Iron Maiden: As impressões da primeira audição de Senjutsu

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Clovis Roman escreve suas percepções imediatas sobre o álbum

Este é um texto para quem tem um conhecimento um pouco mais aprofundado de Iron Maiden. O admirador mais raso, casual, pode abandonar a leitura aqui e seguir a vida. Outro ponto que preciso frisar é que eu escrevi junto com a audição, portanto, meu parecer sobre o álbum, após uma dezena de audições, pode ser diferente. A ideia é compartilhar com os leitores as percepções iniciais de um jornalista e um fã da banda.

Não esqueça de ler nossa resenha do show do Iron Maiden em São Paulo, em 2019: https://acessomusic.com.br/2019/10/12/cobertura-iron-maiden-faz-show-espetacular-para-mais-de-60-mil-pessoas-em-sao-paulo/

por Clovis Roman

O som do Iron Maiden há tempos demanda ao menos um par de audições. Ao menos comigo, cada vez que ouço uma música nova, não assimilo. Nas audições posteriores, tudo fica mais claro e, sem exceções, sublime. As músicas divulgadas pelo grupo antes do lançamento de Senjutsu (que acontece na próxima sexta-feira, 03 de setembro), por exemplo, me causaram estranheza, mas ao ouvi-las mais algumas vezes, entendi e cai de amores por ambas. Aqui, tento passar para você o que senti na primeira vez que ouvi Senjutsu do começo ao fim.

Comparar os trabalhos atuais de uma banda com clássicos atemporais é uma babaquice. Aqueles discos do passado já existem, caso sintamos saudades, basta pegá-los, colocar o disquinho no som e apertar o play (ou digitar no Spotify ou Deezer, enfim). Caso eu faça comparações com o catálogo prévio da  Donzela, o farei traçando paralelos com seus imediatos antecessores, primordialmente com o colossal The Book of Souls.

A faixa título abre o disco, longa e moderada. É uma abertura menos impactante que “If Eternity Should Fail”, por exemplo. O padrão do Iron Maiden é abrir os shows de turnês de álbuns com a primeira faixa dos respectivos CDs. Mas arrisco dizer que a banda pode acabar colocando “Stratego” neste lugar. Esta, a segunda no disco, é mais cativante, com refrão grandioso, que traz um gostinho de “Believe”, do Savatage. Não só cativante, mas grandiosa.

A árida “The Writing on the Wall” foi a primeira a ser divulgada. Ela cresce a cada audição, conquistando o ouvinte que a princípio estranhou algumas sonoridades, como por exemplo, o pacato crescendo no primeiro minuto da composição. Os versos cantados por Bruce são alicerçados por arranjos primorosos de guitarra e um baixo retumbante. Nicko McBrain soa inconfundível a cada batida de sua bateria. Poucos músicos neste instrumento soam tão facilmente identificáveis como ele.

Bruce Dickinson está cantando absurdos, sem tantos gritos histriônicos como fez em A Matter of Life and Death ou The Book of Souls. Aqui, mais contido e ainda sublime, o vocalista canta como nunca e brilha como sempre. “Lost in a Lost World” parece um bem bolado de títulos de músicas do passado. A música, por sua vez, nada lembra qualquer coisa feita previamente pelo sexteto, principalmente no par de minutos iniciais, com uma vibração ‘floydiana’ espetacular. Quando o peso domina, soa como uma música do Iron Maiden, um pouco menos agressiva, entretanto. Os versos do vocal são simples, não muito memoráveis, mas anos-luz de serem desprezíveis. Há momentos em que o trampo das guitarras lembra algo do The X Factor, sensação que surge volta e meia em outros momentos do álbum. A longa parte instrumental no meio é primorosa. Adrian Smith é um monstro. O final é estranho (e até meio desnecessário), e caberia tranquilamente em algum lugar de The Final Frontier (2011). O disco chega na metade com “Days of Future Past”, mais acelerada e animada, mas não tanto. Soa como uma mescla de algo do Tyranny of Souls (álbum solo de Bruce Dickinson, de 2005) com outro tanto de The Book Of Souls. Lê-se por aí que coisas mais recentes do Maiden soam como material solo de Bruce. Não que este seja o caso, mas desde quando isto seria algo ruim? Reminiscências progressivas e outro momento brilhante das guitarras colocam a faixa como um dos destaques do lado A de Senjutsu.

Dedilhados e começo vagaroso descrevem “The Time Machine”. Esta é uma fórmula usada pela banda há algumas décadas, e novamente, surge a pergunta: Isto é algo que depõe contra um álbum? Jamais. Os primeiros versos caberiam, novamente, em algum dos últimos dois discos do Iron Maiden. Quando a música começa de fato, um Led Zeppelin metalizado hipnotiza o ouvinte. Lá pela metade da faixa, baixa o espírito de “Alexander The Great” e fica difícil não se emocionar e balbuciar junto a letra, mesmo sem saber o que Bruce está cantando, ou ao menos solfejar a melodia. Ainda enfiaram no meio uma parte mais pesada, brevemente caótica, algo que o Dream Theater poderia ter feito. Todas as partes se casam perfeitamente, diferente do que haviam feito em alguns momentos dos últimos três discos, por exemplo.

Uma balada em sua essência, “Darkest Hour” é carregada de feeling e convence de imediato. É mais coesa e cativante que outras similares de um passado não tão distante. As águias do final me fizeram acreditar, por instantes, que “Where Eagles Dare” começaria na sequência. Outra que estabelece uma conexão com outro clássico do passado é “Death of the Celts”, com sua ligação imediata com “The Clansman”, porém aqui com mais classe e polidez. Sua cadência também é mais moderada. O prog toma conta em outra sessão instrumental gloriosa, com o adendo de solos fenomenais de Murray e Smith. Os toques folk aqui são o granulado na cobertura de um delicioso bolo de chocolate.

Caso uma música imensa, com mais de 10 minutos de duração, não fosse suficiente, Senjutsu termina com uma dobradinha que responde a 24 minutos do tempo total do álbum (que tem 82). Aliás, sim, é um CD duplo. O ar épico de “The Parchment” impressiona, uma composição que caminha devagar porém sempre instigante, algo que o Iron Maiden sempre soube fazer de maneira magistral. Aliás, este par e sua antecessora, “The Clansman II” (ops, digo, “The Death of the Celts”) são cortesia de Steve Harris, monstrusoso como de costume. A empreitada com o British Lion (que não é lá a coisa mais genial do mundo…) certamente foi útil para o baixista escoar criações que não caberiam no Maiden e para clarear sua própria percepção sobre o que funcionaria no seu grupo principal. The Book of Souls e agora Senjutsu comprovam isto.

O veterano grupo britânico está anos-luz à frente de qualquer outro nome. É impressionante a força do material que produzem, mesmo após tanto tempo e podendo tranquilamente apenas sentar no sofá do conformismo e viver do passado. Não que eles não celebram seu legado, afinal, a cada turnê de álbum vem uma turnê especial. Mas a maneira como eles fazem isto, a integridade do negócio todo, é embasbacante.

A capa de Senjutsu (2021).

Voltando de toda esta volta, restou a saideira, a despedida de outro trabalho duplo e marcante. Na mesma pegada das intros dedilhadas, “Hell on Earth” tem pouco mais de 11 minutos de certo virtuosismo e total falta de pressa. É como uma epítome de todo o disco, um vértice que centrifuga todos os elementos ouvidos nas anteriores; todos brilhantes, portanto, temos aqui outra belíssima música, que pode não ser a melhor, mas que de maneira alguma macula a história do sexteto. Todavia, tenho a impressão que esta canção, após algumas audições, vai crescer bastante. Ao ler isto daqui um ano, morrerei de vergonha de ter sido tão leviano.

Atualmente muita gente seleciona amizades pelo posicionamento político. Mas a melhor maneira de saber quem manter por perto ou não é mais simples. Averigue se a pessoa gosta de – ou ao menos, respeita – Iron Maiden. Caso a resposta seja negativa, corra para as colinas.

Este texto é uma homenagem ao eterno amigo Felipe Martynetz. Obrigado por sua findada e louvável existência e por manter a chama do amor ao Iron Maiden permanentemente acessa em meu coração.

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