[Resenha] Dorsal Atlântica: O completíssimo registro histórico de Guerrilha

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[press-release]

por Clovis Roman

Direto do Rio de Janeiro, a cidade mais filha da puta do Brasil“, grita Carlos “ex-Vândalo” Lopes, guitarrista e vocalista de uma das lendas do Metal brasileiro, o maior nome do verdadeiro underground, que alicerçou sua história na ideologia e vontade de fazer acontecer. O Dorsal Atlântica se consolidou como um colosso desse estilo musical nas décadas de 1980 e 1990, e essa é a melhor parte da história. Há pouco menos de uma década eles voltaram a ativa, entretanto apenas como banda de estúdio.

O material principal desse DVD duplo é um documentário de 70 minutos: Guerrilha – A Trajetória da Dorsal Atlântica, em narrativa cronológica, é guiada por muitos depoimentos de pessoas que viveram aquela época, incluindo todos os ex-membros e atuais, contando tudo direto de suas memórias e arquivos. O único do âmbito musical que é solenemente ignorado é Angelo Arede, que gravou o excelente Straight e fez diversos shows. Sobre esse trabalho, inclusive, João Gordo comenta ser esse o ápice da banda como um todo, com suas influências de punk/crust/grind. O fio condutor da história, entretanto, é o próprio Carlos Vândalo aka. Carlos Lopes, com um condescendente ar messiânico, quiçá por querer tanto firmar sua mensagem ao seu público, além de apenas tocar Rock pauleira. Para ele, a sua mensagem é crucial.

É muito importante que vocês leiam essas letras […] são sobre transformação, sobre mudar a sociedade, e é isso que todo mundo quer“, diz em um show no Aeroanta, em São Paulo, no ano de 1994. Ele se referia a sua obra como um todo, claro, mas primordialmente do disco novo da época, Alea Jacta Est, a história de um Cristo negro favelado, que foi crucificado em um poste, com transmissão ao vivo via TV, com todo o sensacionalismo necessário. Um tema avançado para a assimilação de uma parte considerável da massa metaleira. Tanto que muitos acusaram a banda de ter se tornado cristã. Muita gente até hoje não entende o conceito e o significado do enredo. E daí vieram as críticas veementes dele ao estilo quando a Dorsal acabou e ele embarcou no Funk.

O filme começa com uma contextualização bacana e logo nos primeiros minutos é contada a história de “P.N.C.”, música com letra singela que manda deus às favas. Um excerto de um show em Minas Gerais mostra Carlos apresentando a composição, xingando tanto o protagonista da história quanto o próprio público, que se sente lisonjeada pelas palavras esbravejadas. Após esse primeiro passo, o disco de estreia, o clássico Antes do Fim, é meio que passado por cima, indo logo para o segundo, Dividir e Conquistar, que é muito melhor que o debut. E na película fica evidente que Carlos, apesar de ter orgulho de seu primeiro registro, parece não aceitar que o considerem o melhor da banda. Tanto Dividir e Conquistar, quanto seu sucessor, a ópera thrash Searching for the Light, são superiores lírica e musicalmente, numa evolução exponencial e natural.

Nos anos 1990, a banda conta ter conseguido 30 mil assinaturas para tocar no gigantesco festival Monsters of Rock, e o fizeram quando divulgavam o derradeiro álbum Straight. Com o final do milênio, a banda foi se aborrecendo, com inúmeras furadas devido primordialmente a falta de profissionalismo de muitos produtores. Carlos, já sem o irmão ao seu lado, cansou do Metal e foi escrever novos capítulos em sua história, com os mais suingados Mustang e Usina Le Blond.

O trio Carlos – agora Lopes – (guitarra e voz), Cláudio (baixo) e Hardcore (bateria) voltou aos trabalhos em 2012, e vem gravando discos via financiamento coletivo. Apresentações ao vivo, entretanto, estão fora de pauta. Quem sabe para respeitar o legado das décadas passadas, afinal, a diferença musical entre o agora e o outrora é gritante. Ou pode ser dividida entre “gritante” e não “gritante”, já que a abordagem musical atual é bem mais amena, melódica, com vocais mais amenos.

O disco um ainda conta com algumas cenas extras e depoimentos de gente do quilate de Gastão Moreira e João Gordo. O segundo disco traz um compilado de cenas em estúdio, enquanto gravavam o disco 2012, do ano homônimo. Depois, vieram Imperium (14) e Canudos (17). Outro deve ser lançado em 2021, pois sua campanha de financiamento coletivo está programada para começar em breve. Há também excertos de quatro shows, de diferentes anos e qualidades. Claro que os registros mais antigos são mais sofríveis, afinal, certamente vieram de fitas VHS já desgastadas com o tempo. Entretanto, as cenas do longínquo ano de 1985, são um pedaço importante da história do Metal no Brasil, assim como as cenas de um show no Ginástico, em Belo Horizonte, ao lado de Sepultura e Overdose, de 1986. Vândalo, com suas frases agressivas ao público, como “Aí seus bangers fodidos de merda“, soa impagável. A dobradinha de abertura, mesmo que praticamente inaudível, com “Caçador da Noite” e “HTLV-3”, também.  Vale citar que essa dupla saiu no disco coletânea Pelagodiscus Atlanticus, de 2002.

Ainda há um show em São Paulo, no Aeroanta (1994), na tour do recém lançado Alea Jacta Est, e uma parte do show no supracitado Monsters of Rock. Os clipes são outra boa atração, indo do elaborado e polêmico “Thy Kingdom Come” – a mais alucinante música do grupo, cuja intro lembra “Spiritual Healing”, do Death – aos precários “Take Time” e principalmente “Loyal Legion of Admirers”. “All the Women (I’ve Loved)” – que figurava na programação metálica da MTV volta e meia – é um dos poucos momentos que o ex-baixista Angelo Arede aparece. Curiosamente, trajando uma camiseta da Gangrena Gasosa. Apresentando a fase atual, a bacana “Stalingrado” mescla cenas históricas com o trio em estúdio.

O bacana de ambos os discos de vídeo é não ter aquelas enrolações antes de aparecer o menu principal. Você insere o disco no aparelho e as opções aparecem imediatamente, sem vinhetas ou aporrinhações do tipo. A produção executiva de Guerrilha ficou por conta de Frederico Neto, da Sangue Produções, que também dirigiu, ao lado de Alexander Aguiar; ambos fizeram um trabalho primoroso. Esse é um documentário que conta a história, de um certo ponto de vista, de um nome de importância indubitável do Metal brasileiro.

Material bônus
O single O Retrato de Dorian Gray é item integrante deste lançamento, não sendo vendido separadamente. Ele traz a faixa título, na linha do som atual do grupo, que apesar de bacana, não tem o veneno de outrora. A questão é que, mesmo sem comparar com a primeira fase, o material não tem perenidade na memória do ouvinte. A composição rola sem problemas, mas suas nuances, letras e melodias se vão logo após o fim da audição.

Uma versão esterilizada do clássico “Guerrilha”, com vocais amigáveis, não diz nada. Terceira e derradeira faixa, um longo depoimento de Carlos, com mais de 25 minutos, é o material usado durante o filme. O monólogo é, de longe, a coisa mais interessante do single. Um livro de 46 páginas – além de um poster – completa magistralmente o material, com texto sobre a banda e entrevista com os diretores sobre a produção do material e tudo o mais. O material é rico, englobando filme, música e texto, o que forma um produto de grande valor histórico.

Onde comprar: www.diehard.com.br

Novo disco
O Dorsal Atlântica começou esse mês a campanha para financiamento do próximo álbum, Pandemia. Os apoiadores receberão o CD com seus nomes no encarte. Haverá também versão em LP, além de camisetas exclusivas. As letras analisam a conjuntura nacional através de uma distopia inspirada em “A Revolução dos Bichos” e “1984” de George Orwell.

O tema: “Em Brasilândia, a sociedade é dividida entre 3 etnias: os equinos que governam, o povo canino e os símios militares. Um jumento é eleito como Primeiro Ministro através de um golpe dado com o judiciário e os generais gorilas. O novo governo infectar a população com a pandemia da ignorância. Seus fanáticos seguidores empilham livros em fogueiras, clamam que a terra é plana e lotam os templos porque creem que o Deus Sumé as salvará do vírus, enquanto esses mesmos fanáticos destroem terreiros de Candomblé e incendeiam laboratórios, faculdades e livrarias“, explica o release da assessoria do grupo.

Link da campanha: www.catarse.me/dorsalpandemia

Informações
Facebook: www.facebook.com/dorsalatlantica
Loja oficial: dorsalatlantica.minestore.com.br
Site: www.dorsalatlantica.com.br

Capa do livro de entrevistas.

Fica técnica completa: sangue.tv/o-que-fazemos/guerrilha-a-trajetoria-da-dorsal-atlantica/
Foto do material completo: Reprodução

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