[Resenha] Diários da Heroína – Nikki Sixx

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Diários da Heroína – Nikki Six / Ian Gittins
(material gentilmente enviado por Editora Belas Letras)

por Clovis Roman

Por mais horrendas que as histórias contidas em Diários da Heroína sejam, terá valido a pena expô-las se ela inspirar ao menos uma pessoa a sair do vício das drogas. Este é o mote principal do livro escrito por Ian Gittins com o baixista do Motley Crue, Nikki Sixx. O músico, que explodiu nos anos 80 com sua banda de Rock festeiro, meteu o pé na jaca no quesito drogas e depravação, unicamente por achar que era aquilo de grandes astros do Rock deveriam fazer. Outros fatores, como traumas de infância e estresse do trabalho podem ser adicionados a equação.

O livro, lançado originalmente em 2007, ganhou uma versão ampliada e atualizada uma década pra frente. E foi esta que recebeu sua versão em português, por meio da editora Belas Letras. A edição nacional é espetacular, com ótima concepção gráfica, repleto de ilustrações e em um formato peculiar; coisa fina. Sobre seu conteúdo, o que norteia a narrativa é um diário que Nikki manteve no auge de sua insanidade, escrito em momentos de ressaca física ou moral, em picos de devaneios alucinógenos ou em intervalos de relativa sobriedade. Não é incomum ler trechos onde ele narra algo como estar limpo, ‘só bebendo e cheirando cocaína’. Esses eram momentos de tranquilidade. Entre os ápices da desgraça, está o momento em que afirma ter injetado drogas no próprio pênis. Ou então os relatos de falta de higiene, passando mais de uma semana sem tomar banho ou não usando papel higiênico por dias a fio.

As drogas o tornaram apenas mais um viciado, preso em seus traumas e inseguranças. Nikki deu voz a sua agressividade e arrogância, e sua irmã usa um termo que define perfeitamente que o músico havia se tornado: um babaca. Tudo exposto nas páginas do livro é chocante, repulsivo. E é aí que Nikki, hoje um senhor ‘de boa’, quer que as pessoas tirem forças inspiradas em sua história, para levarem suas vidas adiante de uma maneira minimamente digna. E até as pessoas com quem ele se envolveu são um estímulo extra para mudar de vida, vide Vanity, uma das moças com que ele se relacionou, companheira de sexo e uso pesado de drogas: Ela era insuportável na época, e hoje, figura de certa notoriedade em uma instituição religiosa (ela se converteu ao cristianismo), continua insuportável. É o tipo de gente que nos inspira a mudar de ares.

Páginas internas do livro. (Reprodução)

Há comentários atuais de Nikki abaixo de quase todos os relatos, fazendo um contraponto do garoto prepotente e drogado dos anos 80 com o prestigiado músico e pai de família da atualidade. Diversos personagens que estiverem com ele na esbórnia também dão seus depoimentos, inclusive sobre o episódio em que Nikki ‘morreu’, após uma noite de loucuragens com Slash. Por outro lado, algumas passagens são tão surreais que fica difícil acreditar, como uma que aconteceu com Tom Zutaut, A&R da Elektra Records (o cara que colocou o Motley Crue, filho bastardo do Punk com Metal, no cast da gravadora) e uma de suas namoradas.

Contracapa de Diários da Heroína. (reprodução)

Para além do sofrimento, há também relatos engraçados, que vão do caso extra conjugal de uma conjuge de Bruce Dickinson, o insuportável Yngiwe Malmsteen dando uma de penetra numa festa da banda ou então o ódio puro e simples de Nikki pelo Whitesnake e a vontade dele em ter o Guns N’ Roses como banda de abertura (na época, o Guns era nada mais que um grupo promissor). E, claro, o infame episódio em que Vince Neil – outro babaca – arrebentou a mão com uma garrafa de vidro, ao dar chilique pois a mostarda no camarim não era da marca que o chato de galocha queria. Inclusive, há vídeos no Youtube do frontman cantando com a mão enfaixada nos shows subsequentes.

Como um adendo, há também letras e rascunhos que Nikki escreveu, indo de algumas frases desconexas, ideias primárias e até infantis, até textos mais robustos. Todos em inglês com sua devida tradução no apêndice do livro. E por fim, explica-se que o grupo Sixx A.M. surgiu inicialmente como um projeto musical para complementar o artigo literário, mas as coisas fluíram muito bem e acabou virando banda. A ideia inicial era fazer meia dúzia de músicas para um CD que acompanharia a versão original, americana, do livro. E acabou virando um grupo regular, que fez turnês e chegou até a abrir para o próprio Motley Crue.

Nikki voltou sua criatividade para a literatura, para a música, fotografia e rádio. Assim, deu vazão a muita coisa que havia em sua cabeça, mas que era aniquilada com os entorpecentes. Para o artista, ter noção que, como ser humano, ele não é infalível, foi o primeiro passo para uma mudança efetiva de atitude. E uma frase condensa bem toda a ideia: “Ainda estou em recuperação – Sempre estarei”. Diários da Heroína, além de sua função social, atende às expectativas dos fãs do Motley Crue em conhecer melhor seu ídolo – ou recortes de épocas de sua vida pessoal. Sendo fã ou não da banda, é um livro extremamente interessante. E encorajador, dependendo do seu ponto de vista.

Compre: https://www.belasletras.com.br/produto/diarios-da-heroina-um-ano-na-vida-de-um-rock-star-despedacado-158

A capa do livro. (Reprodução)

Imagens: Reprodução

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