovis Roman

A relação do Iron Maiden com o Brasil é estreita, começando em 1985, justamente no primeiro Rock in Rio, passando pelos anos 90, quando vieram em três oportunidades, entrando no atual milênio com outro show no festival carioca. A banda veio diversas vezes desde então e sempre teve casa lotada, ao menos em São Paulo. E isso se repetiu diante de um Morumbi apinhado de gente, mais de 60 mil pagantes. Após um eletrizante show no Rock in Rio – que o Bruce brincou ter se tratado de um “pequeno show” – a banda chegou afiada para outra apresentação que extrapola os limites do zero ao dez. O show teve início às 20h com a instrumental “Transylvania” rolando no sistema de som, unida a um vídeo nos telões, com cenas de capas de discos com o jogo Legacy of the Beast, seguida de “Doctor Doctor”, do UFO. Essa música é a intro dos shows do grupo há muitos anos, e a galera canta junto como se fosse uma música do repertório principal. O famoso discurso de Winston Churchill preconiza a primeira parte de “Aces High”, também pré-gravada. Dali pra frente, tudo é ao vivo, com energia e qualidade técnica poucas vezes vistas por aí.

A turnê
Quando se intitula uma turnê como Legacy of the Beast, dá-se a entender que o seu repertório será um compilado de melhores momentos de toda carreira do grupo. Claro que não há como contemplar todos os discos, mas o Iron Maiden fez o possível para resgatar pérolas há muito não tocadas ao vivo junto aos grandes e indispensáveis clássicos. E um ponto crucial mostra como o grupo respeita seu legado de maneira integral: Duas canções da fase Blaze Bayley, muito criticada por boa parcela dos fãs, foram trazidas de volta ao setlist da banda britânica. Pouquíssimas bandas do alto escalão do Metal fazem isso, a regra é renegar fases mais obscuras após o retorno do cantor clássico. Ponto para a donzela.

Iron Maiden (Diego Padilha/I Hate Flash)

E pontos não faltaram ao grupo. Além da seleção musical primorosa, tecnicamente eles estão em grande fase, Janick está tocando como nunca, com destaque em seus solos caóticos, ao lado do mestre Adrian Smith, cujos solos são racionais, onde cada nota é perfeitamente encaixada, servindo de contraponto a seu colega de função. E o também guitarrista Dave Murray serve de elo entre esses dois universos, com a segurança de quem gravou todos os discos do Iron Maiden, banda na qual entrou nos primórdios, ainda em meados dos anos 70. Ele é figura essencial no grupo ao lado do chefão e baixista Steve Harris, membro fundador. Conectando todos, na bateria, Nicko McBrain, o mais velho de todos, que mesmo com 67 anos ainda impressiona com suas levadas peculiares e precisão. 

E o porta voz é Bruce Dickinson, que também na casa dos 60, ainda exibe uma voz que brilha como diamante lapidado, um oásis em meio há tantos cantores que nessa faixa de idade, ou até menos, apresentam performances sofríveis. Ele passou por um câncer na garganta em 2015, e na turnê do disco The Book of Souls, era notável que ele ele segurava em algumas partes mais complicadas. Agora, ele está cantando no máximo de sua capacidade novamente, balanceando com maestria passagens mais amenas e outras que exigem bastante de sua garganta. É, quiçá, um de seus melhores momentos como cantor em toda sua carreira.

O show
As mudanças nas vestimentas de Bruce trazem ao público uma contextualização às letras de cada canção, com ares de teatralidade. Na absurda “Where Eagles Dare”, ele apareceu com uma roupa de inverno, para enfrentar fortes nevascas. A letra da canção trata do resgate de um general americano nos Alpes Bavários, durante a segunda guerra mundial, tema trazido de um romance de Alistair Maclean que virou um filme com o mesmo nome da música. Em “Aces High”, a roupa de aviador explicita a temática lírica, assim como os trajes sacerdotais – unido a cruz com luzes – no épico “Sign of the Cross”. Essa, uma canção do disco The X Factor, o primeiro dos dois com o ex-vocalista Blaze Bayley, é um colosso com mais de 10 minutos de duração, não tocada há muitas e muitas turnês. Mesmo gigante, ela soou forte durante toda sua execução, e emocionou no momentos dos solos de guitarras, quando os três tiveram seus momentos. Outro resgate dessa época veio com “The Clansman”, onde os coros foram cantados muito alto pelo público; tanto que a banda até poderia cogitar deixá-la no repertório de uma próxima turnê. É um clássico, inquestionavelmente.

Iron Maiden (Diego Padilha/I Hate Flash)

Outra faixa extensa foi “For the Greater Good of God”, vinda de A Matter of Life and Death (2006), a composição mais nova de todo repertório. Mesmo sendo de um disco que raramente aparece na lista de favoritos dos fãs, ela ganhou força ao vivo, em um formato aplicado em muitas canções da Donzela: intro lenta, seguida de versos com toda a banda em ação, e demora para chegar no refrão, além de longos solos. Marcando a troca do pano de fundo, com a adição de candelabros, “Revelations”, que vem sendo uma constante nos últimos anos, foi um momento marcante, com o público cantando diversas partes da canção que não tem um refrão propriamente dito. Do mesmo disco que ela, Piece of Mind (1983), vieram o mega clássico “The Trooper” – onde Bruce, além da encenação habitual com a bandeira do Reino Unido, relacionada à letra, balançou por instantes uma bandeira do Brasil, causando uma comoção ruidosa da platéia – a já citada “Where Eagles Dare” e “Flight of Icarus”, tocada um pouco mais lenta do que em outras versões dela ao vivo no passado, ficando mais próxima da velocidade da original de estúdio. A faixa, um dos grandes clássicos do Iron Maiden, ficou mais de 30 anos fora do setlist. Com o empolgado retorno da plateia à ela, fica difícil entender o motivo.

Iron Maiden (Diego Padilha/I Hate Flash)

Além das mudanças de roupa e palco, muitos fogos e efeitos visuais foram usados, como o fogo excessivo em “The Number of the Beast” e no clássico mais recente (apesar de já ter praticamente 20 anos) “The Wicker Man”, ou o monstruoso Eddie ao fundo em “Iron Maiden”, que encerrou o repertório regular. Ainda em “The Number of the Beast”, Bruce Dickinson, de maneira, sutil, sugeriu que a banda voltaria ao Brasil, ao cantar o trecho “I’m coming back, we will return”. Na letra original, consta “I will return”. Para o final do show, Bruce então escancarou que a banda voltaria de fato, dizendo que eles virão ao Brasil quantas vezes o público daqui quiser, até eles morrerem. O bis veio com “The Evil That Men Do”, a grandiosa “Hallowed be thy Name”, que havia ficado de fora da turnê anterior – e fez falta – e o final definitivo com o hit “Run to the Hills”. Um show do Iron Maiden transcende esse termo; se trata de uma experiência de vida, algo único, inenarrável como um todo. A banda ainda soa vigorosa, relevante, e entrega o melhor show de Heavy Metal de todo o mundo. 

Repertório
O setlist da banda foi exatamente igual a todos os outros shows da tour, portanto:

Aces High
Where Eagles Dare
2 Minutes to Midnight
The Clansman
The Trooper
Revelations
For the Greater Good of God
The Wicker Man
Sign of the Cross
Flight of Icarus
Fear of the Dark
The Number of the Beast
Iron Maiden
The Evil That Men Do
Hallowed Be Thy Name
Run to the Hills

Fotos: Diego Padilha / I Hate Flash.
Cliques realizados na Legacy Of The Beast Tour, dia 04 de outubro de 2019, no Rock in Rio.

1 comentário em “[Cobertura] Iron Maiden faz show espetacular para mais de 60 mil pessoas em São Paulo”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s