[Entrevista] Kiko Loureiro difunde trabalho baseado em código aberto

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A versatilidade do músico brasileiro Kiko Loureiro sempre foi uma de suas principais características. Tecnicamente soberbo, o guitarrista construiu um legado de importância inefável para o Metal nacional nos anos 90, com o Angra. Com seus trabalhos solo, ele pode mostrar outras facetas musicais de seu repertório. Toda essa experiência está sendo usufruída pelo gigante do Thrash Metal Megadeth, banda na qual Kiko entrou em 2015.

Mas ele não deixou suas próprias coisas de lado, e após oito anos, volta a lançar um disco solo. Open Source une conceito a músicas vibrantes, com alma e com peso, tendo a cozinha do Angra como alicerce (Felipe Andreoli, baixo, e Bruno Valverde, bateria). São onze faixas, sendo que uma delas conta com a participação de Marty Friedman, ex-Megadeth. O disco saiu após uma muito bem sucedida campanha de financiamento coletivo.

Por telefone, Kiko nos contou detalhes sobre esse novo trabalho e sua carreira.

por Clovis Roman

Em um dos vídeos de divulgação, você comenta que o álbum é pesado, e que você quer soar moderno. Você costuma pautar o direcionamento musical antes de compor, ou as coisas apenas seguem seu rumo?
Kiko Loureiro
: Quando você está fazendo as músicas, você faz algumas mais pesadas, outras mais leves. É um mix, de definir um conceito, um caminho, e um mix do que sai naturalmente. Você observa o que sai e fala “beleza!”. Eu tinha algumas músicas que eram um pouquinho fora, tinha uma especificamente bem brasileira, que resolvi não colocar no disco, para ficar mais coesa a mensagem. É um mix do que sai naturalmente e de como você seleciona o álbum em si. É um constante pensamento em vários aspectos, de capa, conceito, nomes das músicas, a estrutura das músicas, o porquê das melodias, tudo. Pois você está fazendo uma música instrumental, de alguma forma você tem que passar um conceito, ideia, imagem, através de uma coisa intangível, sem letra e sem imagem. A imagem vem depois, com a capa, mas começa com a música, que é intangível.

Kiko ao vivo com o Angra, 2015 (foto: Clovis Roman)

O título do álbum é Open Source, como surgiu esse conceito e como se relaciona com o álbum? E oferecer as músicas em pistas separadas, para que outros músicos possam tocar junto com as canções, também está conectado à isso?
Kiko: Totalmente, né? O lance do Open Source, código aberto, é justamente entendendo a internet como duas forças que existem, uma super positiva, do colaborativo, das pessoas colaborando, comentando, vendo, estudando e fazendo coisas interessantes, criando vídeos incríveis no youtube, gerando memes que seja, stories, coisas interessantes, para democratização do conhecimento. Tá tudo na internet, você pode ler e aprender um monte de coisas, livros, vídeos e tudo o mais. Você tem esse lado positivo, são várias cabeças pensando e chegando em soluções, usando a internet. Por exemplo, o Google: cada vez que você usa o Google, você está ajudando ele a ser melhor. Na próxima vez você vai achar coisas mais precisas e mais rápido. Quanto mais as pessoas usam, melhor fica. Então esse é o poder da internet. A Wikipédia, tipo, quem imaginaria que uma enciclopédia seria feita pelas pessoas normais? Colocando suas coisas lá e as pessoas indo lá para saber as coisas. Isso é o Open Source. As pistas separadas não são só para o cara treinar, estudar e tocar as músicas, mas para ter a liberdade de criar algo diferente, para quem sabe pegar só a bateria, e criar outro riff. Pegar a música, tirar a guitarra principal e fazer uma melodia nova, que ele acha que poderia ser mais dele, diferente. Não melhor ou pior, mas dele. E a partir daí, você tem várias coisas acontecendo, que são diferentes. O que eu fiz não é o final, é o começo. É mais nesse sentido, você põe na mão das pessoas as ferramentas, essas pistas, para elas criarem. Lança-se o álbum, tem as músicas, as pessoas se conectam com as músicas, mas depois colocarei as backing tracks, para criar essa sensação de Open Source.

Dentro do álbum, as músicas falam, de certa forma, sobre isso. Não só as imagens da capa, de algo mais líquida, de uma mitose, de multiplicação das células, das bolhas da internet. E do nome das músicas, como a “Liquid Times”, do filósofo e sociólogo Zygmunt Bauman. Tem “Overflow”, dessas sensações que temos, que são do lado negativo da internet. “EDM (E-Dependent Mind)” é o lado do vício, da depressão, da doença psicológica que a internet traz de negativo, de você se comparar com as pessoas e com o que tá no mundo, e você não se sentir suficiente. E também leva isso aos dois convidados que tenho no álbum, justamente para mostrar isso.

Bom, em relação aos convidados, um deles é Marty Friedman, que esteve no Megadeth, na mesma função que a sua, décadas atrás. Como surgiu a ideia de convidá-lo? Alguém do Megadeth comentou algo contigo sobre isso?
Kiko: Cara, a gente não está tocando, em turnê, então não sei, não teve [nenhum comentário].

Você começou a gravar o álbum no ano passado. Entretanto, o fato de estarmos em pandemia, alterou alguma coisa em seu cronograma? Como seu método de trabalho mudou com essa pandemia?
Kiko: Atrasou o cronograma, com certeza. A ideia era começar as coisas um pouco antes. Mas não foi só a pandemia, tive a tour com o Megadeth, e eu também não quis estressar. Achei que daria para finalizar as coisas com mais calma logo após a turnê, que foi no final de fevereiro. Meu, aí veio a pandemia e deu uma entortada geral. Muita coisa era para ser feita pela internet, a capa do disco, essas coisas assim, mas de qualquer forma deu uma confusão na cabeça das pessoas. Então atrasou geral, mas deu tempo para todo mundo botar o pé no chão, de como ia fazer. Com certeza atrasou, uns dois ou três meses, mas tá tudo certo. Botei minha data de aniversário para sair o primeiro single, achei que era uma boa data, e depois o videoclipe, e agora lançamos o álbum. E estamos soltando as músicas individualmente no Youtube e no Spotify, para ter essa pegada de dar uma atenção especial para cada música.

Falando em videoclipe, a “EDM (E-Dependent Mind)”, foi feito pelo Leo Liberti, da Libertà Filmes. Ele normalmente é um cara muitas das vezes já chega com os conceitos prontos, com os artistas que ele já trabalhou. Dessa vez aconteceu isso ou você deu algumas pistas ou caminhos para ele seguir?
Kiko: Ele tinha gostado de outra música para fazer, a “Running with the Bulls”, mas aí eu falei dessa, pois era a que eu queria que fosse single. O título dela meio que leva, né… eu falei o que estava pensando sobre o título, Open Source. E aí eu mostrei que do lado de onde eu moro, tem um prédio com salas vazias para alugar. Eu não conheço muito aqui, né, então não sei lugares aqui na Finlândia para filmar. Discutimos algumas ideias e aí eu falei do prédio, que tem uma escadaria, é meio sinistro, meio vazio. Então, como você mesmo falou, ele começou a pirar nas idéias: “ah, tem tudo a ver, lugar vazio, você pode estar em várias salas tocando; você está em todo lugar mas não está em lugar nenhum”. É tipo a ideia da internet em si, né? Você está em todo lugar, mas não está [risos]. Você me encontra no Facebook, no Youtube e não sei o que, mas eu não estou lá com você. A gente falou no telefone bastante, pois eu filmei com o pessoal daqui, e ele fez a parte com os atores lá [no Brasil], e ficou super legal. O Léo é fantástico, fantástico!

Como o financiamento coletivo ultrapassou a marca inicialmente estabelecida, está nos planos a gravação de um segundo videoclipe. A faixa já foi escolhida e há ideias da concepção visual desse vídeo?
Kiko: Estamos vendo ainda. Tenho algumas ideias, tá rolando, estou falando com o Léo sobre isso, se vou fazer aqui, estou vendo isso ainda.

Além de guitarra, você também toca teclado/piano, inclusive registrando isso em uma faixa do último álbum do Megadeth. Nesse seu novo trabalho solo, você gravou alguns teclados também em alguma faixa?
Kiko: Tem na própria “EDM (E-Dependent Mind)” um piano. A Maria Ilmoniemi fez os hammonds. Todos os teclados, eu programei, fiz os sons e tal. E a Maria Ilmoniemi ajudou a definir os sons, ajudou, meteu a mão junto para ajudar com a experiência dela. Mas eu já fiz bastante teclados no Angra, né? Então é uma coisa que eu gosto de fazer, eu tenho prazer. Demora, dá bastante trabalho. Mas eles ajudam muito a caracterizar as músicas e ajudar no clima da música, e então meio que tenho na cabeça o que eu quero.

Kiko, você é um músico com ampla visão da parte de negócios dentro do show business, algo que você aplica em sua carreira. Você já pensou em escrever um livro com esse tipo de abordagem, de contar sua experiência e conhecimentos sobre esse ramo?
Kiko: Eu fiz o curso de music business, que é bem longo e completo, no qual temos várias turmas, muita gente e tal. Fora algumas palestras e outras coisas que fiz no Youtube. Livro pode ser, em algum momento, é uma coisa que está nos planos, mas eu botei a música em primeiro lugar agora, fazendo o disco.

Kiko com o Angra, 2015 (foto: Clovis Roman)

No DVD The White Balance, você e Rafael Bittencourt fazem uma belíssima versão de Late Redemption, onde os dois cantam. Você já cogitou explorar mais sua voz em algum tipo de trabalho? Quem sabe, cantar uma música inteira em algum disco solo ou em algum disco de outro artista como participação especial?
Kiko: Eu já pensei, mas é uma coisa que eu tenho que fazer em outro momento. Eu gosto de música instrumental, e as coisas cantadas foram mais dentro do Angra e tudo o mais. Sempre tive essa diferenciação.

O disco foi financiado por meio de financiamento coletivo, inclusive atingiu a meta inicial de maneira bem rápida. Artisticamente há diferença entre você mesmo lançar seu disco invés de fazê-lo por uma gravadora? Quais vantagens e desvantagens dessas duas maneiras?
Kiko: Na realidade, o lance do financiamento coletivo é mais para você ter a liberdade de fazer o que quiser com a música depois. É mais nisso do que a própria música em si. Obviamente quando você tem uma gravadora e outras pessoas envolvidas e com expectativas – pois vão investir dinheiro, vão vender – você tem a preocupação de agradar você, você tem uma preocupação com os fãs, se eles vão gostar, e uma preocupação com o cara que está sendo seu parceiro. Não tendo a gravadora, não tem essa preocupação. Mas o grande lance é que posso postar as músicas da forma que eu quiser, no dia que eu quiser posso colocar o álbum inteiro no Youtube. Posso fabricar o disco e dar de graça, sei lá, eu não preciso pedir permissão para isso. Se alguém quiser gravar uma música e postar, não vai ter um cara da gravadora falando que ele não pode, sabe? O cara pode por lá no Youtube, e não vai ter advogados de uma gravadora indo atrás, dando strike no canal. No final das contas, esse é o conceito Open Source.

Como você enxerga esse novo trabalho, em comparação com o seu primeiro solo, No Gravity, passando por Sounds of Innocence e Fullblast?
Kiko: Cada álbum reflete um momento meu, mas sou sempre eu. Reflete quem eu sou. Esse álbum tem o Bruno Valverde na bateria, o que leva [a música] para outros lugares. O Felipe já tinha gravado outros. Com quem você toca ou grava, você tem influências. É super colaborativo. E cada vez mais eu acredito nesse negócio. Eu tenho mais ou menos o que quero da música, mas estou sempre aberto a quem tiver mixando ou gravando, ao Bruno e ao Felipe, [aceito] sugestões e opiniões, eu ouço e reflito sobre. Isso ajuda a mudar a cara de disco para disco.

Kiko Loureiro em Curitiba, com o Angra, 2015 (foto: Clovis Roman)

Para encerrar, uma pergunta que faço a todos nossos entrevistados: Qual banda ou artista você acha que gravaria uma versão bacana de alguma de suas músicas/composições?
Kiko: Eu acho que a “Late Redemption” foi uma dessas, com o Milton Nascimento cantando. Eu tive essa sensação aí, de ter um ícone para mim, cantando a melodia e depois tendo elogiado a música e tudo o mais. O cara é um dos maiores compositores do mundo. Bom, aí… putz, essa pergunta é difícil hein? [risos] Todo mundo né, sei lá. Aí seriam os grandes, pode ser uns caras do jazz, imagina só Herbie Hancock fazendo. Pode ser, deixa eu pensar… a Orquestra Filarmônica de Berlim, tá bom? [risos] ‘A Filarmônica de Berlim decide fazer seu repertório em 2021, a obra de Kiko Loureiro, invés da obra de Beethoven’ [risos]. Se é para sonhar alto…

Fotos: Clovis Roman

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