[Entrevista] Uganga conta o passado olhando para o futuro

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Eu sou grande entusiasta do trampo do Uganga, em todas as suas fases, até mesmo quando ainda era u-Ganga. O tempo passou, décadas; e o som também. Tomou outras formas, seguiu caminhos variados. Mas a qualidade nunca foi colocada de lado. Agora como sexteto, o grupo mineiro colocou no mercado seu primeiro DVD, Manifesto Cerrado.

E para manter a tradição da qualidade, o material reúne um baita documentário, contando toda a história do grupo, desde o começo até agora. Mostra a banda na estrada, em estúdio, matando tempo, enfim, sendo uma banda. E o show, meus amigos, que show! Na resenha no fim da página você encontra mais detalhes na minha resenha do DVD. Vale citar que a banda está repleta para novidades para 2019, com novo guitarrista (Murcego deixou a banda oficialmente essa semana) e um novo álbum, Servus.

Essa matéria é especial, pois além da entrevista sobre o DVD, resgatamos uma entrevista que fiz com eles no começo de 2016, e também uma resenha do álbum Opressor, confeccionada em 2015. É um material que serve de recorte histórico de um verdadeiro marco do underground nacional. A entrevista abaixo foi feita no começo de outubro, portanto, antes do anúncio da saída de Murcego. Seu valor, entretanto, permanece intacto. Confira a conversa com o vocalista Manu “Joker” Henriques.

por Clovis Roman

Os primeiros discos da banda, vocês pensam em relança-los de alguma maneira em formato físico? Eles se esgotaram há tempos já, não?
Manu “Joker” Henriques: Cara, já falamos a respeito mas não tem nada certo. Do nosso primeiro álbum, “Atitude Lótus”, ainda temos umas poucas cópias que podem ser adquiridas pelo email ugangabr@gmail.com. O segundo e o terceiro trabalho, “Na Trilha Do Homem De Bem” e “ Vol. 3: Caos Carma Conceito”, respectivamente, se encontram esgotados. Ainda temos cópias do “Opressor” e do “Eurocaos – Ao Vivo” na nossa loja (www.incendioshop.com.br) assim como do nosso DVD “Manifesto Cerrado”.

Aliás, o “Na Trilha do Homem de Bem” e o “Atitude Lotus” estão nas plataformas digitais, mas ao menos no Deezer o “Vol. 3: Caos Carma Conceito” não consta. Há alguma razão específica para tal?
Manu: A razão de ainda não estar lá foi falta de tempo (risos). Estamos vindo de uma fase muito produtiva, com muito trabalho e somos forçados a eleger prioridades em nossas ações. Começamos colocando os dois primeiros álbuns, mas com certeza em breve toda nossa discografia estará no Deezer, Spotify, etc.

Uganga ao vivo em Curitiba, 2016 (foto: Clovis Roman)

Manifesto Cerrado reúne um documentário fantástico, bem costurado, sobre a história da banda; e também um show de vocês em um formato um tanto curioso. Este material já estava nos planos de vocês há muito tempo? Teve coisa que tiveram que deixar de fora por questões de tempo ou algo assim?
Manu: Sim, a gente vem trabalhando nesse doc junto com o Eddie Shumway da Travesseiro Discos desde 2013. Como tivemos alguns percalços desde então, bem documentados no DVD inclusive, rolou um atraso que acabou no fim sendo providencial. Antes seria só um minidoc sobre as gravações do “Servus“, e no final virou um longa metragem com mais de uma hora, além de um show completo. Ficar algo de fora sempre rola, são vários rolês nesses mais de 20 anos, amigos e lugares legais por onde passamos, mas de maneira geral acho que o longa abrange bem nossa trajetória. A história segue sendo escrita e novos capítulos serão registrados em outro trabalho mais a frente.

Ainda sobre a apresentação, ela é curta, direta e intensa, com a banda tendo o público em círculo em sua volta. Aliás, o show parece mais um momento íntimo dos músicos em conexão com sua música. Houveram motivações conscientes neste formato?
Manu: Sim, a ideia de tocarmos em círculo surgiu logo no início e tem a ver com olhar para dentro de si mesmo. Foi um momento onde a banda precisava realmente se reencontrar, um momento de reflexão e análise. Diria até de renascimento. Tem também o lance da logística, claro. Gravar um show pra ficar um material foda é algo caro, e ali conseguimos registrar o set num prédio que faz parte das nossas vidas e da nossa região, na presença de algumas pessoas importantes pra nossa história e com o Gustavo Vazquez, do Rocklab, registrando o áudio. Foi uma confluência de fatores que no final deu muito certo.

Um ponto marcante do show é a releitura de “Couro Cru”, do álbum Atitude Lotus. A original, que tem até umas nuances de Reggae, no vídeo aparece bem mais pesada. Por que resgatá-la?
Manu
: Todos na banda curtem muito esse som e a gente vinha falando em regrava-la com uma roupagem mais atual já há algum tempo. Essa música tem uma história interessante pois serviu para nos colocar na MTV logo no início da banda, ainda nos anos 90, já saiu em demo, no nosso álbum de estreia e agora no DVD. Porém a versão definitiva dela sairá no Servus, nosso próximo disco, com elementos de todas as outras versões. Agora não regravaremos mais essa, eu prometo (risos)! Temos uma carreira extensa, já inclusive regravamos no segundo álbum a faixa “Pagar Pra Ser Feliz” que havia saído na nossa segunda demo, de 1998, e deveremos fazer isso novamente no futuro. Não é por falta de ideias mas sim valorização do nosso passado.

O encerramento também é digno de nota, com a participação percussiva de Tati, Moisés e Lilian, que entram no final de “Aos Pés da Grande Árvore”. Não achas que isto traz uma carga emocional, de fé, muito grande? Afinal, esta percussão me parece muito ligada a algumas manifestações religiosas de origem ou descendência afro. E é incrível notar como tudo é tão harmonioso, são elementos que se mesclam perfeitamente.
Manu: Realmente foi arrepiante aquele final. Rolou uma energia muito forte e todos os presentes sentiram isso. Eu na verdade me emociono cada vez que assisto aquela cena e com certeza tem a ver com fé. Não diria que em um ponto de vista religioso, pois o Uganga não é uma banda religiosa. Somos uma banda espiritual e entre as duas coisas há uma diferença muito grande. Apesar da clara inspiração na Umbanda, e do nosso respeito pela crença de cada um, para mim particularmente aquele final remete a fé em nós mesmos e naquilo que buscamos. Musicalmente criamos aquele final exclusivamente pro DVD e fiquei muito feliz com o resultado.

O lançamento do DVD você enxerga como, simbolicamente, o marco do fim dos momentos atribulados que a banda passou na época que antecedeu o lançamento do Opressor?
Manu: Com certeza marca o final de um período e o começo de outro. Se teremos ou não mais momentos atribulados no futuro, é impossível dizer… Acho que ao menos nos fortalecemos enquanto banda, enquanto família musical, pois a coisa esteve prestes a ir pro saco. E é preciso força para lidar com coisas negativas. Eu espero que o Uganga siga crescendo, em harmonia e nos motivando a ir adiante. Enquanto for válido estarmos juntos, fazendo música juntos. Quanto tempo a banda vai durar, é algo que só vamos descobrir quando ela acabar.

No documentário há, no final, momentos de pré-produção do novo álbum da banda. Quando ele sai de fato? O que vocês notam que ele está trazendo de novo ao trabalho do Uganga?
Manu: Estamos com quase 90% do álbum concluído, ele se chamará Servus e deve sair até o final do ano ou, no máximo, no começo de 2019. Os prazos para lançamento a gente deixa com nosso empresário Eliton Tomasi e com o pessoal da Wacken Foundation, mas a nossa meta é estar com tudo finalizado 100% até outubro. Servus levará o Uganga a lugares novos, porém sempre valorizando de onde viemos e por onde passamos. É redundante dizer isso, mas é fato: ele será um marco na nossa carreira.

O Murcego veio do Canábicos (banda fantástica, por sinal) a princípio para algo temporário e agora está aí, integrado ao grupo. Ele vir de uma banda que pouco se assemelha ao que o Uganga faz atualmente agregou o que ao trabalho? Ou a influência dele é mais para o lado da questão pessoal invés da influência musical?
Manu: O Murcego é um amigo de longa data e um grande músico. Sempre tivemos contato, desde o início do Uganga, e quando precisamos de alguém para substituir o Christian temporariamente, ele foi o primeiro nome que pensei. Com certeza ele trouxe uma pegada diferente pra banda, pelo seu background mais no Classic Rock, e funcionou muito bem. Tão bem que, com a volta do Christian, optamos em passar a ter três guitarras. Os três guitarristas do Uganga têm estilos e influências diferentes que se completam e o Servus vai mostrar isso claramente.

Pelo que me consta, vocês vieram uma vez a Curitiba, em janeiro de 2016, para a abertura do show do Exodus. Como rolou o convite para tocar na capital do Paraná, e quais recordações vocês têm daquela shows? Aliás, no DVD até aparece um trechinho desta apresentação, mas é coisa rápida.
Manu: Fomos convidados pela organização do evento e aceitamos na hora pois o Exodus é uma das poucas unanimidades na banda (risos). Tocar em Curitiba foi foda, a recepção do público foi excelente, pegamos a casa cheia e creio que demos nosso recado a contento. Pena que foi corrido, já no outro dia cedo acordamos e pegamos estrada para Sorocaba, onde nos encontramos com nossos chapas poloneses do Terrordome para mais datas em São Paulo e Minas Gerais. Esperamos voltar o quanto antes pro Paraná e demais estados do sul!

Esta é uma pergunta que faço a todos meus entrevistados, e já a fiz inclusive para vocês, quando entrevistei você há 2 anos e pouco: Qual bandas ou artistas vocês acham que gravariam uma versão bacana de alguma das músicas do Uganga?
Manu: Cara, são tantos (risos). Eu amaria ver o Faith No More gravar um som nosso. Acho que o Biohazard também ficaria foda, ou algo inesperado e bem diferente do nosso som, tipo Portishead.

Mais Informações:
www.uganga.com.br
www.facebook.com/ugangaband
www.youtube.com/ugangamg
www.twitter.com/uganga

GALERIA DE FOTOS
por Clovis Roman (abertura para o Exodus em Curitiba, Music Hall, em janeiro de 2016)

RESENHA DVD “MANIFESTO CERRADO”
Foi com grande satisfação que recebi o DVD Manifesto Cerrado dos amigos e parceiros de longa data do Som do Darma, pois é uma banda que acompanho e aprecio há alguns anos. A união de show e documentário é uma fórmula de sucesso, pois permite ao espectador avaliar o trabalho da banda com informações de diferentes sentidos. A despeito do fato da música sempre falar mais alto, os depoimentos dos músicos sobre história do Uganga também são de valor inestimável. Comecemos com o documentário:

O filme segue ordem cronológica, e mostra a banda desde seu princípio, com outro nome e proposta sonora, seguindo então ao amadurecimento que desencana no trabalho atual do conjunto. Logo no começo há cenas da banda na MTV, quando ainda se chamavam Ganga Zumba (na época Manu ainda era baterista), e outras cenas de shows pequenos, inclusive do primeiro deles, em 1993 (portanto há 25 anos). Conta-se ainda os conflitos e dilemas acerca do debut, Atitude Lótus, e a mudança de nome para o atual, cuja origem é bastante curiosa. O Na Trilha do Homem de Bem marcou a saída de dois membros, o que inclusive sacramentou a eliminação do cargo de DJ, fato que limpou e deu mais garra ao som.

Peripécias da banda na Europa (que tomam considerável tempo), com cenas bastante honestas, e a turnê deles com o Terrordome no Brasil também aparecem, assim como o processo de gravação e divulgação de Opressor e – mesmo que rapidamente – o tão falado show da banda com o Exodus em Curitiba. Inclusive, a época de Opressor é, de longe, a que mais tempo tem no longa. A fase inicial do grupo é contada em pouco mais de 10 minutos, em um filme que dura 1h15. Relatos sinceros mostram os dilemas de quem batalha e vive no underground. O filme, no fim, mostra cada um de seus integrantes como indivíduos, como seres humanos que são, com suas fraquezas e virtudes. Um material muito bom, indispensável. Como material complementar, vale assistir o documentário Eurocaos, disponível no Youtube.

Em relação ao show, o mesmo foi gravado na estação ferroviária Stevenson, em Minas Gerais, ainda como um quinteto. O título, Manifesto Cerrado, serve para reforçar a sobrevivência da banda durante todos esses anos, afinal, ele é um Manifesto honesto de persistência. Já o vocábulo Cerrado remete a região geográfica de origem do grupo, ao mesmo tempo que pode levar a pensar em punhos cerrados, erguidos pelo público em aprovação a um bom show, o que é o caso. O formato da apresentação é pouco convencional. A banda preparou seus equipamentos em círculo, para ficar rodeada pelos espectadores, em sua maioria pessoas próximas. Um olhar para dentro de si mesmos. A mesa ao centro com uma garrafa de bebida e incensos, dá um ar intimista ao negócio. O resultado certamente deixou as atribulações de lado, dando força à unidade intitulada Uganga; ao todo composto por diferentes elementos e personalidades que entretanto se mesclam harmoniosamente em prol de um bem maior: a expressão em forma de música.

Abre o show “Sua Lei, Minha Lei (Carma 2)”, vinda de Vol. 3: Caos Carma Conceito (2010), seguida pela fantástica “O Campo” e “Nas Entranhas do Sol”, ambas do Opressor (2014). Na verdade, todo o material apresentado a seguir é do Opressor, com exceção de “Couro Cru”, original do debut Atitude Lotus (2003). Em uma versão mais pesada, eles contam com participação de Eremita, antigo parceiro, como DJ, relembrando a sonoridade antiga do grupo. Bom resgate, que se repetirá em Servus, álbum que sairá em 2019. Depois de “Modus Vivendi”, Murcego é chamado como convidado para executar “Who Are the True”, cover avassalador do Vulcano.

No cenário chama a atenção instrumentos de percussão, que ficam ali, sem uso, durante o pesado show. Com reverência, ao final de “Nos Pés da Grande Árvore”, Manu chama seus convidados (Lilian Salgado, Moisés e Tati Ribeiro) para se posicionarem. O encerramento vem já com batuques à mão, que crescem para somar em “Noite”, a saideira. As batidas afro encorpam o resultado final, o que encerra em si algo apoteótico, entretanto sem soar piegas. É um momento de despedida e ao mesmo tempo de boas-vindas: Se algo poderia ter encerrado a carreira da banda, ficou para trás. O Uganga renascia e se fortalecia ali.

Músicas:
1. Sua Lei, Minha Lei
2. O Campo
3. Nas Entranhas do Sol
4. Couro Cru
5. Opressor
6. Moleque de Pedra
7. Modus Vivendi
8. Who Are the True [Vulcano]
9. Aos Pés da Grande Árvore
10. Noite

ARQUIVO
A entrevista abaixo foi pautada, cavada e conduzida por Clovis Roman, em janeiro de 2016, quando da apresentação do Uganga na abertura do show do Exodus em Curitiba. O material originalmente foi publicado no Fanzine Mosh.

O músico Manoel Henriques, que também atende pela alcunha de Manu Joker, é o vocalista do Uganga – grupo que faz um som com identidade, calcado no Thrash Metal com letras em português. Junto a ele está seu irmão Marco Henriques, na bateria; e os também irmãos Christian Franco (guitarra) e Raphael “Ras” Franco (baixo). Completam o time a dupla de guitarristas Thiago Soraggi e o novato Murcego. O grupo mineiro está na estrada divulgando o diversificado álbum Opressor. Num bate papo rápido com Joker, ele falou sobre o passado, presente e futuro do Uganga, além de relembrar sua passagem pelo Sarcófago.

Sobre a inspiração para as letras e como elas são criadas.
Eu sempre estou escrevendo, nunca preocupado em que música que aquilo vai ser usado. Sempre guardo trechos, frases ou estrofes. Quando surge uma melodia, eu gravo para memorizar. E quando a gente entra em processo de pré-produção eu vou no meu armário e tiro aquela papelada. 50% do que eu escrevi eu aproveito. A gente prefere fazer o instrumental primeiro, crio as melodias de voz e aí eu vou ver em cima do que eu tenho escrito se dá para adaptar alguma coisa. O que me motiva [a escrever as letras] é o dia a dia, o que se passa com a gente como o  que a gente vê no mundo, tanto de maneira positiva quanto negativa. Eu diria que 90% das letras ficam comigo mesmo.

O documentário Eurotour 2010 e planos para novos vídeos.
Aquele doc que tem na net foi da primeira tour [pela Europa] em 2010. A gente fez outra turnê em 2013, e o documentário dela é um pouco mais abrangente, mostra as gravações do Opressor e vai sair num DVD de 20 anos, pela “Sapólio Radio”. Também vai sair o Opressor em versão vinil. O DVD vai ter um show nosso, feito na nossa área e com o documentário, que vai mostrar essa nova fase com três guitarras. Provavelmente entrará alguma imagem do show de hoje também [N. do R.: ele se refere ao show realizado em Curitiba, dia 27 de janeiro de 2016, ao lado do Exodus]

Discos que estão em catálogo.
Os dois primeiros não tem mais, e a 2ª prensagem feita acabou também. A gente ainda tem alguma coisa em catálogo, o selo tem na verdade, do Volume 3, mas muito pouco. O Eurocaos ainda tem. Na Galeria do Rock ainda tem algumas cópias [do v.3].

O feedback da crítica, fãs e amigos.
Sempre tem aquele amigo que abre mais o jogo, que a gente debate sobre o som. E o feedback que tivemos com esses parceiros foi totalmente positivo. Todo mundo enxergou uma evolução, a gente buscou isso, equacionando nossas influências de maneira mais eficaz. As críticas estão boas e a resposta nos shows está legal, a galera canta as letras. A gente sente que conseguimos cativar o público. Espero que possamos fazer isto hoje aqui. Estamos muito satisfeito com o álbum. É a primeira vez que eu gravo um disco e um ano depois ainda estou ouvindo ele com prazer. A gente quer se superar no próximo, já estamos em pré-produção.

Semelhança do som com o Dorsal Atlântica.
Pra mim o Dorsal é uma influência desde sempre, o Antes do Fim é disco de cabeceira. Já toquei vários covers deles em outras bandas que toquei. Eu entendo quando a galera fala que identifica nosso som com o Dorsal, é uma banda que faz parte da minha formação musical. Dos outros caras talvez nem tanto, mas a minha com certeza.

Formação com três guitarras.
Aconteceu de maneira totalmente não planejada. O Christian, meu parceiro de composição há muito tempo, teve que se ausentar dos palcos por ter de fazer um tratamento de saúde pesado, de um ano. [O tratamento] Era no sábado, e depois ele ficava zoado, não tinha como ir tocar. Para não ficar um ano parado, chamamos o Murcego. Ele tem uma formação mais anos 70, totalmente Rock and Roll, e conhece a banda desde quando começou. Um dia a gente pensou “O Christian tá voltando agora… e se a gente tentasse com três guitarras?”. No começo isso gerou uma certa desconfiança, mas com muito cuidado a gente conseguiu fazer a coisa funcionar. Já temos uma música composta com os três. Vamos gravar o próximo álbum com três guitarras. Enquanto estiverem os três no astral a gente vai continuar. Se um deles sair, acho que não vamos por outro no lugar. Essa situação é só para esses três mesmo.

Música escondida no álbum Opressor.
Aquela faixa só foi para o CD promo. Mas não foi porque a gente não quis. Acabou ficando uma faixa escondida no disco que foi pra imprensa. Eu gosto de alguns grupos de Rap, não acompanho muito, mas tem coisas que eu gosto. Principalmente os mais antigos, Racionais, Facção Central, Public Enemy, um pessoal mais politizado e agressivo. Eu tinha feito um beat com o Eremita, nosso parceiro. Eu tava lá no estúdio, em cinco minutos eu rabisquei uma letra e no 1º take a gente gravou. Não saiu no Opressor por um erro, mas com certeza vai sair em algum outro lançamento, como bônus no próximo álbum ou no DVD. Nossa escola básica é o Thrash Metal, o Hardcore, mas a gente gosta de outras coisas, como Jazz, Dub jamaicano, mas eu diria que 98% do que a gente faz é Metal e Hardcore.

Manu Joker e os tempos de Sarcófago.
Eu era muito amigo do primo do Wagner, o finado Duarte, que tocava no Nosferatu. Desde quando o Sarcófago lançou sua primeira demo, a gente já tinha em Araguari os tape Traders. Eu tocava no Angel Butcher, que já tinha metranca também, mas mais Crossover. Quando o Wagner se mudou para lá, logo depois do Inri, ele ainda tinha contrato com a Cogumelo. Fui meio que a escolha óbvia, tava perto, já tinha uma brodagem. Entrei sabendo que seria uma coisa provisória. Fui convidado pelos caras a ficar na banda, mas eu sabia que era algo passageiro, eu tava fazendo faculdade. E o meu som era mais o Thrash e o Hardcore. Mas foi uma puta experiência foda. Fui pro estúdio e gravei com os caras, e fizemos três shows com o DRI. Depois que eu saí eles falaram um pouco de merda, e fiquei 16 anos sem falar com eles. Com a ideia do Tributo ao Sarcofago, que rolou em algumas cidades, comemorando os 25 anos da coletânea (Warfare Noise). O Wagner colou lá, tomamos umas e ficou tudo na paz. Fiquei de 88 até 90. Rendeu o Rotting e aqueles três shows. Foi uma parte importante da minha história e tenho muito orgulho dela.

Três bandas em atividade com as quais gostaria de dividir o palco.
Eu ia chamar o Black Sabbath, antes de acabar [risos]. Outra seria o Faith No More, é uma unanimidade,  uma banda muito importante. Para fechar, eu colocaria o Olho Seco, para ter umas botinadas no começo da parada.

Que banda gostaria que gravasse uma cover do Uganga.
Eu ia curtir o Anthrax da fase John Bush. Gostaria também de ouvir um Suicidal Tendencies, mas seria difícil pro Mike Muir cantar em português [risos]. Aqui do Brasil acho que o Sepultura fazendo uma versão do Uganga ficaria legal também.

RESENHA OPRESSOR
Em meados de 2015, recebi também do Som do Darma o álbum novo da banda na época, Opressor. A resenha foi confeccionada naquele mesmo ano e enviada para um site parceiro. Entretanto, ficou no limbo por motivos desconhecidos e nunca foi usada pelo veículo em questão. Em janeiro de 2016, o texto viu a luz do dia aqui no Acesso Music (na época ainda embrionário). A postagem original encontra-se nesse link; abaixo, a resenha reproduzida em sua totalidade:

Uganga – Opressor
(independente – 2014)
Nota: 9

O Uganga é a atual banda de Manu Joker, músico que tem em sua história uma passagem pelo lendário Sarcófago, com a qual gravou as partes de bateria do clássico EP Rotting. Mas desse passado veloz e blasfemo pouco sobrou no quesito musical. O Rock/Metal do Uganga, com forte influência de Hardcore – o arregaço de “Moleque de Pedra” é um bom exemplo – e Thrash é um som mais trampado e esmerado. Outro ponto que chamam a atenção são as letras, cantadas em português.

A sonoridade, a princípio, remete a um Dorsal Atlântica mais refinado, principalmente pelo teor lírico (e pela maneira que os versos são cantados) e, um pouco menos, pelo instrumental. Mas ao passar das faixas essa similaridade vai se dissipando, pois o Uganga tem nuances melódicas mais evidentes que a outra. Um dos destaques nessa sequência evolutiva é a faixa título “Opressor”, cujo instrumental metálico e cadenciado alicerça uma ótima letra: “Quando não se julga pela face, vê-se a beleza do opressor” é um dos trechos.

Se o grupo se sai bem na hora de fazer sons pancadas, na hora de composições mais cadenciadas eles também mostram autoridade. Afinal, a acessível “Modus Operandi” tem passagens mais suaves, e é uma das melhores. A sua sucessora, “Nas Entranhas do Sol”, conta com dedilhados e trampo de guitarra menos veloz, enquanto “Aos Pés da Grande Árvore” tem uma introdução inclassificável, mas que depois vira um petardo de primeira. Aliás, o refrão gruda logo na primeira audição.

O Uganga (que no início grafava-se U-Ganga) encerra seu disco com a instrumental “Noite” e a serena “Guerreiro”, duas músicas que mantém o padrão. Entre elas, há “Who Are The True?”, que é um tributo deles ao Vulcano. Para finalizar os 43 minutos de Opressor (o 4º álbum da banda, fundada em 1993), há ainda uma faixa escondida após alguns minutos de silêncio. Os puristas vão torcer o nariz.

[N. do R.: Depois do texto escrito e publicado, em entrevista que conduzi com o vocalista Manu Joker, o mesmo me informou que a tal faixa escondida saiu apenas nos discos promocionais enviados à imprensa. A versão disponível para o público em geral não têm a música em questão.]

MÚSICAS
1. Guerra
2. O Campo
3. Veredas
4. Opressor
5. Moleque de Pedra
6. Casa
7. L.F.T.
8. Modus Vivendi
9. Nas Entranhas do Sol
10. Aos Pés da Grande Árvore
11. Noite
12. Who Are the True? (Vulcano)
13. Guerreiro

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