[Resenha] Division Hell aproveita sua própria morte com disco de despedida

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Division Hell – Carpe Mortem
(Quiat Records – Nacional)

por Clovis Roman

O Division Hell encerrou suas atividades no final de 2019, após pouco menos de uma década na estrada. Com o lançamento do segundo álbum completo, Carpe Mortem, colocaram o pé na estrada, fazendo show em outros estados. E isso tornou explícito uma coisa comum às bandas underground: é muito investimento para pouco retorno. O grupo passou por algumas mudanças de formação, mas sempre mantendo o núcleo criativo com Hugo Tatara (vocal e guitarra) e o virtuoso Renato Rieche (guitarra). A última formação – que próximo ao canto do cisne contava também com Johnny Benson (que deu um upgrade imenso no baixo, ao menos ao vivo) e com o baterista Caio Murilo – estava em plena sintonia, fazendo shows muito coesos. Inclusive, eu tive a oportunidade de ver o último show da história do conjunto. E como que para corroborar a teoria acima, da falta de retorno do público, a casa estava completamente vazia – não mais que 10 espectadores. Para que continuar nessas condições?

Com o fim repentino – ao menos para quem está de fora – deixei a resenha de lado por um tempo. Pensei em até mesmo não escrever nada, afinal, de que adiantaria divulgar o material de um grupo que tampouco existe mais? Mas há uma coisa que me fez retomar as audições do disco e decidir por fazer esse texto: o papel do jornalista cultural é documentar o que acontece no cenário musical (que é minha área principal de atuação). Portanto, por mais que o Division Hell tenha acabado, o seu legado permanece. E o álbum – que saiu menos de 2 meses antes do fim das atividades da banda – é bom demais!

Sobre o conceito, Tatara comentou na época que o título Carpe Mortem “é uma expressão em latim, com tradução aproximada “Aproveite a Morte”. Não é um disco conceitual, porque há algumas músicas com outras temáticas, porém a maioria abordará esse tema. A capa, os clipes, e tudo relacionado tem essa abordagem mais sombria e introspectiva”. Se fosse para comparar com o anterior, Bleeding Hate, eu diria que este é mais coeso, pois as faixas têm todas mais ou menos o mesmo nível. Em geral chamam a atenção os arranjos de bom gosto, bem estruturados e conectados entre si.

A gravação, feita no Funds House, é espetacular. E o responsável pela parte técnica foi Allyson Irala, também guitarrista do fantástico Sad Theory, que acabou por participar solando na instrumental “Umbral”, lá no fim do disco. Quem abre o play é “The 9 Circles”, a única completa composta por Renato Rieche (ele também assina “Undying”, um curto interlúdio instrumental). Todas as demais foram compostas por Hugo Tatara, que também cuidou de toda a parte lírica. É um diferencial importante ao se comparar ao disco de estreia. E certamente isso criou a unidade que mencionei acima.

A sequência do álbum se dá com “Rise Against”, uma porrada veloz, cujos versos são solidificados já no início pela repetição. “Toxic Faith” já havia sido divulgada meses antes do lançamento, conta com andamento mais Death’n’Roll (a base pro solo, por exemplo) com linhas caóticas de guitarra como contraponto. “Human Guilty”, outra mais mais cadenciada em geral, emana influências de Morbid Angel aqui e acolá, que remetem ao Legion of Hate, banda anterior de Renato e Hugo, de importância inquestionável no underground curitibano. Já a curta “I Am Death” vem como uma locomotiva sem freios descendo uma ladeira: destruição total inevitável. E apesar disso, seu refrão é bem ‘cantável’. O interlúdio “Undying” faz uma breve conexão com “Blood Never Dies”, uma sólida pedrada, para se quebrar sem dó nem piedade. Há trechos mais lentos, mas aqui o que brilha são as partes mais aceleradas. O fragmento final, depois do espetacular solo de bateria, é coisa doentia digna de poucos.

Primeira formação da banda, em 2010. (foto: Clovis Roman)

Mantendo o ritmo brutal do play, a densa “Umbral” emana algo mais erudito, como a trilha sonora de algum conto de Edgar Allan Poe, daqueles mais desesperados, com gritos de angústia por seus protagonistas. O conto “O Barril de Amontillado” vem a cabeça imediatamente. Entretanto, curiosamente, a composição é instrumental. A nona e última é “Murder the Mankind”, que carrega em si influencias do Death Metal anos 90, mas ainda assim soando atual, como fica explícito na parte final com versos em português. Trata-se do poema “Post Mortem” (seria um xiste do destino?), de Cruz e Souza, declamado por João Gilberto Tatara, renomado artista curitibano. Ao fim desses versos, gritos primais que lembram Barney Greenway nos anos 90 são as “The Last Words” (referência a uma canção de Bleeding Hate, 2015) do Division Hell. Suas músicas, riffs e letras pelo alto ficarão de eras supremas nos relevos do sol eternizados.

Capa do último álbum do Division Hell.

Músicas
01. The 9 Circle
02. Rise Against
03. Toxic Faith
04. Human Guilt
05. I Am Death
06. Undying
07. Blood Never Dries
08. Umbral
09. Murder the Mankind

Foto de capa: Reprodução do encarte do disco

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